Comunicação

Eis nos na era da comunicação

O último patamar da grande Torre de Babel desmoronou-se

Os gritos ectoplasmáticos dos mortos emparedados podem agora ser escutados com aparelhos ultra sensíveis e os rumores do universo distante estão a ser decifrados numa combinação de mediunidade e aceleradores de partículas

As novas gerações recebem as suas primeiras lições ainda no ventre materno

Fetos neuróticos são psicanalisados por via placentária

A comunicação com os mortos já está tão generalizada que faz parte da programação normal dos grandes “media”

E departamentos de investigação criminal não dispensam sensitivos nos seus quadros

A comunicação processa-se em qualquer ambiente ou situação

Decifra-se a linguagem dos cetáceos, das gelatinosas alforrecas e avanços na oculta linguagem das plantas não param de surpreender

O bebé do século XXI antes de balbuciar a primeira palavra já cobriu de baba vários telemóveis topo de gama e descobriu alguma das suas subtis funções

Investigadores, desportistas de alta competição, juízes, deputados, analistas de mercado não dispensam a liofilizada e hipnótica batida sonora das Madonnas e Ladies Gaga dispensada por ergonómicos “phones hi-fi”, fabricados na Coreia

Mas a soberana confirmação de que a Comunicação domina finalmente o mundo é o êxito do NASDAQ na Bolsa de Valores de Nova York…

Uma nova praga avassala a economia mundial: povos sucumbem aos ditames dum capital cada vez mais quântico, cibernético e imbecil

Porém a comunicação ocupa os corações dos homens que reencontram a autoestima antropológica e um novo êxtase espiritual nos “ipads”, “iphones”, nos gurus dos “media”, nos novos feiticeiros da comunicação quântica e a trocar mensagens virtuais na radiosa aura da grande deusa net

Mas na grande gruta do esquecimento, onde ressoam e se registam todas as emoções humanas

ecoam cada vez mais, suspiros, guinchos, gargalhadas, mas as palavra escasseiam cada vez mais

Não há lugar mais solitário que o epicentro duma multidão nem silêncio mais profundo do que resulta da soma de todos os ruídos

Chegou a era da comunicação que mostra resultados:

O filho reencontra o pai nas malhas do facebook a menina surda vai voltar a ouvir graças à tevê…

mas os afetos são transmitidos em diferido e a catarse tornou-se a principal atividade humana

que adiantam “iphones”, mediunidades quânticas, ressonâncias cósmicas, emissões telepáticas se o nosso coração está vazio se nada temos para dizer?

ddd

poeta é quem na caminhada pára para ver

quem pinta o mundo com palavras

será fantasista, mago –  jamais poeta

 

porque a poesia está para além das palavras,

a palavra amor não é o amor

a palavra liberdade não é liberdade

a palavra rosa não exala o aroma da rosa

 

as palavras são marcas do passado

que constroem a nossa memória

 

a poesia só existe no presente

 

ddd

Recordando, refletindo, apelando

 

Ao criar no Facebook o grupo Mutual Base tinha em mente uma ideia fundamental: reunir num certo espaço as opiniões, as vontades, os desabafos, as ideias, as aspirações das pessoas que se afligem, como eu, com a vida difícil dos nossos companheiros (amigos, familiares, conhecidos, semelhantes), com a nossa própria vida dífícil, com vista a constituir uma base de apoio reciproco, um local onde se encontrem pistas, caminhos, soluções, que dependam apenas de nós próprios, de quem acredita que a vida se constrói a partir da nossa vontade e do nosso querer e que pode mudar, melhorar, se alimentarmos essa convicção.

As pessoas seguem naturalmente a lei do menor esforço e por isso preferem soluções “chave na mão”, de preferência, aquelas que dão pouco trabalho. O êxito de muitas coisas que depois criticamos, ou acusamos – e justamente -, de produzirem uma vida artificial, “pastiche”, que nos afasta do estado de felicidade – o “fast food”, os comprimidos milagrosos, as técnicas de emagrecimento de uma semana, as promessas dos políticos que sabemos de antemão que não podem ser compridas, as disciplinas “mágicas” que nos garantem a felicidade em pacotes, etc., etc. -, resulta dessa nossa preguiça de começar por construir no nosso âmago a solução dos (reais) problemas que nos afligem. Esta preguiça é natural e também

tem vantagens: se a humanidade não a tivesse, porventura ainda hoje viveria na idade da pedra, pois é necessária uma certa dose de comodismo e de preguiça, para desenvolver a imaginação que nos torna mais criativos e nos permite, largar o machado de pedra e trocá-lo pelo cartão de crédito e fazer o nosso território de caça, não já a selva, entre arriscados matagais, mas o hipermercado, entre fascinantes prateleiras repletas…

Mas, como todos sabemos, este comodismo levado ao extremo, amolece-nos, enfraquece-nos, torna-nos doentes e infelizes. E a consequência é justamente o contrário daquilo que seria de esperar. A preguiça obriga-nos a trabalhar mais – embora com menos resultados e produtividade -, a fazer mais sacrifícios, a levar uma vida monótona e triste. E destrói o nosso ambiente, põe em causa o futuro dos nossos filhos, alimenta a corrupção e as injustiças que inevitavelmente conduzem à guerra e à miséria.

O ser humano é um animal gregário. Temos a ilusão de que somos autónomos mas na realidade fazemos parte de um corpo a que chamamos a humanidade. Somos as células desse grande corpo e, por isso, a doença das células nossas vizinhas afetam-nos, uma peste num tecido distante – noutro país por exemplo -, acaba por contaminar-nos. Todos sabemos isso, mas quase sempre fazemos de conta que não sabemos. É por esta razão que as nossas democracias não funcionam, que as nossas empresas se tornam disfuncionais… Quantos de nós leram a constituição? Quantos foram alguma vez a uma assembleia de freguesia? Quantos questionaram uma gestão danosa a que assistiram na sua empresa ou na sua repartição?

Felizmente que este grande corpo que é a humanidade também contém coisas muito positivas. Em todos nós palpita um cérebro que produz soluções – mesmo contra a nossa vontade -, ideias que afinal não são propriedade de ninguém. Quando sofremos é toda a humanidade que sofre, mas também quando pensamos é toda a humanidade que pensa. Por isso todas as soluções têm de partir de nós. Devemos ser exigentes com os outros mas essa exigência só é genuína, legítima e eficaz, se começar por se aplicar em nós próprios.

Daí a necessidade de sermos solidários, cooperantes, mutualistas. Solidário, solidariedade,  faz lembrar “solidão”, e, na verdade são palavras que têm a mesma origem. “Solidão” – que tem um sentido bem diferente de “solitário” -, é um estado de unidade com o mundo (humano). Na língua inglesa é bem expressiva esta ideia. “Alone” (sozinho) é a simbiose de “all” (tudo) e “one” (um), ou seja, “tudo em um”… Por isso o estado de “solidão” – que, insisto, é muito diferente do estado de “solitário” que aflige tanto a nossa sociedade -, é um estado indispensável para ser solidário, para começar a empreender, para iniciar a nossa caminhada rumo a uma vida harmoniosa.

Tudo isto não significa que não contestemos políticas erradas, receitas doentias, que não defendamos a nossa comunidade de tudo o que ameace a chamada “coesão social”. O estado de “solidão”, indispensável à prática da solidariedade, tem sempre um pressuposto imprescindível que é o estado de “liberdade”. A liberdade é o bem mais precioso que existe, que não significa fazer o que se quer, mas poder fazer o que é preciso para vivermos (realmente) livres. É preciso entender que “liberdade” não significa apenas poder expressar-nos, reunirmos, etc. Envolve tudo o que restringe a expansão das nossas capacidades. Se a riqueza e os esforços são injustamente distribuídos, se o alimento das nossas crianças é cortado, se a nossa segurança é ameaçada, se nos descriminam, se nos impedem de ser produtivos, criativos, etc., poderemos continuar a falar e a reunir, mas já não vivemos de facto em plena liberdade. É por isso que neste espaço eu tenho frequentemente postado opiniões sobre a situação política, que me preocupa na medida em que, sendo uma ameaça à liberdade, constitui uma ameaça também à nossa capacidade de sermos solidários.

Esta reflexão tem o propósito de reavivar a ideia original da criação do grupo Mutual Base e do que julgo ser a pertinência, a oportunidade e a necessidade, de cooperar, de sermos mutualistas, de sermos criativos, de não esperar pelos outros, nem pelas instituições, para tomarmos a iniciativa, empreender, para resolver os nossos problemas. Insisto que não devemos esperar por receitas mágicas, grandes investidores que nos vão assegurar bons empregos, políticos que interpretam o nosso querer e que resolvem tudo por nós, estados providência que a todos socorra sem darmos nada em troca. Tudo deve começar por nós. Se empreendermos teremos muito mais legitimidade – e força -, para reivindicar mais justiça social, ser mais exigentes e dispor de instituições mais competentes.

Por isso apelo a que participem mais no grupo, que adicionem mais amigos, que apresentem ideias, discutam problemas. Inicialmente coloquei o grupo na condição de “secreto” porque admiti que dessa forma as pessoas pudessem ser menos tímidas e fossem mais capazes de expor as suas ideias ou necessidades. Aos poucos apercebi-me que não havia necessidade dessa condição e passei o grupo para a condição de “aberto”. Mas o número de participantes não tem aumentado o que mostra que os meus argumentos não têm sido convincentes. É muito provável que seja essa a razão principal dessa falta de crescimento.

Mas também estou convencido que a ideia do mutualismo, as potencialidades da cooperação e das iniciativas baseadas no apoio recíproco, não colhem mais adeptos porque tendemos a acreditar pouco nas nossas potencialidades. Estamos tão habituados a tudo partir de cima, que temos dificuldade em perceber que, na realidade, tudo começa por baixo. Somos todos, incluindo eu – sei bem do que falo –, preguiçosos, comodistas, e no entanto muitos de nós trabalham demasiado, sofrem de fadiga crónica, descansam pouco. Compreendam que não pretendo ofender ninguém. Não é essa a minha intenção. Só pretendo incentivar a auto-observação e dar o meu contributo para que (todos) possamos viver melhor.

Se tiveram a paciência de ler este texto até ao fim fico muito agradecido e esperançado. Se não estiverem de acordo comigo não hesitem em contestar-me pois não sou senhor da verdade, nem tenho soluções para tudo. E como sou demasiado preguiçoso para liderar seja o que for, estou sempre muito recetivo a todas as opiniões… Venham de lá elas.

Tenham um revigorante e tranquilo fim de semana!

ddd

O génio de Paulo Portas

Posso estar enganado mas este apoio tardio e lacónico à proposta de orçamento de estado para 2013, hoje expresso pelo CDS através de comunicado escrito, prognostica que o partido de Paulo Portas, se prepara para abandonar o governo anunciando previamente que continuará, “patrioticamente”, a apoiá-lo…

O inefável Paulo Portas, como personagem estruturalmente desonesta que é, tem capacidade para se adaptar a qualquer estrago, menos ao da queda das máscaras patrioteiras que veste. Não quererá pois esfarpelar mais essas muito esburacadas vestimentas que já não conseguem esconder a sua despudorada figura mas que ainda produzem, julga ele, algum efeito junto dos seus pares na coletividade recreativa a que preside. Nas eleições dos Açores poderá ter descoberto que já tem pouca margem para prolongar a sua sórdida mascarada. Por isso procurará recompor-se pondo o cuzinho de fora, e apoiará o governo apenas no parlamento.

Se isto se concretizar PP, duma penada só, resolve vários problemas:

Ao PSD facultará um álibi perfeito para efetuar uma desejada remodelação que se torna por esta razão inevitável e que dará um segundo fôlego a Passos Coelho.

Ao nosso encavacado presidente fornecerá uma oportunidade para exercer os seus poderes, mostrar que justifica o lugar e cozinhar uma solução que no essencial nada mudará e, sobretudo, que não o obrigará a fazer o que mais teme – convocar eleições antecipadas.

Ao CDS permitirá no parlamento voltar a botar figura e mostrar a sua nobre matriz democrata cristã, simulando uma oposição construtiva, fazendo acreditar que não é um partido moribundo.

À direita interesseira portuguesa, agora muito assustada, proporcionará algum sossego e mão livre para mostrar alguma generosidade, sem nada arriscar e com as vantagens já obtidas asseguradas.

À troika e aos neoliberais que dominam a Europa, justificar um ajustamento providencial e “generoso” – talvez uma redução de juros ou ampliação dos prazos -, que bem poderá ser uma demostração para outros países, que afinal compensa ser bom aluno e/ou um ensaio laboratorial de novas receitas económicas. Ao fim e ao cabo o estrago que desejavam no essencial já está feito e já evidenciaram bem quem manda e quem deve obedecer.

E o inefável Paulo Portas ganhará tempo precioso para ensaiar novas mascaradas…

Inconvenientes: A lamentável perda de três notáveis ministros – a promissora ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, a bomboca Assunção Cristas, o generoso ministro da Solidariedade e Segurança Social, Pedro Mota Soares, mais conhecido entre os nossos velhotes pelo rapaz da lambreta, e, claro está, o mais precioso de todos eles, o mais criativo e prolifero chefe da diplomacia que alguma vez passou pelas Necessidades… Mas não há bela sem senão!

O que poderá estragar este (provável) plano é, uma vez mais, a rua… Afinal de contas tem razão o sr. cardeal patriarca.

Se assim for, Paulo Portas tornar-se-á num dos mais versáteis e geniais políticos portugueses. Arrisca-se mesmo a ficar na história por boas razões e a ser medalhado no próximo 10 de junho…

ddd

Comichões

D. José Policarpo, cardeal patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, afirmou ontem em Fátima numa conferência de imprensa, que “não se resolve nada contestando, indo para grandes manifestações” e que na atual situação “existem sinais positivos (…) e que estes sacrifícios levarão a resultados positivos”. “O que está a acontecer é uma corrosão da harmonia democrática da nossa constituição e do nosso sistema constitucional” – acrescentou o cardeal, que criticou a “reação coletiva a este momento nacional, que dá a ideia de que a única coisa que se pretende é mudar o Governo”. Mas “não nos peçam que entremos na balbúrdia das opiniões”, porque, frisou bem, não cabe aos bispos comentar a situação política. Quem diria…

 

Parece coincidência mas não deixa de ser curioso que estas afirmações tenham sido propaladas na véspera de mais uma anunciada jornada de manifestações populares por todo o país, pela cultura, contra a política de austeridade e os ataques à democracia que têm vindo a ser implementadas pelo atual governo com a ajuda dos representantes das instituições financeiras internacionais – “Troika”. Tudo isto enquanto decorria naquele local de culto uma outra manifestação gigantesca de pessoas que procuram, através da fé, encontrar a segurança e o conforto que a sociedade civil lhes nega cada dia mais e mais.

 

 

É certo que D. José Policarpo numa recente entrevista reconheceu a existência “ da ‘comichão’ que nos fazem as dificuldades económicas do presente” e que o “problema de Portugal e o problema da Europa (…) é um problema de compreensão da pessoa humana”, resultante do “egoísmo individualista de quem abandonou os critérios éticos da honestidade e não hesita em se aproveitar da facilidade da circulação de dinheiro (…) para outros fins que não o bem comum”, proporcionado pelo “sistema económico-financeiro liberal” onde estamos inseridos.

 

Mas logo conclui que não há alternativa às receitas que estão a ser aplicadas admitindo apenas como paliativo a prática da solidariedade e da caridade. “Se formos solidários, nós os portugueses temos possibilidades de resolver os problemas que os nossos irmãos estão a passar. Não as grandes questões económicas, porque isso não nos compete.”

 

 

Será que o Sr. cardeal ignora que a democracia não se esgota no sistema representativo e que tem como conceitos base “o maior bem para o maior número” e “o governo do povo para o povo e pelo povo”? Será que não se apercebeu que “os gastos desnecessários e excessivos” dos últimos anos não foram feitos por todos nem em proveito de toda a gente? Não se terá apercebido que as desigualdades sociais não têm parado de agravar-se contrariando o que seria expectante numa sociedade tecnológica que não para de evoluir? Será que não entende que a tarefa de “salvar almas” não é incompatível, antes pelo contrário, com a tarefa de “salvar vidas”?

 

Ou será que apenas está acomodado a uma situação de privilégio que uma igreja frequentemente mais apegada a bens materiais do que a valores espirituais, ainda goza nesta nossa democracia maltratada? Ou será que alinha com os que persistem em utilizar a fé das pessoas para responder (iludindo) a questões tão seculares como o combate à miséria e à ignorância, ou a luta pela justiça social e o desenvolvimento?

 

“A César o que é de César; a Deus o que é de Deus”. Os problemas que vivemos estão no domínio de César, são de natureza bem terrena e política e compete ao povo resolvê-los, com a sua iniciativa, com a sua inteligência, com a sua participação política. Nas ruas ou nas instituições, em casa ou no local de trabalho. Deus, como sempre, com a sua generosidade, certamente ajudará – assim as pessoas o queiram -, mas não se espere que venha a aprovar orçamentos ou escolher saídas para as crises que os Césares deste mundo continuam a gerar.

 

A contestação e as manifestações de rua são formas constitucionalmente previstas para as pessoas reclamarem os seus direitos e exibirem a sua indignação. Não põem em causa a democracia. Quem a está a pôr em causa, bem pelo contrário, é gente que cada vez mais se acoberta, que decide o destino do povo em gabinetes fechados e que teme sair à rua.

 

Peça a Deus D. Januário que o povo não precise de ir além destes meios para defender a sua dignidade e a democracia de que ainda dispõe.

 

ddd

A verdadeira natureza

A verdadeira natureza está por aí

entre o ser e o nada

 

Afunda-se o brilho do olhar

a garganta afoga as palavras na rouquidão

instala-se o desconcerto pelo corpo

 

A noite afaga em sonhos

a alma partida

está de volta o fantasma das trevas

 

Onde está essa aurora outrora prometida

que nos sonhos ainda se adivinha?

 

Essa alvorada tarda e os pobres seres desesperam

já não creem em messias

nem em mitos salvadores

Prometeu perdeu-se nas montanhas

a chama dos dos deuses tornou-se virtual

o seio da mãe é o último reduto de esperança

(onde pára esse peito redentor?)

 

Estamos fartos de simulacros de vida

de projetos adiados

de prazeres temporários

 

Se houvesse um responsável…

ah, se houvesse um responsável!

 

 

ddd

O embaraço da democracia

O embaraço da democracia

“Sabemos para onde vamos”, afirmou ontem Passos – “gauleiter” do sub-reptício IV Reich de Merkel – a fazer lembrar o “sei bem o que quero e para onde vou”, de Salazar, na sua tomada de posse como ministro das finanças, em 1928. Salazar teve êxito e chegou mesmo onde queria: Transformou Portugal numa nação ruralista, nostálgica dum passado mitificado, liderada por maiorais medievos prepotentes e dominadores dum povo empobrecido, servil, amedrontado, de boina na mão.

Mas Salazar tinha na altura uma vantagem sobre Passos: uma ditadura militar implantada dois anos antes para suprimir os desvarios da democracia introduzida pela República em 1910. É talvez por isso, que neste tempo de crise, os maiorais do presente – agora democratas exigentes – deixem escapar certos “lapsus linguae” como o de Manuela Ferreira Leite (http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=A5naDDnigsw), que admitia ser bom suspender a democracia para pôr tudo em ordem, e depois, “venha lá a democracia”. Claro, uma certa democracia, uma democracia conveniente, que salvaguardasse antes de tudo o interesse dos iluminados como ela.

Na realidade, como reconhecia Manuela Ferreira Leite, é difícil, fazer reformas em democracia, sobretudo quando essas reformas vão contra os interesses do povo. É por isso que os governos iluminados, que querem à viva força “salvar” os povos aplicando o método “eu digo como é, e faz-se como eu digo” – cito uma vez mais M.F.L.-, recorrem a todos os expedientes para minar as democracias. Antes de mais usando a técnica de “fazer o mal e a caramunha”. Gerem as instituições do Estado Democrático e as empresas públicas delapidando-as intencionalmente, para depois, perante os desastrosos efeitos que produzem, os mesmíssimos, camuflando os despudorados lucros arrecadados, atribuírem as culpas e responsabilidades aos desvarios e impunidades que a democracia consente. Juram o seu amor à democracia mas corroem os seus alicerces aproveitando todas oportunidades para objetivamente a desacreditar. E o seu esforço é frequentemente recompensado: algumas das mais tenebrosas ditaduras nasceram de democracias assassinadas desta forma.

Esses falsos amigos da democracia precisam de algo mais que a hipocrisia e a desonestidade intelectual para assim proceder. Precisam da desatenção e desinformação da opinião pública e, a partir dela, vulgarizar a desconfiança nos políticos e na política, fazendo crer que “é tudo igual” ou que todos são “ farinha do mesmo saco”. Mas eles próprios põem-se à margem. Dão a entender que estão acima da política e acima dos partidos.

Esta desatenção e desinformação têm de ser construídas. Há oitenta anos quando o marketing político era ainda insipiente e o condutismo e as técnicas científicas de condicionamento das massas estavam a dar os primeiros passos, esta tarefa era feita a partir do púlpito, manipulando a fé das pessoas, ou a partir dos espetáculos, utilizando o potencial evasivo e catártico destes eventos. Tudo isto era acompanhado pelo indispensável matraquear das máquinas de propaganda que nenhum “governo forte” dispensava: Seria possível o “sucesso” da Alemanha NAZI sem o contributo empenhado do Dr. Goebbels e do seu Ministério da Propaganda, ou o êxito do Estado Novo sem o Secretariado Nacional da Propaganda, antecessor do SNI? Máquinas de propaganda, claro está, protegidas por uma censura eficiente, capaz de destrinçar os bons dos maus espetáculos, a boa da má cultura, a informação conveniente da prejudicial…

Mas hoje o “capitalismo triunfante” obtém efeitos equivalentes utilizando o prodigioso progresso dos “media” que teve artes de pôr ao seu serviço. Agora, o marketing político e as técnicas de condicionamento e manipulação das massas, já não são incipientes. Estão cientificamente testadas e são aplicadas por profissionais competentes a partir dum novo púlpito: Uma Comunicação Social cada vez mais servil, da qual se destaca a omnipresente Televisão. A ideologia dominante pode agora ser veiculada sem recurso a ministérios da propaganda e o trabalho é tão perfeito que dispensa o lápis azul das censuras.

Passos Coelho e a sua presunçosa equipa de experimentalistas neoliberais contam com esta Comunicação Social favorável, que a cada momento se recria e reinveste na manipulação, de forma subtil. Tão subtil que por vezes até parece contituir um obstáculo à sua bacoca governação. Basta constatar a unanimidade que promove à volta da necessidade de remodelar o atual governo, estratagema para dar uma segunda oportunidade a este poder e a esta política, bem como o insistente matraquear na desgraça que seria para o país se este governo caísse e fossem marcadas novas eleições.  Basta observar o inusitado relevo que dá às propostas duma certa esquerda que defende um capitalismo sem capitalistas, que não consegue libertar-se do conceito de salariato, que não entende – ou não quer entender -, que enquanto houver assalariados haverá, “ipso facto”, patronato e logo exploração e que persiste em ver no empreendedorismo uma ameaça. Basta ainda ver como está a dar a oportunidade de branquear os “curricula” políticos de figuras que estão na génese da situação atual, a coberto dos erros grotescos do atual governo.

Mas, apesar destas preciosas ajudas, faltam-lhe os tais seis meses (sempre prorrogáveis) de suspensão da democracia, porque, por pior que seja uma democracia, é sempre um embaraço e um obstáculo para os governos iluminados, que querem à viva força salvar povos da desgraça. Uma ditadura, mesmo de curto prazo, que jeito daria agora a Passos e a Gaspar!…

A democracia, por pior e mais mal estruturada que seja, dificulta sempre a tarefa dos que querem governar contra a vontade do povo. Por isso as ideias que surgem um pouco por todo o lado de condenar em bloco o sistema partidário e a chamada classe política são um erro clamoroso e perigoso. Tal como também o é condenar as instituições democráticas – parlamento, tribunais, etc. -, ou propor reduções do número deputados sob pretextos economicistas, sem considerar a questão da proporcionalidade. Não são 30 deputados “a mais” que agravam a situação do país. Pelo contrário 30 deputados a menos reduziria o valor da já débil representatividade democrática.

A democracia tal como existe, deve evoluir e ser melhor servida, mas de forma alguma cessar. Deve alargar o seu âmbito, ampliar o seu nível de representatividade e sobretudo tornar-se participativa. Ou seja: deve de deixar de ser FORMAL e transformar-se em REAL. Numa sociedade humana, moderna, inclusiva, a solução dos problemas não reside em “pôr de lado” mas sim em “pôr a funcionar”. Se os funcionários públicos são dispendiosos, em vez de despedi-los, tornemo-los produtivos. Se os deputados não exprimem a vontade do povo nem merecem confiança, escolham-se de outra modo, arranje-se forma de que passem a exprimi-la e a merecer confiança. Se a democracia não funciona, não se mande suspendê-la: que se ponha a funcionar.

ddd