O treino dos ovinos

 

O tartufo da Madeira exulta. Tudo lhe corre bem. Até as calamidades lhe dão jeito… Ganha dinheiro e prestígio com tudo, até com as catástrofes naturais… A Madeira está para Portugal como a Sicília está para a Itália. Mas ninguém dá por isso. Jardim, à semelhança dos grandes padrinhos da máfia italiana, controla tudo o que é poder e fala como se fosse o dono do arquipélago que governa como quer… A Madeira não “é um jardim”: A Madeira “é do Jardim”. Na Madeira o Dia da Liberdade – que restituiu alguma dignidade e reconhecimento internacional ao povo português – não é comemorado porque o Jardim, que vive à conta do “regime”. é contra o “regime”. E como não há “24 de Abril”, comemora-se o “25 de Novembro”… E os “contenentais” que paguem.

A prova de que Portugal precisa duma revolução, antes de mais, de mentalidades, é a de termos há décadas no exercício do poder e como Conselheiro de Estado, gente como Alberto João Jardim. Salazar, se fosse vivo, inteligente como era, já teria descoberto que não precisava de polícia política para se perpetuar no poder. Bastava-lhe ter ao seu serviço uma comunicação social prestimosa e diligente como a que temos agora. Uma comunicação social que, lamentavelmente, de social só tem o nome. E não me falem de exceções: Todos os dias vejo o povo a ser preparado para aceitar a mediocridade como algo inevitável…

O redil está quase concluído e os maiorais já estão a postos e até temos timoneiros. Falta só cumprir o treino dos ovinos.

ddd

“À la mode de Camões”

 

Por artes de ladrões dissimulados

Nesta ocidental terra lusitana

Estratégias nunca de antes ensaiadas

Lograram um governo safardana

Em mentiras e tretas esforçados

Tudo prometeram à massa humana

E mais remoto ainda transformaram

O pais que desde sempre saquearam

 

E volveram as memórias tenebrosas

Daqueles tempos que foram dilatando

Os poderes e riquezas viciosas

Duns quantos que viveram devastando

O trabalho e as obras valerosas

Que o povo miserável foi criando.

Gritando espalharei por toda a parte

Os crimes deste poder sem jeito e arte.

 

Cesse o verbo falso, cesse o engano

 Dos que criaram este poder e o promoveram

 Cale-se Marcelo e Crespo que num arcano

 a fama de Cavaco enalteceram

 Que eu trago no peito fruste lusitano

 Rancores antigos que cresceram

 E matar poderei quem desencanta

Este povo que se verga e não levanta.

 

Estai atento então apurai essas orelhas

 das sereias recusai o torpe encanto

que gente descuidada torna ovelhas

 se de sua maviosa voz ouvir o canto

 se com Portas e Menezes te aconselhas

 por mais fé que tenhas não garanto

 que a tua vida não piore dia-a-dia

 por redobrada que seja tua porfia

 

Reservado ouvi o púlpito com a noção

 que mistura virtude com artimanhas;

 do jornal tende sempre em atenção

 Se é pra ler ou pra levar castanhas

 Ganha coragem e desliga a televisão

 que o Relvas alimenta com patranhas

 pela voz de Júlias, Gouchas e da Fátima

 que te põem a cabeça numa lástima

 

Desconfia das palavras bem sonantes

 que confundem a tua mente inquieta

 são tretas cultivadas por tratantes

 que procuram tomar-te por pateta

gente que vive à conta de ignorantes

 e que não quer largar a doce teta

 Pensa por ti um dia só que seja

E essa malta morrerá toda de inveja

 

O mar que esta nobre nação banha

 É agora cemitério de traineiras

 Que um tal Cavaco numa sanha

 afundou num vil golpe sem maneiras

 Que faria corar a rival Espanha

 De vergonha destas lides trapaceiras

 Mas Cavaco não se deixa encavacar

 E sem pudor aponta de novo o mar

 

Mas este mar é mar de cabotinos

 Um mar triste sem peixe nem gaivotas

 Onde vogam dois inúteis submarinos

 Que por míngua de recursos não têm frotas

 Em busca de mostrengos gambuzinos

 Obedecendo a ordens idiotas

 Que já não querem descobrir mundo

Apenas afundar o país lá mais fundo

 

Ouvi turba atenta o meu conselho

 Nesta lusa terra não se arrisque

 Que nela salta e pula um tal coelho

 Capaz de desfazer tudo o que existe

 Este bicho que em vez de pelo tem pentelho

 Não passa dum burrico vil e triste

 Urge pois fazer-lhe rija caça

 Pra livrar a terra de tal raça.

 

ddd

Fado dedicado à atual situação do país

Inspirado no fado de Anibal Nazaré “Tudo isto é Fado”. Para cantar com a mesma música.

 

Perguntaste-me o outro dia

Se eu sabia o nosso estado

Eu disse que não sabia

E tu ficaste admirado

 

Temendo que te ofendesse

Eu menti naquela hora

Mas antes que me esquecesse

Decidi contar-te agora

 

(Refrão)

Gente esquecida,

Desaprendida

Do seu passado

Vive  sonhando

e lamentando

Seu triste fado

 

Mas malta à espreita

Destas maleitas

Com muita manha

Impõe receitas

Pagas e feitas

Na Alemanha

 

Continuas sem saber

Porque vives neste estado

Eu respondo-te, é por querer

Cantar sempre o mesmo fado

 

Apesar do que te digo

Tu preferes quem te engana

Andas sempre distraído

Apoias qualquer sacana

 

(Refrão)

Gente esquecida…

 

Podes queixar-te e chorar

Que outra vida não terás

Se não começares a pensar

Que sem ti nada se faz

 

Os que dizem que o teu fado

É voltar à vida dura

São saudosos do passado

Amigos da ditadura

(Refrão)

Gente esquecida…

 

O trabalho dá proveitos

Que fornece a natureza

Esmolas, rácios, direitos

Não acabam com a pobreza

 

Não confies nos que ensinam

Como deves arriscar

E que um cheque nunca assinam

Dos que têm de  pagar

 

(Refrão)

Gente esquecida…

 

Agora que te mostrei

As razões do teu estado

Antes de agir pensa bem

Muda a letra do teu fado

 

Faz de ti uma canção

Afina a tua guitarra

Está lá fora a multidão

P’ra cantar à desgarrada

 

(Refrão)

Gente esquecida…

Passeio

 

Vagueio pelas ruas – absorto

a ruminar ideias mal digeridas.

Vislumbro a turba que passa

e só uma ou outra linha corporal mais torneada

interrompe a minha apatia

 

Estou só na cidade

rodeado de objetos reluzentes

de panos macios

de palcos de vidraça

de neons gelatinosos

de dispersos olhares faiscantes

 

Tudo se move apressado

tudo é espreitado, nada visto

não há sombra

adivinha-se o negro nas esquinas

mas a sombra é proibida

Este é um tempo sem sombras

de projetores a cobrir cada movimento.

 

O aroma da cidade é agridoce

de pipocas e de relva aparada

é o reino do perfeito kitsch

onde antúrios e gerberas sem defeito

mais parecem de plástico

é o universo da higiene programada

e dos sorrisos com horário

 

Passeio no meio de corpos vazios

que só conservam a forma

e não se preocupam com isso

 

ouvem-se vozes nas ruas

mas ninguém fala

é um mundo de silêncio ruidoso, sem discursos

só pequenas frases interrompidas, balbuciadas

os raros discursos são de bêbados

ou de loucos, ou dos que perderam o controlo…

Claro: há o futebol e os concertos

mas aí não há discursos

não se fala nem se grita

esvazia-se o ar dos pulmões numa rotina sensual

à procura desse orgasmo massificado

concebido nos laboratórios do marketing relacional

 

Sento-me para saber ao que ando

“Distrai-te, convive, sai,” ouço lá ao longe…

Sou um estrangeiro numa Tebas distante

rodeado de alamedas de esfinges mudas

 

Estou cansado

Apercebo-me melhor do frenesim da cidade:

tenho nele a inequívoca prova da existência humana

existência vaga, formiguenta

tão anónima como a minha

mais estranha que estrangeira,

fugaz, tímida, obscura

que não quer ver-se reconhecida

mas que procura a todo o custo

vislumbrar o seu reflexo…

 

 

Afinal não estou só:

Outros estrangeiros vagueiam por aí.

 

ddd

A política e as palavras

Todos sabemos que as palavras são representações de coisas ou de factos, signos afinal, que podem valer muito ou nada valer, dependendo do conteúdo afetivo, do potencial de concretização e de ação que arrastam consigo e que fazem reviver na nossa memória, nómenos, coisas reais, ações, gestos. É talvez por isso que todo o ser humano acompanha o ato de falar gesticulando. Os gestos que desenhamos no espaço quando falamos – gestos de bater, martelar, apontar (fuzilar?), afagar… – talvez sejam um reforço no sentido de colar a parte do real a que se reporta cada palavra, ou do edifício que construímos com elas…

E as palavras gastam-se, deterioram-se, deturpam-se, renovam-se. Sem dúvida têm vida própria mas uma vida que só tem razão de ser se não perder o tal valor representativo original ou que adquire em cada momento. Todos sabemos isso e já testemunhámos isso: a palavra “amor” tem um significado diferente quando proferida pelo papa Bento XVI, por Nelson Mandela, Krishnamurti ou Isabel Jonet…

Também as palavras têm importâncias diferentes, diria mesmo que têm valor de “classe”. Há palavras “impróprias” para pobres e incultos, e palavras que só “ficam bem” na boca de marginais ou indigentes. Algumas foram mesmo proscritas, tornaram-se “intocáveis”: ou por serem demasiado sagradas e amedrontarem, ou por serem tão abjetas que repugnam. Outras ainda tornaram-se caricaturas risíveis, são a máscara de outras, que nos diverte ou que ignoramos.

Muito mais se podia especular sobre este tema, como por exemplo, o caráter muito hierarquizado mas apesar disso pouco controverso das palavras que representam coisas, substantivas, como “mãe”, “arroz”, “combóio”, “árvore”, ou o caráter universal mas muito controverso, das palavras que qualificam, que exprimem ações ou que designam estados, emoções, como “amor”, “paz”, “pobreza”, “honestidade”, “justiça”… Mas não é sobre este assunto complexo, que aliás domino mal, que queria falar.

Queria falar na relação entre a ação política e o poder das palavras. Salazar dominou Portugal quase meio século, menos por ação dos poderes ditatoriais de que se investiu – polícia política, censura e propaganda – do que pelo domínio da palavra da qual era um mestre. Ele seguiu à letra o que um dia exprimiu na frase “em política o que parece é”. Por isso usou as palavras sem nunca se agarrar a elas. A essência de Salazar, expressa muito cedo no “sei bem o que quero e para onde vou” do seu discurso de tomada de posse como ministro das finanças em 1928, era, sempre foi, a de alguém rigidamente agarrado a um passado hierarquizado em que “manda quem pode (os eleitos no qual ele se incluía) e obedece quem deve (a grande maioria dos cidadãos) ”, quadro idílico da sociedade que podia ser tudo menos democrática, porque para Salazar, a diferença entre as classes, não era para negar, nem para promover, nem sequer para combater, mas para preservar e cultivar. Salazar precisava de pobres (obedientes) porque sem pobres os “seus” ricos não podiam ser “bons”, não podiam exercer as suas “virtudes”. E um pobre devia continuar a ser pobre porque um pobre que deixa de ser pobre é um mau exemplo, um exemplo perigoso, subversivo. Para Salazar os ricos deviam ser protegidos, não como casta privilegiada, mas porque tinham uma missão, um dever, que era a “previdência” que determinava. Claro que os ricos que beneficiavam destas benesses do Estado Novo tinham outro ponto de vista sobre o assunto, outra noção bem mais prosaica do “dever”. E o próprio Salazar talvez também o tivesse apesar do seu discurso. Mas, como ele dizia, “em política o que parece é”… Tudo isto encaixava perfeitamente no fado, na idiossincrasia dos portugueses…

Vem isto a propósito da palavra “esquerda” sempre tão badalada, sobretudo neste período de crise. Será a palavra assim tão importante? A modesta génese da palavra “esquerda” nunca prognosticava a tamanha importância que veio a adquirir. De início apresentava a posição dos representantes do povo – Terceiro Estado -, na Assembleia que se seguiu aos Estados Gerais convocados por Luís XVI na sequência da bancarrota do estado francês. Esses representantes do povo defendiam a mudança, eram partidários do progresso, da liberdade, da igualdade. À direita sentavam-se os que defendiam os privilégios da nobreza e do clero, e que se opunham a qualquer mudança que os pusesse em causa.

Esta palavra evoluiu e adquiriu nuances inesperadas. O conceito de socialismo por ter a ver com as ideias de igualdade, liberdade, progresso, foi sempre identificado com a palavra “esquerda”.  Mas porque este tipo de ideias de reforma social tem génese muito diversificada, foi modelando a palavra “esquerda”. Assim surgiram “esquerda moderada”, “extrema esquerda”, “centro esquerda”, “esquerdista”, “esquerdismo”, nova esquerda, etc.

Por razões óbvias a palavra “esquerda”, está associada a “povo” e ao que se supõe ao povo interessar, embora quase sempre de forma não explicita. Próprio do povo, “popular”, é igualmente associado a “esquerda”. Ninguém se atreve a vestir os trajes da “direita” – verbais ou visuais – para comunicar com o povo. Daí os bonés populares do dr. Paulo Portas em tempos de eleições. Daí a nobreza cantar o fado nas tascas frequentadas pelos pobres. Daí Salazar nunca se considerar de direita e achar a política desaconselhável… Todos, mesmo os mais tenebrosos ditadores, governam para o povo e a bem do povo. Isto é, todos são de “esquerda” mas não se atrevem a dizê-lo de forma explícita, pois a pobreza e a miséria, enquanto algo intrinsecamente popular, repugnam o povo, e ninguém melhor que a burguesia dominante sabe disso. Nenhum pobre “normal” se orgulha da sua pobreza, se orgulha do seu “bidon ville”, ou da sua favela.

Por isso a burguesia no poder inventa formas enviesadas, subliminares, de mostrar que é de “esquerda”, que é a genuína defensora dos interesses populares. Hitler batizou o seu partido, que hoje ninguém tem dúvidas em classificar de “extrema direita”, de “partido nacional SOCIALISTA dos TRABALHADORES alemães. M.Caetano vendo o salazarismo perder terreno, apressou-se a acrescentar o epíteto “popular” ao partido do Estado Novo que passou a designar-se “ação nacional popular”. Hoje todos partidos ditos “conservadores” têm qualquer coisa no seu nome que reporta ao velho conceito de esquerda: Ou são “populares”, ou são “cristãos”, ou são “democráticos” ou até são “socialistas”… São tudo formas de se mostrar partidário do povo, amigo dos pobres…

Admitindo como bom este ponto de vista poder-se-á inferir que “ser de esquerda” pode significar muito, pouco ou nada. Tudo depende da ação, das intenções e do comportamento de quem assim se identifica. Não me lembro de Mandela ou de Gandhi fazerem referências constantes à sua condição (indiscutível) de homens de esquerda. Tal como não me lembro de Salazar ou de Franco se identificarem com a sua condição (indiscutível) de homens de direita. Uns e outros sabiam “bem o queriam e para onde iam”. Sabiam que as palavras só têm valor se corresponderem a algo concreto e não se limitarem a ser ícones de piedosas intensões.

Se a política é a arte de governar a cidade, quem a ela se dedica, deve saber que o que conta é para onde se vai e não o que se afirma ser. Tal como não bastam declarações de amor para mostrar a alguém que se ama. Podem ser necessárias essas declarações a certa altura mas o amor tem de ser consubstanciado muito mais em ações do que em palavras. A natureza do povo é a esquerda, a ideia de esquerda original – não a palavra “esquerda” – porque quer se goste ou não da palavra, é a ideia que corresponde aos seus interesses vitais. Por assim dizer a ideia de direita, é o vácuo deixado em aberto pela esquerda.

É por isso que urge entre nós, mais do que discutir fórmulas e nomes, batalhar-se por concretizar a ideia de ESQUERDA, uma ideia que dispensa nomes mas que não dispensa ações. Mandela não teve qualquer hesitação em apertar as mãos dos carrascos que o agrilhoaram por décadas e de os fazer ministros do seu governo, para construir e consolidar a democracia sul-africana. E saiu vitorioso.

Entre nós a direita, desorientada, falida, sem ideias, continua a dominar, arrastando o país para a decadência e a miséria. Enquanto isso a esquerda, continua apegada a ícones, apegada a fórmulas e a piedosas intensões. A ideia de ESQUERDA continua submergida pela palavra “esquerda” evocada constantemente por personalidades, partidos e organizações políticas, em vão, contra um muro de lamentações onde um desconhecido deus aguarda o momento mágico que resolve todos os problemas humanos

As palavras – na vida em geral e na política – quando se usam em excesso e em vão, quando não correspondem a ações concretas, quando não se traduzem em atos, esvaziam-se do seu sentido e geram no povo anticorpos que as rejeitam. Este é um dos maiores riscos que se corre atualmente. Mas parece ninguém dar por isso. Parece ninguém se importar. Se não estou enganado – e desejo estar! – a maioria das pessoas parece mais preocupada com o que parece do que com o que é. Até quando?

ddd

Credo

 

Creio que o universo é sem fim e sem princípio

e é a justificação de si próprio

 

Creio que a consciência é o sentido do universo

e como ele é sem princípio nem fim

 

Creio que o ego é o limite que nos impomos

e que nos torna mortais

 

Creio na imortalidade da vida

consubstanciada na unidade de todos os seres

 

Creio no movimento perpétuo

e na ilusão de tempo que esse movimento produz

 

Creio no vazio que tudo gera

e no cheio que ao nada se reduz

 

Creio no instante que tudo contém

e no pensamento que não é pensado

 

Creio que o afeto não egoísta

é a energia do universo

 

Creio que o sofrimento é o apego dos seres

à sua forma mutável

 

Creio que a felicidade é possível

ainda que a par do sofrimento

 

Creio que a liberdade

é não ter medo de lutar contra a ignorância

 

Creio que o sentido da existência

é a eterna busca da perfeição renovada em cada vida que nasce

 

Creio que o autêntico prazer

é estar acordado e solto no fluir da vida

ddd

Infinito

Por um momento

parei no tempo

e vislumbrei o infinito

 

não aquele

que de viés, atravessa fulminante a minha vida,

e se esgueira numa nebulosa semântica

que uso para designá-lo

 

mas, o outro:

o real, o que não tem nome

aquele que os sentidos não abarcam

 

é algo indelével

um mergulho

na cósmica bolsa amniótica

suave e leve

onde se flutua na essência da absoluta liberdade…

 

Abismei!…

 

era tão vasto, tão infinito

esse infinito

e no entanto tão leve

tão condensado

que cabia na palma da minha mão…

 

por um momento fui livre e eterno

apreciei a leveza de quem nada receia

gozei a ausência do prazer e da dor…

 

 

mas a marcha do tempo volveu

na inércia do temor da liberdade

que persiste no meu coração

 

e o infinito escapou-se…

voltou ao residual verbo

que acalenta a memória

dessa madrugada mítica

de sonho e liberdade

que tanto tarda em chegar

 

regresso à recoleção de vestígios

indícios, fosseis da liberdade perdida…

 

com mais afã

procuro “insights” nos interstícios dos signos

que bordejam o meu caminho

 

e fatigo-me, impaciento-me

delapido a minha escassa energia

fingindo ignorar

que o infinito onde habita a liberdade adiada

continua aqui,

incólume, disponível,

na palma da minha mão…

Adaptação ao retrocesso

Estou convicto que já passei, há muito, o “meio do caminho desta vida” e, contrariamente à experiência de Dante, muito antes desse ponto de viragem, vivenciei a “selva escura” da vida difícil. Vida difícil, minha e de muita gente que conheço e conheci. E aos poucos tenho vindo a tomar consciência – e, porque não dizê-lo, coragem -, para reconhecer que há grandes equívocos na vida que nos tornam infelizes. Um desses equívocos, talvez o mais importante, é o de julgar que a felicidade depende de “ter” muita coisa.

Agora percebo que os chamados “bens materiais” nos escravizam mais do que libertam e também compreendo que é numa certa capacidade de resignação e de aceitação dos “azares da vida” que nos é possível, se não encontrar essa tal felicidade – se é que “felicidade” é algo tangível -, pelo menos viver em paz connosco próprios. Saber contentar-se é de facto importante e, se observarmos bem, percebemos que há uma génese em tudo, que tudo justifica, e que afinal, em certo sentido, nenhum adulto normal, digno desse nome, tem verdadeiras razões para se revoltar ou para se irritar com o que a vida lhe proporciona.

Bertrand Russel afirmava que o motor da sociedade era a inveja e acho que tinha razão. Na verdade a cobiça, a permanente comparação do “meu” com o “teu” (ou do “nosso” com o “vosso”) é que nos faz ser ambiciosos, agentes desta mitificada competição que faz parte da atual ideologia dominante.

Duma forma simplificada podemos afirmar que nos últimos duzentos anos a sociedade humana passou de oligofrénica a esquizofrénica. Antes vivia-se a paz dos fracos de espírito. Os pobres eram quase sempre “só” pobres e aceitavam esse facto como algo natural e os ricos eram quase sempre “só” ricos e também não admitiam outra forma de viver.

Mas hoje vivemos divididos. Uma parte de cada um de nós é burguesa, outra parte é proletária. Uma parte é revoltada, amiga da liberdade. Outra parte é submissa, adepta da escravidão. Por isso grande parte dos pobres de hoje bate-se para ser reconhecida como “gente de posses”, envergonha-se da sua pobreza, gasta uma boa parte dos seus recursos a disfarçar o seu estado de pobreza. O exponencial êxito das “marcas”, ou seja, o êxito dos signos, da aparência, é paradigmático. Em muitos casos tornou-se mais importante o “parecer ter” do que o “ter de facto”.

Também os ricos atuais estão divididos. Muitos invejam as ”vantagens” da pobreza. Não sei se era nesses ricos que Pessoa pensava quando dizia que “não há pobre nem mendigo que não inveje”… Uma boa parte dos ricos de hoje percebe que a riqueza é sempre precária, temporária, e que fragiliza as pessoas. Não as liberta, amarra-as. Outros percecionam que “é fraqueza entre ovelhas ser leão”, como dizia Gil Vicente, e que há algo de indigno – e também de perigoso – em ser privilegiado num universo de “damnés de la terre”. Mas quantos ricos -, ou que se consideram ricos, pois há falsos ricos, tal como há falsos pobres -, são capazes de abandonar a sua riqueza, largar os privilégios que o poder do dinheiro, ou dos títulos (que é outra forma de riqueza), lhes confere?

Este intróito pode dar a impressão que contemporizo com as assimetrias sociais que existem, que as aceito. Mas não é verdade. Insisto em reconhecer que a maioria dos problemas existente radica na desigualdade entre as pessoas. Não na desigualdade de características, na idiossincrasia de cada um. Essa desigualdade felizmente existe e é boa para a espécie humana. As pessoas são  todas diferentes e tratá-las “por igual”, como alguns pretendem, é uma falta de respeito. Refiro-me à desigualdade de oportunidades, à desigualdade nas condições básicas de enfrentar a vida. Esta desigualdade é que causa doença, é que torna a nossa sociedade dividida, perigosa, esquizofrénica.

A maior parte da humanidade nasce pobre, é desfavorecida logo de nascença. A grande luta dos povos sempre foi uma luta contra essas desigualdades, que é bom não esquecer, é o substrato das guerras e de outras calamidades. Mas se no passado as desigualdades eram de certo modo inevitáveis porque a riqueza disponível escasseava e a luta pela sobrevivência sobrepunha-se à solidariedade humana que durante séculos não passava dum sonho, duma utopia, hoje a desigualdade é algo contranatura, contranatura na profunda acessão da palavra, pois a persistência dessas desigualdades ameaça o equilíbrio do próprio ambiente natural.

Atualmente sai mais caro manter as desigualdades do que combatê-las. Uma parte considerável dos recursos humanos é gasta em instrumentos repressivos, na chamada “defesa”, na “segurança”, que não passa de uma forma de manter o “status quo” de desigualdades. Outra parte é gasta a alimentar a ideologia dominante, que, é bom entender, é provavelmente a forma mais eficaz de preservar esse “status quo”. Por isso a apetência pelo domínio dos “media” nunca foi tão grande.

A riqueza em si mesmo é neutra: pode ser um fator de desenvolvimento ou um fator de retrocesso. Quem se apega à riqueza por egoísmo puro, acabará mais tarde ou mais cedo por perdê-la. Há uma boa imagem para isto: Quem tenta guardar areia apertando-a na mão perdê-la-á entre os dedos; mas se a mantiver de mão aberta poderá conservá-la por muito tempo. Talvez por isso alguém dizia que o dinheiro não se deve guardar. Ou se gasta ou se investe… Dinheiro que se guarda é dinheiro inútil. Isto nada tem a ver com a necessidade de ser parcimonioso e de poupar. Uma coisa é poupar outra é travar o desenvolvimento, impedindo a riqueza de fluir. Se refletirmos no ditado chinês, “só há uma doença – a congestão; só há uma cura – a circulação”, compreenderemos o que isto significa.

Mas há outra forma de ver esta questão da riqueza. Durante a maior parte da existência da humanidade não existiu dinheiro. O dinheiro foi uma invenção de grande utilidade pois permitiu que essa tal circulação que cura, se processasse com maior facilidade. A humanidade evoluiu em grande parte graças a esse invento. Mas o dinheiro, de instrumento substituto dos bens que aligeirou as trocas, do valor de símbolo que sempre teve, adquiriu nas últimas décadas um valor de signo, alienou-se desse valor de troca e tornou-se um objeto paradoxal, i.e., num objeto que já não representa mercadorias, bens consumíveis, trabalho, mas que se representa, sobretudo, a si próprio… Poder-se-á dizer, utilizando linguagem da psicanálise, que hoje em dia o dinheiro tem mais a ver com afeto do que com valor de uso. Daí à atual crise financeira se chamar “crise de confiança dos mercados”… Perante isto talvez fosse mais inteligente ter como ministros das finanças, psicólogos, que economistas a precisar de se deitar nos divãs dos psicólogos…

 

Tudo isto vem a propósito daquilo que tenho vindo a observar nos últimos dias na grande montra que é a comunicação social. a propósito da aprovação do Orçamento de Estado para 2013. Vejo que, paulatinamente, umas vezes subtilmente, como não quer a coisa, outras brutalmente, “ai aguenta, aguenta!”, se vai impingindo a ideia de que esta crise – de notar que o étimo grego de “crise” significa “escolher, julgar” – é algo inevitável (que não se “escolhe”) e que as pessoas devem preparar-se para aceitar (sem “julgar”) os sacrifícios que aí vêm. Se vai vendendo a ideia de que temos mudar de hábitos, por castigo divino, em resultado dos pecados que cometemos e que devemos estar preparados para grandes restrições. Já se exibem especialistas a ensinar famílias a viver com 600 euros, mantendo a qualidade de vida e ainda poupando… Receitas de aproveitamento de restos, como talos e cascas de batata, já integram programas de culinária, com preocupações dietéticas, da nossa TV…

Nada disto seria criticável nem teria grande importância se fosse necessário e fosse bem intencionado. Mas não é. Quem promove esta adaptação ao retrocesso, consciente ou inconscientemente, esconde que o que está em causa é forçar a maioria da população a submeter-se a restrições, que em muitos casos representam a miséria, para que alguns preservem a sua (paralisante) riqueza incólome. “Eu ensino-te (e obrigo-te) a poupar, a viver com menos, para que eu possa continuar a viver no estilo de vida que tenho levado, sem restrições”, estilo de vida esse que, em última instância, é responsável pela tal crise financeira que se vive. Ou seja: criar pobres e  transformar a pobreza numa oportunidade de negócio…

As pessoas são capazes de grandes sacrifícios. Todos sabemos isso. Se houver bons motivos até sacrificarão a própria vida. Mas é bom que os sacrifícios façam sentido. A sociedade é um corpo indivisível, holístico, um sistema de vasos comunicantes. Nada nem ninguém pode ser excluído ou maltratado sem afetar o conjunto. A dicotomia “público/privado”, agora tão badalada, é uma hipocrisia confusa e perigosa. Tudo o que subjaze à liberdade e à igualdade de oportunidades é, por sua natureza, público, tenha ou não tenha gestão (dita) privada. A saúde, o ensino, a segurança, e todos os serviços básicos que permitem as pessoas manterem a sua unidade e gerar riqueza – água, energia, transportes, vias de comunicação, saneamento básico, telecomunicações -, a tão falada coesão social, são e serão sempre públicos, quer sejam “privatizados” ou não, e não devem ser coutada duns quantos privilegiados, sejam eles, fanáticos, mentecaptos ou iluminados.

A modéstia e a parcimónia podem ter que ser comportamentos a adotar a curto prazo – a grande maioria dos portugueses já os pratica há muito -, para contrariar esta “sociedade de consumo”, que acima de tudo consome a energia, a criatividade das pessoas e os recursos naturais cada vez mais escassos. O modelo económico exclusivamente baseado na lógica do lucro, percebe-se claramente que está esgotado. Mas os “experts” das ciências sociais – na sua grande maioria – tardam em aceitar outro modelo. Ainda não se aperceberam que as coisas mais importantes da vida – como amar, ter filhos -, são feitas gratuitamente.

A óbvia falência do atual sistema económico não significa que as pessoas tenham perdido a capacidade de produzir riqueza ou que não sejam capazes de criar modelos alternativos. As sociedades humanas não são meras empresas que podem extinguir-se. Mudam mas não se extinguem. Por isso, na esfera pública ou através dela, é errado despedir, condenar à pobreza, em massa. Se há “pessoal a mais” que se criem formas de se ocupar esse excesso. Se a produtividade é baixa que se criem condições para estimular a produção. Se há abusos que se identifiquem e se extingam. Se há dificuldades externas que se procure aliados certos e se aposte na diplomacia. Se há pressão insustentável de grandes credores, verifique-se se é legítima e razoável, e, se o for, negoceie-se; se não o for recuse-se, ou, se tal não for viável, que se confrontem com o facto, inquestionável, de que esfomeados e cadáveres não pagam dívidas.

Uma sociedade equilibrada, mais justa e sustentável – pode ser menos exuberante, mais parcimoniosa, mais modesta, mas terá sempre de ter como sustentáculo crianças saudáveis e instruídas e um povo motivado. O retrocesso no sentido da pobreza não é solução para nada. Mesmo para ter capacidade para dispensar o consumismo e a opulência, é preciso afastar a miséria do horizonte.

Esta crise, é, no meu entender, uma revolução. Não creio que seja o “fim da história”, nem o início duma “nova era”, nem o apocalipse. Como sempre, em alturas de grandes mudanças, Bandarras e Cagliostros de todos os matizes e calibres, emergem das profundezas. As mensagens que apontam no sentido do regresso ao passado ou que nos mergulham em ilusões metafísicas, só podem gerar confusão e tornar dolorosa, difícil ou atrasar a mudança inevitável.

A crise é de facto uma oportunidade. Oportunidade de aprofundar a democracia, de a estender ao domínio económico e social, de torná-la participativa e não apenas representativa. Oportunidade para realizar projetos que no passado foram considerados utópicos. Oportunidade para fomentar o empreendedorismo, a criatividade, a inovação e o mutualismo. Oportunidade para gerar mais riqueza, mais justiça social e viver melhor.

Mas pode ser também uma oportunidade perdida se a incompetência, a irresponsabilidade, a prepotência dominarem o poder político, como acontece atualmente. O povo pode sempre alterar essa situação, pacificamente, se for determinado e não se deixar embalar pelas vozes que difundem a resignação, o conformismo ou apelam a extremismos irresponsáveis e a soluções irrealistas. Mas se adormecer poderá tardar a resolver a situação e quanto mais tarde acordar maiores dificuldades e perigos terá pela frente. Estou em crer que as próximas semanas serão cruciais na definição desta situação.

Aguardemos com esperança.

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