São boas horas de acordar

Todos reconhecem o poder das ideologias mas nem todos se apercebem da sua presença e dos seus efeitos na vida quotidiana. À distância é fácil identificar ideologias que marcaram dramaticamente o passado recente, como é o caso do nazismo, mas as ideologias que subjazem ao nosso quotidiano passam facilmente despercebidas. Elas estão presentes por todo lado e são veiculadas por todos meios, mas estamos tão habituados a elas que acabamos por não lhes resistir. Fazem parte da nossa estrutura mental.

Este fenómeno não é recente. Na Roma antiga, por exemplo, sucederam-se as revoltas de escravos e muitas vezes foram tão bem sucedidas que puseram em causa a existência do próprio estado romano. Mas todas as rebeliões acabaram por soçobrar, e, na maior parte dos casos em resultado da traição de escravos insurgentes ou de divisões entre eles. Na realidade o problema principal dos escravos, não era serem fracos militarmente, ou não disporem de líderes à altura. Era sobretudo não terem uma ideologia própria da sua classe. Ilustra bem este facto o sucesso da rebelião iniciada pelo escravo Euno nos anos trinta do século II a.C. que logrou mesmo constituir um estado que dominou por alguns anos a Sicília. Euno tornou-se rei desse estado e até mandou cunhar moeda com o seu nome. Mas, no essencial, os novos escravos livres continuaram a pensar como os seus antigos amos e até toleravam a manutenção da escravatura no seu seio… Foi só uma questão de (pouco) tempo até serem esmagados.

Na situação atual as pessoas continuam a aceitar a ideologia dominante, sem contestação. Revoltam-se com os abusos descarados e as injustiças, mas aceitam passivamente o modo de pensar que está na sua origem. Esse modo de pensar, agora não é servido de farda com braçadeira. As fardas agora são outras e tão comuns que não damos por elas. A estrutura da sociedade, constituída por senhores e servos que vivem em função dos conceitos de lucro e de salário, é tão banalizada que não ocorre a ninguém pensar que pode haver outro paradigma.

Estamos na situação do pássaro que apanha a gaiola aberta mas regressa à prisão de livre vontade. Se não nos apercebermos que reside em cada um de nós essa ideologia que promove a submissão a modelos de organização políticos e económicos requentados e sem perspetiva, continuaremos a bramar mas não impediremos que as situações se repitam e que acabemos por nos submeter.

É o que me parece que se está a passar nesta altura. As pessoas estão a deixar-se embalar nas complexas análises que subtilmente demonstram que não há outro modo de “sair da crise”, que melhores tempos estão a chegar, que o “pior já passou”. O redil está preparado e o rebanho – talvez com a ajuda de alguma palha fresca que de repente surja por aí – avança na senda da submissão.

Estarei enganado? Estou, tenho a certeza que estou. Que diabo: Já são boas horas de acordar!

ddd

Para uma ética nas redes sociais

As pessoas aparecem no Facebook e noutras redes sociais por várias razões: A maior parte talvez por necessidade de partilhar ideias e sentimentos, de conviver duma forma fácil e protegida, de interagir com figuras públicas (coisa que nos “media” tradicionais quase não podem fazer), de lograr os tais 15 minutos de fama de que falava McLuhan, ou de, simplesmente, fugir à solidão… Outra parte, que julgo ser muito diminuta mas que tende a crescer, procura vender alguma coisa: produção da própria lavra ou produção da lavra de terceiros (empresas ou instituições), com intenções fraternais e abnegadas ou com objetivos mercantilistas. Alguns, pouco conscientes do que o estão a fazer, outros, claramente, determinados e conscientes.
Tudo isto constitui matéria que daria para um estudo muito interessante porque as redes sociais são um fenómeno novo e cheio de potencialidades. Mas são também um fenómeno com riscos, que pode ser usado para o bem ou para o mal. Vide o que aconteceu, por exemplo, com a chamada “primavera árabe”. Quem sabe ao certo que se passou?
Por tudo isto e para que não comecem a surgir normas e regulamentações vindas do “alto”, dos “iluminados” que, sob o pretexto de proteger a liberdade, a democracia e o bem público, os suprimem ou limitam, penso que as pessoas teriam vantagem em adotar, por sua própria iniciativa, uma espécie de ética para a comunicação nas redes sociais (ou código de conduta), com vista a proteger a autonomia e liberdade que atualmente desfrutam. Para o efeito deveriam adotar alguns princípios (implícitos) para conviver nestas “varandas virtuais”. Como contributo pessoal apresento em seguida alguns princípios que deveriam fazer parte desse código de conduta. Tratam-se apenas de sugestões – nem podiam ser outra coisa – e dessa forma deverão ser entendidas. A ordem com que são apresentadas não representa qualquer valor hierárquico.
Assim:
1- Quem vender alguma coisa através das redes sociais deve fazê-lo sempre de forma clara e objetiva. Deve sinalizar que o está a fazer e nunca apresentar o que vende disfarçado de conselho fraternal, supostamente desinteressado, ou sob pretexto equivalente. 2- Ninguém deve subscrever ou difundir ideias e informações de ânimo leve. Só se devem partilhar-se ideias ou informações, quando houver a convicção de que não são boatos, mitos, mentiras, lugares comuns equívocos, por mais sugestivos ou atraentes que pareçam.
3- Devemos ser verdadeiramente solidários. Prevenir as pessoas, despertar-lhes a atenção para riscos, denunciar situações obscuras, anunciar-lhes coisas interessantes, dar bons conselhos, é uma boa forma de o fazer. Mas assustá-las permanentemente, submetê-las sobressaltos inúteis, alimentar paranoias, sustentar climas de desconfiança sobre tudo e sobre todos, anunciar catástrofes eminentes e conspirações obscuras, tudo sem fundamentação e provas consistentes, não pode considerar-se um comportamento solidário.
4- Devemos fazer um esforço permanente para ser honestos. Sei que às vezes pactuamos com a desonestidade – por exemplo com a mentira, ou a ilusão -, sem querer, por engano, por irreflexão ou por preguiça mental. Mas quando tivermos consciência de que isso ocorreu, deveremos prontamente corrigir o erro, e, se for caso disso, pedir desculpas. Não é sinal de fraqueza pedir desculpas, só fica bem e mantém o moral elevado de todos nós.
5- Os nossos amigos virtuais, devem ser mesmo nossos amigos, ou seja, devem ter alguma relação connosco: ou porque já os conhecemos, ou porque apreciamos as suas ideias, ou porque gostamos deles, ou porque nos foram apresentados por pessoas em quem confiamos, ou porque gostam de nós. Colecionar amigos para fazer grupos e murais enormes só para espalhar ideias ou vender coisas, recorrendo com frequência a estratagemas, não me parece uma boa atitude e, aliás, é uma estratégia que acabará por ter efeitos perversos. Ideias veiculadas dessa forma, vão criando “anticorpos”. Além disso acabarão por surgir no seio destes murais e grupos gente que desestruturará a organicidade da comunidade que vai crescendo, acabando por subverter o objetivo original.
6- Ser respeitador dos outros. Quando não se concorda com alguma coisa proferida num grupo, isso pode discutir-se mas sempre resistindo à tentação para ofender as pessoas. As ideias são algo que não deve confundir-se com as pessoas. A linguagem usada deve por isso ter sempre a preocupação de não ferir suscetibilidades pessoais. As críticas devem centrar-se nas ideias e não nas pessoas. Nos casos extremos, que sempre surgem, é preferível não responder. As pessoas malcriadas e provocadoras, bramando sozinhas, acabarão por desistir ou por mudar de opinião.
7- Não submergir os murais dos outros com posts em catadupa. Não introduzir informação nos grupos sem critério. Espalhar demasiada informação acaba por saturar. Todos os que conhecem a comunicação e o jornalismo, sabem que informação em demasia é entrópica. Procurar integrar-se na especificidade de cada grupo fortalece os grupos e ajuda a organizar a comunicação. Sei que há assuntos gerais que interessam a todos os grupos mas deve ser-se moderado nos posts que se afastam demasiado das temáticas centrais de cada grupo. A única forma de o conseguir é utilizando o bom senso. O efeito que mais se deve recear da saturação de posts é que muitas pessoas se sintam submergidas e deixem de participar, ou, pior ainda, se saturem e abandonem os grupos.
ddd

Porque não exulto com o regresso aos mercados

 

Serei parvo. Não me custa aceitar esse facto face à minha crónica inabilidade para todas as artes que envolvam dinheiro. Não é que seja bonzinho ou mais honesto que os outros: É mesmo porque sou incompetente nessas matérias. Confesso, com vergonha, que por vezes chego a ter inveja dessa gente que sabe transformar tudo em Euros…

Em compensação – pouco vantajosa diga-se – tenho um pendor para a ruminância filosófica, que, se não me subtrai do domínio dos parvos, pelo menos impede-me de chafurdar na cocheira dos burros.

Porque digo isto? Porque não consigo entender o que faz tanta gente feliz com o badalado êxito do regresso aos mercados… A Comunicação Social exulta, políticos de todos os quadrantes exultam (e se não exultam, gaguejam, o que vai dar ao mesmo). Salvé! Já podemos pedir dinheiro emprestado! Salvé! Já temos autorização para esmolar favores!…

Se isto é uma vantagem, aqueles que são agora acusados de ter andado a endividar o país deveriam ser poupados às críticas e agraciados. Afinal estiveram a exercitar esse precioso mister que agora (re)conquistámos. Graças eles podemos ter agora a certeza comprovada que endividar-nos é um mal? Mas é um mal “sui generis”, um mal que depende de quem o pratica. Se for praticado pelo partido que está no poder é um bem ou é inevitável. Se tiver sido feito no passado, é um mal e podia ter sido evitado. Mas o que mais me preocupa é que esta ideia vai repetir-se no futuro, seja qual for o governo, que suceder à atual comissão liquidatária.

Alguém me explica qual é a vantagem de destruir a economia, os meios de gerar riqueza, em troca da possibilidade de pedir dinheiro emprestado para (supostamente) financiar a economia que acabou de ser liquidada?

Não serei parvo, nem talvez burro, mas que fico parvo com este estado de coisas lá isso fico.

ddd

Não há progresso assente na exclusão

Afinal não é a banca que está ameaçada. Se estivesse ameaçada não se preparava para despedir em massa os seus funcionários, processo já iniciado em Portugal (no BCP), no Japão, nos EUA e agora (ouvi hoje mesmo) na Alemanha. Se não é a banca que está ameaçada, então não alternativa: só podem ser os banqueiros e os grandes especuladores.

Todo este sacrifício a que está a ser submetida a população da Europa e do resto do mundo afinal nem é para salvar os bancos…

Esta constatação suscita-me a seguinte reflexão:

No Japão pós feudal, empenhadamente capitalista, havia o costume das empresas que começavam a ter problemas de crescimento por causa de desafios da modernização tecnológica, ou de desadequação da mão de obra, de criarem novas empresas para integrar essa vaga de trabalhadores excendentária, em vez de despedirem em massa. Isso resolvia muitos dos problemas que agora nos afligem e ajudou o Japão a crescer. Esse hábito parece ter caído em desuso no Japão, talvez por influência do “amigo americano”… Mas agora estão ambos os países a braços com problemas que parecem só ter “solução” criando – a tiros de canhão – novos mercados… Parece que a receita modernista, neoliberal, não funciona, e as velhas receitas estão a ser repescadas.

Na sociedade humana tudo é público tenha ou não tenha gestão privada. O desempregado, o marginalizado pelo aparelho produtivo, o reformado, todos terão de ser suportados e alimentados pela sociedade (segurança social, família, amigos, caridade pública), quer sejam produtivos ou não. Por isso é melhor que sejam produtivos. Se os funcionários públicos, bancários, professores, não trabalham ou são demasiados, arranje-se forma de que trabalhem mais, ajudem-se a atualizar-se, ou criem-se tarefas alternativas para que sejam úteis. Ideias e necessidades não faltam por aí. As pessoas à partida não se oporão a medidas alternativas se participarem ativamente na discussão dos seus problemas, se não pressentirem nessa discussão subterfúgios ideológicos para serem marginalizados, se não sentirem nessa tarefa  uma afronta à sua dignidade social.

Os geniais gestores neoliberais, que ganham fortunas em manobras de marketing social, cuja expressão mais avançada, pouco se distingue da fraude, afinal pouco percebem da arte de gerir pessoas. Talvez fosse preferível que dessem lugar aos inúmeros psicólogos que existem por aí ocupados em tarefas marginais para sobreviverem…

Somos antropóides como os chimpanzés, ou os gorilas. Vivemos em grupo, dependemos uns dos outros, não gostamos de estar sozinhos. Zangamo-nos, por vezes damo-nos mal, mas não podemos dispensar-nos uns aos outros.

Ninguém tem o direito de excluir ninguém. Este princípio nada tem de moral. Baseia-se na inteligência e na nossa própria natureza. Não se entende um progresso que assenta na exclusão das pessoas. Essa ideia já foi levada ao extremo pelas ideologias nazi-fascistas e não parece que tivessem grandes resultados nem acolhimento na comunidade humana. Não é isto certamente que a esmagadora maioria das pessoas deseja para o futuro.

ddd

 

Talvez hoje

(ao Luís Valente Rosa)

 

Talvez amanhã… diz o meu amigo.

E porque não agora já?

Que sabor tem o almoço que vou comer amanhã?

E esse beijo adiado

não ficará ressequido?

 

 

Há muitas ideias por aí

em mentes esculpidas

Receitas para saborosos amanhãs

que se acobertam em ontens mal digeridos

metafísicas, programas de zen imediato

com amanhã diferido

e agoras existenciais, libidinosos,

esplendorosos “insights” virtuais

 

 

Lá fora

línguas espirituais

aguardam nas nuvens

a melhor oportunidade para vazar o fogo sagrado

nas nossas almas descuidadas –

 

no intervalo dum “show”,

durante o bater de palmas dum “talk”,

na sonolência do “spa”,

no alívio da sanita –

 

a energia cósmica

que nos permitirá caminhar sobre as águas

na pontas dos pés…

 

 

Nos laboratórios espreita-se o universo

e descobre-se com espanto como tudo é fácil

é uma evidência que a mão dos deuses

pode estar aí no dobrar duma célula

na unha quebrada

na língua do nosso cão…

 

 

Mas, todos sabem, que os deuses só nos revelam

vestígios da sua existência

e que persistem em habitar longe dos humanos

 

 

(Terão medo do seu contágio

quando estão vivos, alegres, amigáveis?

Quando são lúcidos, racionais, cristalinos?

Quando os ignoram?)

 

 

Porque são esquivos

e se escondem em lugares remotos, solitários,

túmulos e catacumbas bafientas,

grutas em montanhas inacessíveis

templos onde só Quasímodos conseguem habitar?

 

 

porque só se  revelam

quando os humanos estão carentes, falidos, doentes

cansados das peregrinações desgastantes?

 

 

O arcano está cada vez mais decifrado

mas ainda assim poucos arriscam

e quem pode vive em dois planos:

Num aproveita o momento como se fosse o último

Noutro planeia o futuro sustentável…

E à noite regressa à gruta uterina

e repousa na serotonina do esquecimento

mas enquanto não adormece

busca estímulo e inspiração

nos super-heróis da urbe, do sexo, da mística

ou no Prozac

 

 

As novas almas são dúplices,

pragmaticamente metafisicas

espiritualmente seculares

gastam tempo para se esquecerem do tempo

arriscam a vida para tocarem o  imortal

 

 

lá longe os nossos ancestrais progenitores

lambem as delicias do seu cérebro reptiliano

ignorando os grunhidos angustiados da sua macrocéfala prole

estranhando o reduzido proveito que ela tira

de tão grande benefício

 

 

Talvez hoje… digo ao meu amigo:

Porque  não agora já?

 

Se o que a mente alcança

é sempre território do momento…

 

ddd

O cão branco* da nossa indiferença

 

Tropas francesas combatem nesta altura no Mali, até há poucos meses considerado um modelo democrático para os países ocidentais, apesar desse belo país, possuidor dum património histórico de valor incalculável, a esmagadora maioria da população viver abaixo do limiar da pobreza (menos de um dólar por dia).

Combatem o avanço de mais um movimento apoiado por extremistas islâmicos da Al Qaeda -, que ganhou fôlego e estímulo, com a invasão da Líbia e a destruição desse estado africano que, ainda em 2010, a ONU colocava na posição 53º no Índice de Desenvolvimento Humano – grupo IDH  “elevado” -, à frente de países como, Arábia Saudita, México, Malásia, Rússia, Turquia, China, e em primeiro lugar no continente africano. Mas nem esta prosperidade, nem a barreira anti fundamentalismo islâmico que o regime de Kadhafi representava pela sua natureza laica, poupou este líder a uma morte infame.

Sobre esta criminosa invasão, que custou mais de 70 mil vidas civis, que destruiu um país em crescimento e reintroduziu o fanatismo religioso naquela região, caiu o silêncio dos “media” do mundo “civilizado”. A gula pelo petróleo Líbio foi mais irresistível e ditou a sua lei.

Mas as bombas da NATO, os seus “drones”, a sua espionagem eletrónica, os seus “media” obedientes, não chegam para ganhar as batalhas que têm de desencadear para assegurar a sua dominância e a sua gula insaciável. Precisam de aliados no terreno, aliados que eles próprios geram e alimentam, como é o caso do próprio terrorismo islâmico. Hoje é claro e comprovado que organizações como a Al Qaeda e os Taliban, foram cuidadosamente criados, instigados e financiados, pelas mesmas forças que a seguir se mobilizam e põem o mundo em situação de emergência – de crise – para as combater…

Neste preciso momento enquanto as bombas dos aviões franceses massacram os rebeldes Tuaregues do norte do Mali – que há muito aspiram a uma autonomia – e que contam com incómodo apoio de militantes da Al Qaeda ativa no Maghreb, mais a leste, na Síria, a mesma Al Qaeda é financiada, apoiada e armada para derrubar mais um líder que caíu em desgraça, sob o pretexto duma primavera árabe, cada vez mais outonal, num país, que, no centro duma região conturbada, conseguiu o difícil feito de assegurar um razoável equilíbrio e paz social entre etnias, culturas e religiões muito diferentes, por décadas… Tudo isto para assegurar um “status quo” de dominância na região mais rica em petróleo do mundo a partir de dois polos aparentemente antagónicos – Israel e Arábia Saudita.

E o mesmo já aconteceu na ex-Jugoslávia, no Iraque, no Afeganistão, no Sudão, na Somália… E o que virá a seguir? O Iémen e o Bahrein onde a primavera parece ter saído “furada” aos exploradores do descontentamento popular? O Irão (finalmente)? E porque não esses alvos tão distantes e tão apetecidos – China, Rússia?

A história do cão branco, repete-se. Treina-se o animal para atacar supostos inimigos e depois abate-se o animal quando ele se vira contra o treinador… É uma esquizofrenia perigosa que a nossa indiferença, a nossa cultura da “distração”, a nossa apatia militante, alimenta e consolida a toda a hora.

ddd

 

*Referência ao filme “White Dog” (“Cão Branco”), de Sans Fuller, produzido nos EUA em 1982, que conta a história de um cão treinado para atacar – e matar – gente de raça negra, que num acidente vai parar às mãos de uma jovem atriz que, descobrindo o seu problema, tenta descondicioná-lo e torná-lo normal com a ajuda de um domador negro. No final, quando o descondicionamento parecia ter resultado, o animal volta a atacar um ser humano – desta vez um branco parecido com o seu antigo dono que o treinou a atacar negros – e na sequência o acaba por ser abatido.

Curiosamente, ou talvez não, este filme é pouco conhecido dos americanos pois não teve distribuição comercial nos EUA por ser considerado “desconfortável” para a sensibilidade do público americano. Ao que parece a história inspira-se no facto comprovado de no tempo do “apartheid” na África do Sul, racistas empedernidos treinarem cães – geralmente brancos – para matar negros.

Sinais preocupantes

Nestes últimos dias tomo conhecimento pelos “media” duma multiplicidade de sinais preocupantes, que tenho dificuldade em hierarquizar.

A nível interno, claro está, destaca-se pelo insólito e ridículo o “estudo” do FMI encomendado pelo governo. Quando o poder é entregue a rapazolas – com “fácies” infantis, denunciadoras de personalidades caracteriais, como me parece ser o caso do secretário de estado Carlos Moedas – tudo é possível. Alguém lhe ocorreu quanto terá custado este “estudo”? Já observaram que estes rapazolas são ovos de serpente aparentemente gorados? E se não são gorados? Se têm seguidores? E se os paternais répteis andam por aí a preparar mais qualquer coisa? Quem os vai travar?

Externamente destaco a execução – fria, calculista, profissional -, de três mulheres curdas, dirigentes no exílio do partido PKK, que há décadas luta pela, independência da nação Curda (perto de 30 milhões de pessoas da mesma etnia, com uma língua e cultura comuns, divididas por vários países: Turquia, Iraque, Síria, Arménia…) Já alguém ouviu, em Portugal, no Conselho Europeu, ou nas Nações Unidas, denunciar a situação do povo curdo? Divergências internas, operação que visa instabilizar (ainda mais) a situação da Síria utilizando os curdos? Não se sabe. O que se sabe é que isto ocorre em Paris, cidades das luzes, capital da civilização e dum país, que numa Europa a tender para a extrema-direita, elegeu há meses um governo socialista (de esquerda), cuja primeiro “toque” significativo da sua política externa foi legitimar, às cegas, uma “oposição” – na altura nem sequer havia uma qualquer liderança – ao regime de Bashar al-Assad, deitando achas numa guerra civil, claramente orientada do exterior… E tudo isto sem pensar (ou talvez pensando!) nas consequências políticas da queda desse regime…

A França, aliás em matéria de relações com países árabes tem um historial atribulado. Acontecem coisas estranhas na França relacionadas com estes países: Desde a sua cumplicidade no assassinato de Mehdi Ben Barka, pelos serviços secretos de Hassan II, até à conspiração para liquidar Kadhafi (que provavelmente sabia de mais),  passando pelas confusas relações entre a extrema-direita chauvinista e os extremistas islâmicos que acolhe, tudo é nebuloso e suspeito neste relacionamento. Já para não falar nas tenebrosas ligações com a Argélia… Será que não se entende que este assassinato político é apenas mais uma manifestação duma conspiração internacional que prossegue para manter a todo o custo um “status quo”, cada vez mais precário, de dominância da elite que tem mandado no mundo nos últimos sessenta anos e que é responsável pela atual “crise”?

Escuto uma entrevista de um especialista americano sobre assuntos da Venezuela – que sem dúvida reflete a opinião de Washington – a propósito da ausência de Hugo Chávez à cerimónia da tomada de posse como Chefe de Estado que devia realizar-se ontem. Retive o seguinte: Os EUA antecipando já a (tão desejada) morte de Hugo Chávez “esperam que este país regresse à democracia provavelmente com a ajuda dos militares, que certamente terão um papel a desempenhar”… Não é literal mas é rigorosamente esta a ideia. Que diabo: O Hugo Chávez é um ditador? Não acabou de ser eleito? Aquelas palavras não são um apelo a (mais) um golpe militar naquele país?

Pela manhã assisto ao anúncio do encerramento do programa “Praça da Alegria”, único programa de TV de animação matinal existente no país de indiscutível qualidade, ainda por cima dos poucos que restam a prestar um serviço público relevante no Norte do país. Esta comissão liquidatária avança. São loucos, dizem, não vão conseguir. Mas avançam… Quando os travarem o que vai sobrar?

ddd

Esquerda e Direita: é tudo o mesmo?

A todo o momento a ideia de Esquerda e de Direita está presente nas preocupações dos cidadãos e no discurso político, quer implícita, quer explicitamente. Geralmente evito “tropeçar” nesta questão não só porque ela representa frequentemente um motivo de inúteis controvérsias, e porque na maior parte das vezes, quando referida, é tratada de forma ligeira, pouco ou nada representando.

Trago esta temática aqui hoje, numa tentativa de contribuir para desfazer um equívoco que vejo crescer a toda a hora à volta desta ideia, equívoco, que, na minha opinião, é particularmente nocivo na situação atual em que a confusão é, em muitos casos, deliberadamente alimentada para prosseguir com políticas retrógradas. O equívoco poderá sintetizar-se desta forma: “É tudo igual: Direita e Esquerda são a mesma coisa…”

Não posso – nem devo – alargar-me muito em explicações históricas que envolvem os termos “Direita” e “Esquerda”, que, todos saberão, nasceram na Revolução Francesa, e que ao longo do tempo vieram a ganhar diversificados conteúdos semânticos e filosóficos.

Para encurtar razões, salto sobre a ideia de Direita, que tem a particular característica de se aplicar a dois posicionamentos sociais, nem sempre coincidentes: a Direita (dos valores), que engloba as pessoas e as ideias tradicionalistas, o chamado conservadorismo, e a Direita (dos interesses), que, nas suas diversas “nuances”, se carateriza por um apego à defesa dos interesses, de grupos económicos, de elites ou de classes que detêm o poder económico. Esta última Direita, acoberta frequentemente a sua real natureza e a sua prática política, nos valores que defende a outra Direita…

E direi, simplificando, que a Direita (dos interesses), no essencial, é somente o vazio político deixado pela Esquerda!

Porquê? Porque o conceito de Esquerda tem como pressuposto – já na sua génese – a ideia do primado das pessoas, da sua liberdade física, mas também psíquica (de mitos, de dogmas, de opressões), da sua igualdade de oportunidades para desenvolver o potencial com que todas as pessoas nascem e da prática sistemática da solidariedade. A ideia de Esquerda em termos humanos, é globalizante, envolve tudo e todos, nada exclui. Por isso o desenvolvimento, o progresso e a civilização, são, por natureza, conceitos que à Esquerda, e só à Esquerda, dizem respeito. Assim sendo o espaço que ocupa a Direita (dos interesses), é, só pode ser, o espaço que a Esquerda deixa vazio…

Perguntar-se-á então, porque existe este espaço vazio, porque não se identificam todas as pessoas – ou pelo menos a sua grande maioria – com esta  ideia.

Deteto três razões principais:

A primeira, a inércia do hábito, das tradições, a tendência para a comodidade, o egoísmo natural. Costuma dizer-se que todos nascemos de Direita e ao crescer tornamo-nos de Esquerda… Ou deveria ser assim se o processo fosse linear.

A segunda, a persistência da ideologia de quem até agora tem maioritariamente dominado a sociedade. As pessoas a toda a hora estão a consumir a expressão dessa dominância, seja através da informação que recebem, seja através da cultura que consomem. A preocupação das classes poderosas em dominar a televisão, o cinema, os “media”, tem aqui a sua explicação.

A terceira – para mim a mais preocupante – é a adulteração do conceito, que leva muita gente a identificar a ideia de Esquerda – e justificadamente – como algo negativo.

A ideia de Esquerda, tornada fórmula, difundida e consumida como algo mágico que tudo pode resolver, bastando para tanto que alcance o Poder, ou que transforme em leis e em direitos tudo o que a sociedade almeje, é a forma mais nociva e perversa de favorecer a Direita… A coisificação da ideia de Esquerda, a sua transformação em fórmulas mágicas, dá origem aos mais diversos “Triunfos dos Porcos” que ocorreram e continuam a ocorrer por esse mundo fora. E cria inimigos, anticorpos perigosos: muita gente afirma-se de direita, cola-se à direita, apoia bandidos, porque sentiu os efeitos ou desconfiou dessa hipocrisia institucionalizada em partidos e movimentos esclerosados, que continuam a sobreviver à custa da ilusão e do sectarismo que promovem.

A Esquerda autêntica, pode nem ter nome, nem organização institucional. Ninguém é dono da Esquerda. Quem fala como dono da Esquerda o mais provável é ter uma prática que favorece os interesses da Direita.

A prática da Esquerda assenta na análise objetiva, realista, não dogmática, e sempre humanista, da vida social. As organizações e pessoas que se identificam com os valores de Esquerda podem cometer erros, porque é da sua natureza tomar a iniciativa, ser criativo, mas dificilmente cometerão disparates – que é a repetição sistematicamente dos erros – porque têm a coragem de reconhecer os erros que cometem e de aprender com eles.

A Esquerda é uma pedagogia sistemática, que todavia rejeita categoricamente moldar o pensamento das pessoas. O princípio basilar dessa pedagogia é ajudar as pessoas a pensar por si próprias.

É bom de ver que a Esquerda é um humanismo e sendo assim nunca empurrará as pessoas para becos sem saída nem iniciará confrontações que sabe de antemão não ter condições para ganhar. A Esquerda pode engolir sapos para evitar ser engolida por cobras.

Se aceitarem o que disse sobre este assunto poderão inferir que é pouco relevante – até talvez inconveniente – evocar a Esquerda ou identificar-se com ela a toda a hora. A Esquerda é sobretudo uma atitude, uma postura perante a vida, uma prática, e nunca uma carreira, ou devoção, integrada ou não num qualquer clube ou agremiação.

Depois disso cada um decida – se achar importante fazê-lo – o que é Direita e o que é Esquerda e qual dos campos em que julga situar-se. E, sobretudo, confirme se é tudo igual, se não há diferenças…

ddd

Políticos profissionais

Numa conversa recente com um amigo a certa altura surgiu a expressão “político profissional”. Nesse momento acendeu-se-me uma luzinha. Afinal o que é isso de “político profissional”? Conheço cozinheiros, médicos, carteiros, marinheiros, pescadores, fadistas, e reconheço que são todos profissionais, salvo os que se dedicam a essas atividades por puro amadorismo. Mas ainda assim, quase todos os amadores, se estão no ativo, se não são crianças ou reformados, exercem uma profissão. Um pedreiro pode ser um fadista amador e um fadista pode ser pescador desportivo… Mas na política… Bom, sabemos que o rei de Espanha, que é não só um político profissional como tem emprego garantido logo à nascença, é caçador-amador de elefantes… E que mais sabemos?

Sabemos que o termo “política” assumiu muitos significados desde o tempo dos gregos criadores da palavra e que esses significados foram surgindo ao longo dos séculos refletindo os interesses instalados que vão sempre variando. Apesar disso a palavra ainda hoje conserva o significado original: Arte ou ciência de organizar ou dirigir a cidade (estado).

E faz todo o sentido que a palavra conserve esse significado original pois toda a atividade humana tem expressão e significado político. A sociedade humana é um sistema (aberto) onde toda a ação, individual ou de grupo, privada ou pública, interfere, mediata ou imediatamente, no conjunto, afetando-o, alterando as suas caraterísticas. Isto porque o ser humano, é um ser social por natureza e não é concebível a sua existência desligada dum qualquer grupo – gens, tribo, nação.

Assim sendo ir às compras é fazer política, levar os filhos à escola é fazer política, passear, comer, discutir os preços, planear uma empresa, criar um evento, fazer uma festa, dizer mal do governo, tudo isso é fazer política. Sempre assim foi, no entanto desde há muito que se colocou a atividade politica num patamar elitista, inacessível à população em geral, por razões que, obviamente, se prendem com o exercício do poder, seja qual for o pretexto filosófico utilizado como justificação.

A sociedade humana especialmente desde a Revolução Francesa (1789), tem vindo a democratizar, por assim dizer, o exercício da política. A partir da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (“Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen”) todos os seres humanos do planeta passaram – pelo menos teoricamente – a ser aceites como Homens, ou seja, membros da espécie humana, aos quais eram reconhecidos os chamados “direitos naturais”, e a ser considerados cidadãos, i.e, indivíduos com direito a exercer a cidadania, que podiam, de acordo com a lei, ser senhores do seu destino e também, diretamente ou através de representação, exercer ou influenciar os destinos da Nação – território da cidadania -, através da governação.

Mas uma coisa são as declarações e outra são a prática. Todos sabemos que as desigualdades sociais persistiram e persistem, e continuam a existir mil e um obstáculos, dos mais grosseiros aos mais subtis, à aproximação do cidadão comum aos círculos da governação, ou seja, ao exercício do poder. Os direitos, formalmente, estão de uma forma generalizada, garantidos entre nós. Todavia é preciso perseguir um conjunto de práticas, ganhar a confiança da elite que continuadamente exerce o poder, ou que gira à sua volta, para aspirar à governação ou a qualquer das áreas integrantes do Poder.

Assim, na prática, a democracia para o cidadão comum, limita-se ao voto. O cidadão comum se pretende exercer a governação só tem um caminho a seguir que é tornar-se “político profissional” perseguindo uma “carreira política”, inicialmente como “militante”, e depois, se ganhar a confiança do “patrão”, que é sempre um partido, passando a “quadro”, ou seja, a “político profissional”.

As pessoas comuns queixam-se de que os políticos não os representam, que trabalham duma forma geral mais preocupados com o interesse próprio, ou do seu grupo, e duma forma geral não se apercebem deste subtil obstáculo. É passada continuamente a ideia de que a política é uma coisa de “experts”, uma especialidade. Que as pessoas comuns, só têm competência, quanto muito, para ser políticos amadores (presidentes de Juntas, por exemplo, que exercem o cargo gratuitamente ou quase). Nada mais errado.

Na política não há especialidades. Há cargos. Ter um cargo político é equivalente, a ser pai ou a ser mãe. Exerce-se a função mas não se é pai profissional. Ninguém recebe ordenado por ser pai… Claro que se aprende a ser pai, que ser pai precisa de apoios, ajudas, enquadramento social, que se pode estudar essa função… Por isso acho que os cargos políticos não deveriam ser remunerados enquanto tal. O profissional que deixou temporariamente a sua profissão para exercer um cargo político deve ser remunerado tal como era antes, compensado pelos prejuízos que esse afastamento lhe pode trazer, mas nunca de tal forma que a função política que exerça se torne uma atração profissional.

Argumentar-se-á: as pessoas nos cargos políticos precisam de comer, de se deslocar, etc. tal como os pais. É verdade. Então, tal como os pais, devem obter o seu sustento pelo desempenho do sua profissão normal. Se forem pedreiros devem ganhar o que ganhariam se continuassem a ser pedreiros. Se forem médicos o que ganhariam se continuassem a exercer medicina.

Há funções especiais, que os cargos implicam – visitas de estado, receções, trabalhos extraordinários, riscos… Há também oportunidades profissionais perdidas. As mães enquanto amamentam recebem o ordenado que receberiam se estivessem a trabalhar. Toda a gente compreende e aceita isto. Não são necessárias novas leis. É só preciso jurisprudência, aplicar as boas práticas, “mutatis mutandis”. É preciso construir a ideia de que a governação é algo que qualquer cidadão pode exercer, e que é um dever cívico, uma honra, que deve ser exercida, mais como um dever, do como um privilégio.

Tenho consciência que abrir ao cidadão comum o acesso ao poder e à governação, é um processo, gradual e complexo. Os cidadãos têm primeiro que adquirir formação e conhecimento da arte da política – mas não nos partidos, como agora se faz – mas na escola pública. E para esse fim é preciso uma escola pública, evoluída, de topo, que prepare as crianças e os jovens para a prática da cidadania, na vida real. E por ora a tarefa que temos pela frente é assegurar que esta comissão liquidatária a que chamam governo não destrua o que resta do ensino público… E depois, é preciso preparar professores adequadamente.

É pois, trabalho para uma ou talvez duas gerações. Mas tem que se apontar já nessa direção senão nunca lá chegaremos.

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“Tudo isto existe, tudo isto é triste…”

 

Afinal, estando tudo mal, está tudo bem. E se não está tudo bem é porque não podia estar de outro modo. Temos um presidente que sendo veementemente contra o retrocesso e as medidas anti sociais é também veementemente a favor delas. Os mais notáveis denunciadores da situação que vivemos, estão todos na génese da situação que se vive. Mas o povo parece não dar por isso. Aplaude as suas denúncias, acolhe-os como novos salvadores. Ouvindo os seus brados tonitruantes, os lamentos populares não passam de discretos balidos.

Mas se se fala em mudança, em eleições, isso era uma “terrível crise política” que só viria complicar mais as coisas… A estratégia desta camarilha que nos domina, é hipócrita e muito subtil. Assume a indignação, toda a indignação. Grita mais alto por socorro, – oh da guarda!, aqui-del-rei! – barafusta, mas não por genuínas razões. É só para abafar o tímido desaforo da raia miúda que estava por aí a esboçar-se e que não convinha nada que engrossasse. Antes que eles gritem mais, gritamos nós. Antes que eles descubram por si só, denunciamos nós. Mas não tudo, claro está, nem sequer o mais importante. Mas o que causa impacto imediato.

E com isso se ganha tempo, se cria espaço para que esta comissão liquidatária “ajeite” o Estado da forma que dá mais jeito aos seus interesses. Vai aceitar pequenos “prejuízos”, claro. Atrasar a renovação da frota automóvel, deixar parado na marina o iate mais uns tempos, adiar aquela volta ao mundo… E o povo baralha-se: se eu vejo os ricaços e oportunistas de sempre, enraivecidos, gritando impropérios contra as injustiças, bradando, insultando o governo, então o que está a acontecer é inevitável. É uma espécie de furacão. Há que aguentar, resistir…

E eu também me baralho, me confundo. Surgiu agora uma nova forma de patriotismo que consiste em engrossar a diáspora portuguesa – no “10 de Junho” vai passar a haver mais trabalho. É o que comprova o matraquear insistente de várias publicações de referência na divulgação do que é indispensável para emigrar com sucesso. Elas ensinam os portugueses a defender-se dessa estrangeirada oportunista que está desejosa de sugar o puro-sangue lusitano… Tinha ideia de que patriotismo era algo que tinha a ver, antes de mais, com pátria, isto é, com o lugar onde nascemos. Agora descubro que patriotismo tem mais a ver com o estrangeiro e com o “talent de bien faire” luso de difundir pelo mundo a patanisca de bacalhau e os mistérios do pastel de nata…

Não há dúvida: estou confuso. Vejo afinal que a crise nos ajuda a ser mais criativos, ou seja, nos ajuda a viver melhor… Vendo bem, vivendo pior, melhoramos. Lá diz o ditado: há males que vêm por bem. Talvez os portugueses precisem de sofrer retrocessos cíclicos para pôr em evidência as suas superiores qualidades… Será o seu Karma? Assim sendo, o terramoto de 1755, o ultimato inglês, a pneumónica, o Salazar e agora, o Passos Coelho, serão bênçãos, testes do Criador, para exacerbar as nossas recônditas mas inigualáveis qualidades… Problemas suplementares para os adeptos das ciências ocultas…Oportunidades para Mayas Professores Marcellos, Carambas, etc.

Não há dúvida: “Tudo isto existe tudo isto é triste tudo isto é fado”.

(Acho que vou mandar desligar a televisão. Estes comentadores, animadores e jornalistas estão a deixar-me baralhado, mesmo muito baralhado: Estou em vias de confundir o José Gomes Ferreira – uma espécie de matraquilho especializado em vulgaridades economicistas -, com o verdadeiro, aquele das  “Aventuras de João Sem Medo”, alguém se lembra? E também já não tenho a certeza se sou amigo do progresso e da justiça social e não apenas mais um mero “reacionário” – termo usado pelo Alberto João, esse amigo do povo da Madeira, para acusar os “continentais” – pois não tenho nenhuma licenciatura que o comprove… )

Tenham uma boa noite!

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