Não basta denunciar

Colocar espectativas muito elevadas é o principal erro das pessoas. Não sou eu que descobri isto: é algo há muito tempo conhecido. Em períodos críticos as pessoas tendem a pensar que “agora é que é” e que vai, finalmente, fazer-se justiça e construir-se uma sociedade mais justa.   Na verdade os períodos de crise são particularmente favoráveis às mudanças progressistas, mas esses períodos – a história está recheada de exemplos – também podem ser momentos propícios a retrocessos civilizacionais.
Faço esta observação porque me parece estar a instalar-se um clima de desânimo nada saudável entre nós. Desânimo e resignação. E isto é o pior que pode acontecer. Estamos rodeados de pessoas, que de boa-fé, organizadamente ou não, denunciam injustiças e crimes esperando de algum modo que as pessoas, dessa forma, acordem e se revoltem. E isso não está a acontecer.
E não está a acontecer porque ninguém consegue andar permanentemente em bicos dos pés nem tem garganta que aguente gritar a toda a hora a sua indignação. Ao fim de algum tempo as pessoas cansam-se, deixam de empolgar-se e desanimam. E esse é um trunfo que se dá de mão beijada aos que prosseguem com esta política de retrocesso ignorando os epítetos com que são brindados. As pessoas não se apercebem mas estão a ser vencidas pelo cansaço.
As pessoas precisam de acreditar nas suas próprias forças e isso só pode obter-se com, pequenas ou grandes vitórias. Algo de pessoal e palpável, caso contrário não tem significado. A denúncia, indigna mas também assusta, incentiva ao desespero e à revolta, mas também desvaloriza as forças próprias e sobrevaloriza a dos adversários.
Acho que devemos ser ambiciosos nos objetivos, mas prudentes nos avanços. Propor avanços radicais, como alguns sugerem, nada ajuda. As mudanças têm de ser avaliadas em cada momento considerando a motivação das pessoas, a sua capacidade organizativa, os seus recursos matérias e a sua disponibilidade. E não me parece que isso esteja a ser feito.
É preciso que as pessoas reclamem coisas viáveis e de concretização rápida. Que se proponham a fazer coisas que se sentem com força para fazer e se atrevam a fazê-las. Sem pequenas vitórias não há estímulo e decresce a auto estima.
ddd

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