Evocando Aleixo

A ideia de que quem muito sabe – ou que julga saber – fica com o direito de escolher “ipso facto” o caminho dos outros é uma ideia muito antiga, ainda assim recorrente. A sua aplicação faz lembrar a anedota do escuteiro que devia fazer uma boa ação: ajudar uma velhinha a atravessar a rua. Mas como a velhinha não queria atravessar a rua o escuteiro não esteve com meias medidas e obrigou a velhinha a fazê-lo.

Este parece ser o comportamento dos atuais governantes: Eles é que sabem, e, quer o povo queira quer não, tem de se fazer o que eles mandam. Evocam a legitimidade que lhes confere a democracia – forma de regular o exercício da liberdade -, mas ignoram que essa legitimidade cessa quando é posta em causa a liberdade dos cidadãos, apoiantes ou opositores. Mesmo numa democracia formal, como aquela que vigora.

E a liberdade está posta em causa. Parafraseando Sérgio Godinho, só há liberdade (a sério) quando há paz, pão, habitação, saúde, educação e não é isso que acontece. Em Portugal a injustiça social persiste obstruindo a igualdade de oportunidades à nascença, suporte duma sã competividade que premeia os melhores e incentiva o aperfeiçoamento humano. O Estado Social, com todos os seus defeitos e virtudes, tem constituído a única forma de colmatar essa obstrução, ainda que de forma insuficiente. Este governo ao ameaçar o Estado Social e delapidar a estrutura produtiva, agrava a desigualdade entre os cidadãos, empobrece o país e compromete o futuro. Constitui por isso, uma ameaça à liberdade e põe em causa a democracia.

A nossa sociedade tem certamente erros estruturais e o nosso estado poderá precisar de ser revisto, refundado, ou seja lá o que for. Tudo isso talvez possa implicar sacrifícios e está mais que provado que as pessoas são capazes de os fazer. Mas só persistirão em fazê-los se acreditarem que valem a pena, que são justos, inevitáveis, que são o preço do progresso. Mas também, obviamente, na condição de confiarem em quem os governa. Ora nunca houve uma tão generalizada desconfiança numa governação. Só talvez na ditadura se atingiu tal “performance”.

O “gauleiter” Passos Coelho quer fazer crer que os desempregados, as empresas que soçobram à sua política ultratroikista, são vítimas de uma qualquer deficiência genética ou seleção natural. O seu sapiente governo ignora olimpicamente a desigualdade social à partida e faz questão de agravá-la. Foi eleito na base da mentira e persiste nela. Falhou todas as metas que se propôs alcançar. Nada cumpriu do que prometeu mas quer que o povo, à viva força, atravesse a “sua” rua, evocando a legitimidade democrática para o fazer.

Este governo, por mais que se torçam em argumentos a clique de comentadores e políticos bem comportados que o apoiam, perdeu toda a legitimidade democrática. É bom que desista de obrigar o povo às suas enviesadas travessias pois não lida com a velhinha nem persegue boas ações. Talvez não repare mas o povo é, de facto, “quem mais ordena”, e que em última instância é quem decide o seu destino. E em qualquer tempo é tempo para o mostrar.  Para tanto basta que o sábio dizer de Aleixo seja ouvido:

 

“Vós, que lá do vosso império

prometeis um mundo novo,

calai-vos, que pode o povo

querer um mundo novo a sério.

 

Há luta por mil doutrinas.

Se querem que o mundo ande,

façam das mil pequeninas

uma só doutrina grande.”

 

ddd

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