Ideias

Quanto a ideias existem três tipos de pessoas: as que têm ideias próprias, as que fazem suas as ideias dos outros e as que utilizam as ideias em função dos seus interesses de ocasião. Com maior ou menor dificuldade, são toleráveis as primeiras e até mesmo as segundas, concorde-se ou não se concorde com elas. Quanto às terceiras – mesmo que digam o que gostamos de ouvir – são perigosas e execráveis. São a manifestação do pior tipo de desonestidade que existe: a desonestidade intelectual.

Daniel D. Dias

Comunicação “kitsch”: Não há pachorra.

É cada vez mais evidente a calamidade que assola a Europa. Não sei se já não foi atingido o ponto de não retorno mas se não foi não estaremos muito longe dele.

A recente decisão do Eurogrupo de assaltar as contas bancárias de cidadãos comuns é o último descarado atrevimento desta liderança europeia que assiste, impávida, ao recrudescimento da extrema direita um pouco por todo o lado como o demonstra a recente manifestação de antigos SS na Letónia.

Quanto ao crédito desta elite política que (des)governa a Europa e afunda Portugal, nada preciso acrescentar. As eleições que vão por aí ocorrendo, as recentes sondagens, entre muitos outros sinais, evidenciam o crescente descrédito, não só da chamada “classe política”– que abrange todos partidos, é bom não esquecer – como das perspectivas de qualquer solução para os problemas europeus no atual quadro institucional. O espetro da revolução ou da guerra está cada vez mais presente.

Mas no meio de tudo isto o que mais me enfurece – eu que procuro a todo o custo manter a calma – é a comunicação que nos servem. É uma comunicação controlada por manipuladores profissionais que usa as mais avançadas técnicas das Relações Públicas para atingir os seus fins. A objetividade (jornalística) é apenas uma simulação. Toda a comunicação é veiculada em doses e alinhamento que leva as grandes massas a acreditar em ideias feitas contrárias aos seus interesses. A grande mestria desta comunicação consiste em substituir-se à opinião das próprias pessoas. É uma espécie de doença autoimune: A capacidade analítica das pessoas é pervertida de tal forma que ela própria se encarrega de liquidar, quase à nascença, o mais leve assomo se autonomia crítica.

Como exemplo observe-se a informação sobre esta comissão liquidatária a que chamam governo: Aquela que a denuncie ou que a ponha em causa é logo “enquadrada” com doses de contra informação suficientes para levantar a dúvida e fazer supor que não há alternativas à situação atual. Num comentário deixa-se que se exprima a indignação; nos três comentários seguintes procura-se quem semeie o desânimo, a descrença e a confusão. Tudo em nome da isenção, da objetividade, do contraditório. Como se fosse equilibrado, justo, dar oportunidades iguais (de defesa) aos ladrões e às suas vítimas. Como se mentira e verdade fossem iguais em legitimidade. “Este tipo está para aqui a dizer umas verdades, a dizer que a Terra gira em volta do Sol. Vamos lá desenterrar um inquisidor para apresentar o contraditório.” E o povo fica na dúvida: será que gira mesmo? É assim que funciona. Tudo parece bem-intencionado, objetivo, científico; mas a única coisa realmente científica que tem esta comunicação é a sua estrutura intencionalmente manipuladora. O dr. Goebels ao pé dos seus colegas atuais não passaria dum principiante “naïf”.

Habituado desde há muito às agressões diárias lá vou resistindo. Bufo aqui, praguejo acolá, mas geralmente controlo-me. Às vezes até quase me fico, pasmado, a apreciar a arte – a lata -, dos profissionais de comunicação que dão a cara. (Provavelmente os mais eficazes e perversos não o fazem). Uns são bem falantes, persuasivos, inteligentes. Outros têm carisma, saber. Detesto-os mas fico a invejar-lhes o descaramento. Tenho por eles a mesma admiração que nutro pela ousadia e talento dos carteiristas…

Mas o que realmente não aguento – aquilo que me faz “passar” -, é essa comunicação desonesta, essa “pulp fiction” jornalística, servida na versão “kitsch”. A bajulagem rafeira feita a esse novo papa, elevado à categoria de Messias redentor recém chegado à terra, é o mais recente é absolutamente confrangedor exemplo. Como é possível proferirem-se tantos disparates e durante tanto tempo, sobre uma figura que se veste duma forma que faria o Cristo corar de vergonha? Choca-me, por exemplo, ver uma profissional tão credenciada, tão ilustre, como a Dra. Fátima Campos Ferreira – senhora que põe Portugal a discutir o seu futuro e que manda calar a mais destacada “intelligentzia” portuguesa, displicentemente sentada -, a tecer loas ao carisma deste papa suspeito de colaborar com ditaduras fascistas, num tom lamechas mais apropriado para quem fala com o avô jarreta que se foi visitar ao lar. E há muitos mais exemplos. De gente culta, de pena apurada. Muitos pagos por contribuintes, ateus, como é o meu caso. Não há pachorra…

Daniel D. Dias

O Espírito Santo não joga aos dados

Jorge Bergoglio, acaba de ser entronizado como Papa Francisco I. Deveria ficar animado com a forma como foi acolhido publicamente, com o seu perfil de pessoa modesta, com aquilo que se diz relativamente à sua crítica à injustiça social e a sua amizade pelos pobres. Deveria, mas na realidade não fico.

Não fico porque me habituei a ver os chefes da igreja católica mais como herdeiros dos imperadores romanos do que de Jesus Cristo. Depois porque há coisas que, por mais que queira, não consigo evitar pensar. Reconheço que é subjetivo mas ninguém me tira da cabeça que João Paulo II, o primeiro papa polaco, foi eleito para ajudar a liquidar a União Soviética – repare-se que na altura ainda não se sabia se o “socialismo real” era mesmo real ou se era uma fraude –, e que o seu sucessor, o alemão Joseph Ratzinger, talvez tivesse sido eleito para relevar esta nova Alemanha, reunificada, que mais parece um 4º Reich. Quem sabe se a renúncia deste último papa, não tem a ver com algum incómodo que esta “missão” lhe tenha provocado.

Agora surge este papa que vem duma região do globo onde os povos parecem estar finalmente a tomar conta dos seus destinos, onde mais experiências sociais progressistas estão a ser ensaiadas… Pode ser coincidência, posso estar enganado. Pode ser que este papa seja mais um Angelo Roncalli (João XXIII), e que nos venha a surpreender a todos pela positiva. Faço votos para que assim seja, para que esteja redondamente enganado.

Mas como os príncipes da Igreja e em particular os Jesuítas, sempre estiveram muito próximos poder e muitas vezes o serviram, pelo sim pelo não, fico de pé atrás. Que me conste o Espírito Santo não joga aos dados…

Daniel D. Dias

Sabotar

Parece uma fatalidade mas o progresso tecnológico nas suas aplicações primordiais nunca trouxe vantagens imediatas para a humanidade. Pelo contrário. Cada grande salto relevante neste domínio sempre representou um retrocesso para vastas camadas da população. Porquê? Porque a primeira tendência sempre foi tirar partido desses avanços para fins egoístas.

Nos primeiros tempos a máquina a vapor levou a miséria aos campos; os caminhos de ferro e o barco a vapor antes de se tornarem fatores de desenvolvimento,  destruíram as economias onde chegavam. Uma das primeiras aplicações “bem sucedida” da cisão atómica foi a construção – e imediata aplicação – da bomba nuclear. A automação que poderia libertar o ser humano do trabalho monótono, alienante, tem servido para gerar desemprego em massa e agravar as diferenças entre norte e sul.  A informática e a internet antes ainda de consolidar a “sociedade da informação” e de ser aplicada no aprofundamento da democracia, foi aplicada com êxito na expansão da especulação financeira, na espionagem e na exploração das debilidades dos povos.

A palavra “sabotar” é paradigmática desta realidade. Deriva do termo francês “sabot” que é o nome duma soca, ou tamanco de madeira, que os camponeses usavam no campo. Foram precisamente estes camponeses transformados em assalariados no dealbar da Revolução Industrial, que, revoltados com o regime de exploração a que eram submetidos nas fábricas, introduziam os seus “sabot” das engrenagens das máquinas para as fazer parar…

É um absurdo que num tempo em que as pessoas podiam a nível mundial viver quase num paraíso,  estejam a destruir o seu habitat e a comprometer não apenas o seu futuro mas até o seu presente. Tudo isso porque uma parte da humanidade – cada vez mais reduzida – persiste na sua política de ganância. Não se liberta do seu egoísmo e não desiste de promover o seu veneno mortal como o demostra a atual crise mundial.

Uma vez mais cabe aos “homens de boa vontade”, em especial à queles que veem primeiro “a trave no seu olho do que o argueiro no olho do parceiro”*, que quebrem essa fatalidade. A humanidade que construiu este prodigioso progresso tem de certeza inteligência suficiente para o usar a seu favor.

Daniel D. Dias

*Referência a Mateus-7:3

 

Ideias e objetivos

Todos os seres humanos têm apegos naturais aos quais não podem fugir. Necessidades fisiológicas, como a fome e o sexo, ou psicológicas, como a segurança e o afeto, são exemplos universais. Estas necessidades condicionam quase absolutamente a vida de todos nós, todavia há uma diferença muito grande entre aqueles que para satisfazê-las se dispõem a “ajustar” as ideias que defendem aos seus interesses, e aqueles que são capazes de sacrificar os seus interesses às ideias que defendem.

Acho curioso que os que subordinam as ideias aos seus interesses raramente são “esquisitos” com as ideias que perfilham em cada situação concreta. Podemos observar este fenómeno ao longo de toda a história. Os chamados conservadores – na prática os defensores de privilégios – quando a situação política lhes parece desfavorável, envergam as vestes do poder que se instala e começam logo a tirar partido dele. A forma que encontram para minar esse novo poder é aderir a ele e, paulatinamente, sabotá-lo. Quando esse poder estiver suficiente enfraquecido, voltam às antigas vestes sem qualquer hesitação.

Como é diferente o comportamento dos que só lhes interessa defender os seus privilégios dos que se batem por ideias progressistas e de justiça social.

Os primeiros geralmente ajustam-se a cada momento. Aliam-se aos que com eles têm menos divergências e raramente fazem reparo nas suas diferenças ideológicas. Não perdem tempo com coisas menores como essa coisa de “ideologias”. Estão objetivados nos seus interesses e as ideias que professam são modeladas em função das suas necessidades e qualquer ideia pode servir se não puser em causa o essencial desses interesses. Alguém já viu algum poder da direita, algum especulador financeiro, evocar a “nobreza” do seu ideal neoliberal ou elogiar o capitalismo? Muito raramente porque o que lhes interessa é o “pote”…

Os segundos, com uma confrangedora frequência, valorizam mais as ideias do que os fins. Gastam uma dose considerável da sua energia a demonstrar que são os mais competentes para atingir os objetivos de progresso e justiça social e subalternizam as formas de concretizar tais objetivos. Apontam baterias para os privilégios fraturantes mas na prática só disparam para alvos subalternos. A mais pequena diferença ideológica, mesmo até diferenças de léxico ou de “liturgia”, são razões suficientes para alimentar ruturas. Se não cantam os mesmos hinos, se não são adeptos dos mesmos personagens históricos, se não partilham as mesmas palavras de ordem, já não se entendem. Responsabilizam-se reciprocamente pela inviabilização das alianças necessárias.

A história mostra que quando os povos convergem para objetivos tangíveis, quando conseguem superar as diferenças ideológicas e logram fazer alianças – tal como costumam fazer as forças do retrocesso -, por maiores que sejam os obstáculos encontram sempre formas de agir concertadamente e de vencer os desafios. O conceito “o povo unido jamais será vencido” é rigorosamente verdadeiro se não se limitar a uma boa ideia. Ter boas ideias é importante mas, mais importante do que ter boas ideias, é, definitivamente, ser capaz de concretizá-las.

Daniel D. Dias

A mão que embala o berço

Não sei quem estabelece os dias comemorativos, disto e daquilo, e também o das mulheres. Sei o pretexto histórico e social mas não sei se foram mais homens ou mulheres que se bateram por implantar este dia. Pessoalmente vejo nesta comemoração um sinal ambíguo dos nossos tempos. Por um lado é uma prova de que as instituições do mundo identificam os problemas e se preocupam alguma coisa com eles. Por outro é a comprovação de que os problemas persistem e que estão longe de serem erradicados.

Vivemos num mundo singular: Nunca a humanidade esteve tão à beira de resolver os seus problemas básicos de sobrevivência e civilizacionais, e nunca esteve tão próximo de os comprometer definitivamente. Tudo isso porque pela primeira vez na história há condições técnicas, cientificas, morais e culturais para concretizar quer uma coisa quer outra.

A sociedade patriarcal implantou-se a certa altura da história, não por que os homens fossem superiores às mulheres, ou mais “malvados”, mas porque o desenvolvimento civilizacional avançou com base na sedentarização assente na propriedade. Nesse modelo social os machos humanos dispunham de “vantagens competitivas”, como hoje se diz, por mera razão biológica e as fémeas humanas viram-se, por milénios, relegadas para a tarefa subalternizada, mas fundamental, de assegurar a sobrevivência da espécie e de transmitir a sua estrutura cultural básica.

As revoluções Industriais e científicas que ocorreram nos últimos dois séculos vieram mudar radicalmente esta situação. As “vantagens competitivas” dos machos humanos são cada vez menos relevantes e as mulheres paulatinamente recuperam a sua importância social. Recuperam mas ainda não recuperaram duma maneira uniforme e generalizada em todo o mundo. Há desigualdades marcantes entre mulheres e homens por esse mundo fora. Desde logo desigualdades no estatuto humano, mas também no plano económico e social. E a razão principal deste estado de coisas é antes de mais o peso da inércia do passado que continua a ter efeitos perversos e a dificultar o progresso.

As mulheres são naturalmente o repositório cultural da humanidade. Cultural não no sentido livresco mas no sentido mais profundo, afetivo e moral. O primeiro contacto de qualquer ser humano com o mundo – seja homem ou mulher – é feito por via das mães. Com o leite materno, elas transmitem não só o alimento básico, mas também os valores que subjazem em todos nós. São elas que moldam grande parte do caráter da humanidade. Este é um processo em grande parte inconsciente, mas real e determinante,  cuja importância a conhecida frase, “a mão que embala o berço embala o mundo”, bem expressa.

O peso do passado, da tradição, e o apego à estabilidade, calam mais fundo nas mulheres, não só por razões biológicas, também por razões históricas e culturais. No passado o macho conquistava o território mas era a fémea que o tornava habitável. O homem foi no passado, e talvez ainda hoje continue a ser, uma espécie de caixa de ressonância da mulher. Muitas mulheres se apagaram para que os homens brilhassem, e essa abnegação, que talvez tivesse alguma justificação no passado, hoje já não tem qualquer sentido ou razão de ser. As mulheres podem – devem – ser “elas próprias”  brilhar por si mesmo e não por interpostas pessoas.

Hoje o que conta é o “individuo” nas suas similaridades e diferenciações. A família tradicional passa por momentos complicados porque ainda não aprendeu a conviver com esta realidade. O crescimento exponencial das chamadas famílias mono parentais – de certo modo a negação do papel da família – é a prova viva desta crise. Os homens e mulheres atuais ainda não aprenderam a conciliar a necessidade de desenvolvimento individual com a vida familiar e comunitária mas estão a fazê-lo apesar dos imensos obstáculos que têm pelo caminho.

Mas, apesar das dificuldades, a cultura dominante está a mudar. Está a dar sinais de se tornar  nem machista, nem feminista, mas simplesmente humana. É natural que um processo ainda tão recente seja difícil de implementar, que, aqui e ali, haja extremar de posições, exageros, estratégias que não resultem, avanços e recuos. Mas é óbvio que se caminha para uma civilização em que as sensibilidades masculina e feminina coabitam harmoniosamente, se valorizam e respeitam reciprocamente sem competições doentias entre si.

Neste processo de mudança o lado feminino da humanidade, é, no meu entender, mais  determinante que o seu lado masculino, independentemente do protagonismo maior ou menor de cada um deles. O lado masculino, pela sua natureza, é – sempre foi – “periférico”. O lado feminino, é, pelas mesmas razões, “centralista”. Isto significa que não haverá nada consolidado, em termos de mudança, se não for assumido – e assimilado -, pelas mulheres.

É por isso o incremento da participação política das mulheres na sociedade é fundamental. Mas não uma participação política promovida ou a reboque da iniciativa masculina, talhada na sua tradição. É preciso que seja uma participação política, criativa, por iniciativa própria, que, obviamente,  não exclua a sã cooperação entre sexos.

Não há libertação da humanidade se metade dos seus membros não for livre. Por isso assinalo este Dia Internacional da Mulher com a esperança que dentro em pouco este dia se torne trivial ou desnecessário porque a igualdade entre seres humanos se tornou finalmente efetiva.

Vivam as Mulheres! Viva a Humanidade!

Daniel D. Dias

 

Chavez e o “charme” discreto da elite europeia

Pode não se gostar do estilo de Chavez. Populista dizem uns, anti democrático dizem outros. Mas a verdade é que Chavez com o seu controverso projeto “bolivariano” melhorou a vida da grande maioria dos venezuelanos. Transformou o petróleo em leite para as crianças, diminui substancialmente o analfabetismo, melhorou a saúde pública, colocou no mapa (sic) as favelas onde vivem mais de 4 milhões de pessoas e que os anteriores governos “democráticos” designavam por “zonas verdes”.

O matador de elefantes da casa real de Espanha – com problemas nas articulações pelo seu intenso trabalho nos safaris e agora envolvido em escândalos de corrupção -, um dia mandou calar Chavez. A Europa engravatada, a América dos casinos, solidarizou-se  com o monarca e exultou. É uma Europa que não gosta de ver por perto, gente mal vestida, quem dorme em tendas de beduínos ou convive, sem se incomodar, com o “mau gosto” popular.  Sentiu-se reconfortada com este “momento histórico”, que logo no dia da morte de Chavez, fez questão de recordar.

Acabou de morrer Chavez mas agora esta Europa civilizada que convive bem com ditadores desde que usem gravata de marca, se desloquem em avião particular ou que exalem um bom perfume francês, dificilmente exultará.  Está de mão estendida e tem o seu povo prestes a exigir-lhe que lhe dê o que lhe prometeu e a devolver o que lhe tem tirado.

A elite que domina a Europa está de olho na cesta de provisões das “Boule de suif“* que por aí restam e volta a esquecer os seus “valores“, e a sua “superioridade moral“. Faz acordos com exploradores de mão de obra infantil e com traficantes de diamantes de sangue. Financia fundamentalistas que mutilam mulheres, e apoia “apartheids civilizados”. Mas agora tem uma tarefa mais exigente pela frente: habituar-se a lidar com outros Chavez – uns que andam de “carocha”, outros com cara de índio -, que teimam em nascer por aí.

Esta elite vai ter de envergar mais vezes o seu boné de feirante, despojar-se mais da gravata e trocar os sapatos Gucci por botas de labrego. O seu polido “charme” discreto vai ser posto à prova. Uma grande oportunidade para os gestores de imagem e estilistas de alto gabarito.

Daniel D. Dias

*Referência à novela de Guy de Maupassant, “Boule de suif“

Como lidar com o Pântano*

Pode ser que esteja errado mas tenho ideia de que estamos a viver uma situação revolucionária. Essa revolução já deve ter começado há algum tempo – não sei quando nem onde -, e não me parece que seja apenas uma revolução circunscrita a Portugal, ou à Península, ou sequer ao continente europeu. Acho que desta vez é mesmo o mundo que se prepara para mudar.

Mas observo o que está mais próximo que é o nosso próprio país. Vejo o PS – no recorrente papel de Pântano (ou Planície) da democracia portuguesa -, a ser ostensivamente namorado pela direita. Ou muito me engano, ou na situação social extremada que se avizinha, Cavaco Silva tem na manga uma cartada: a formação dum governo PS-CDS. Um governo que pode resultar dum acordo parlamentar com o consentimento do PSD ou dum acordo programático à volta dum governo que tenha a concordância desses partidos, e, já se sabe, discretamente, a concordância duma considerável parte do PSD que desespera por isso… Eles são hábeis a encontrar fórmulas se estiverem para aí virados.

Esta ideia tem-me bailado na cabeça e esta manhã saiu reforçada ao ouvir as intervenções na A.R., em especial o discurso do inefável Paulo Portas. Foi tão delicado com o PS, deixou-lhe tantas portas abertas, que fiquei quase sem dúvidas. Começo a entender o sentido das recentes posições de “generosidade” democrática de Augusto Santos Silva e de outras personalidades do PS ao defender a liberdade de expressão de ministros como Relvas. É gente que conhece bem o poder e percebe que dentro em pouco pode estar na situação de Relvas e que o melhor é começar já por condenar o “vexame” que Relvas sofreu para não vir no futuro a ser vítima da mesma situação. Ou seja, já conta com o poder como certo.

Mais uma vez o poder se disputa ao centro, nas oscilações do Pântano. A habilidade da esquerda está de novo posta à prova: Ou facilita a tarefa à direita espremendo o PS nas suas contradições – o que terá quase certo o efeito de reforçar a sua ala direitista -, ou consegue concertar posições com o PS apoiando  a sua debilitada ala esquerda e logra desse modo inviabilizar o previsível resvalar do PS para a direita.

A primeira postura é a mais óbvia e a mais fácil de concretizar mas os resultados são incertos. O descontentamento com a chamada “classe política” estende-se também aos partidos da esquerda, e em termos eleitorais – se se vier a colocar a situação de eleições antecipadas -, a subida da esquerda mais que provável, pode ainda assim não ser suficiente para garantir um genuíno governo de esquerda. A segunda postura será mais realista e trará resultados mais consistentes mas implica uma difícil concretização. A concertação de posições implica muitas cedências recíprocas entre partidos e, seguramente, o adiar de muitas das aspirações políticas mais relevantes. Vai obrigar a muita habilidade política, a muito ”jogo de cintura”, e a engolir muitos sapos.

A manifestação de amanhã poderá, entre outras coisas, ajudar a decidir qual das duas posturas a esquerda adotará.

ddd

*Referência à Assembleia Constituinte na Revolução Francesa