Religiosidade

Tenho ideia que a religiosidade é algo intrínseco do ser humano. Quando nos emocionamos espontaneamente, sem necessidade de recorrer a palavras ou a ideias – com um belo pôr do sol ou com o sorriso duma criança, quando nos extasiamos com a grandiosidade do universo ou com a singularidade da vida -, acho que, nesse preciso momento, estamos em sintonia com o cosmos, i.e., vivenciamos uma atitude religiosa. Este tipo de sentimentos são muito comuns e enriquecedores e provavelmente são eles que estão na génese de todas as religiões e cultos.

A atitude contemplativa, a atenção incondicional e completa ao que nos rodeia, a capacidade de sentir empatia pelos outros sem esperar nada em troca – nem sequer pensar, sem ponta de egoísmo -, é algo que torna as pessoas mais humanas e felizes, e talvez tudo isso esteja implantado na nossa natureza mais profunda. Terá sido esta a razão que levou a humanidade, desde cedo, a criar fórmulas e eleger locais para cultivar esta religiosidade natural.

Mas o que geralmente fazemos é substituir essa atenção incondicional – que bem pode ser sinónima de meditação, contemplação ou oração – por rituais e liturgias. Os locais de cultos são utilizados, não como locais veneração do universo, ou do cosmos, mas como locais de pedincha. Pedincha de segurança, pedincha de “amor”, pedincha de perdão…

Não faço parte de nenhuma igreja nem de nenhum culto. Mas se fosse responsável por alguma igreja acho que desencorajaria a entrada a todos aqueles que lá fossem pedir seja o que for. As aspirações humanas, de justiça, de paz, as nossas necessidades de segurança e alimento, devem ser tratadas no âmbito da sociedade, na prática política. Os locais de culto são apropriados para exaltar o universo, louvar o facto de estarmos vivos. É na vida social, na interação com os outros, através do trabalho e da cooperação, na cultura, na troca de conhecimentos, nas ágoras a que pertencemos, que devemos resolver tudo o mais.

Quando assisto à tendência de transformar as instituições públicas em locais de culto, povoados por vacas sagradas, e os locais de culto transformados em locais de intervenção política, administrado por gestores paramentados, fico preocupado.

Daniel D. Dias

Desabafo

Sempre que me lembro,

que um jovem barítono – tão pouco credível que nem mereceu figurar na lista de deputados da insuspeita Dra. Manuela Ferreira Leite -, meses antes de chegar a primeiro-ministro já tinha anunciado que a sua prioridade era “rever” a Constituição http://videos.sapo.pt/fgsd0DS1GzTsznCblN8D#share, denunciando claramente quais eram as suas intensões quando ascendesse ao “pote” http://www.youtube.com/watch?v=18Y2xOWJ-zg&feature=player_detailpage e ninguém pareceu importar-se com isso ;

que o derrube do anterior governo começou com as gigantescas manifestações de professores que contestavam o modelo de avaliação, por ser muito burocrático http://videos.sapo.pt/esquerda_net/Gw4E7bWJeOggCz82tfEV, professores que são agora despedidos, aos milhares, quase sem resistência, como se tratasse de algo “normal”, inelutável;

que a famosa “asfixia democrática” http://www.publico.pt/multimedia/video/mantenho-exactamente-tudo-o-que-disse-sobre-asfixia-democratica-633893037500545727 badalada em todos órgãos de comunicação social com grande ênfase e indignação, é agora substituída – entre outras receitas – por um método criado pelo pequeno génio, Poiares Maduro, para “limpar” a comunicação política http://www.noticiasaominuto.com/politica/86601/queremos-dar-informa%C3%A7%C3%A3o-correta-e-combater-sentimento-anti-pol%C3%ADtica sem que nenhum OCS manifeste, ao menos, estranheza;

que este “governo” – inquestionavelmente iníquo – resultou duma estranha confluência entre esquerda e direita parlamentares que ao reprovar o PEC IV http://videos.sapo.pt/cUvoKoFVfjzlie7BPes5 (que já tinha a aprovação da Comissão Europeia e até da Sra. Merkel…) derrubou o anterior governo facto que tornou inevitável o “pedido de ajuda externa”, há muito reclamada pela direita, e fez ascender ao poder a atual maioria…

Não resisto: “Passo-me”. Que surpresas ainda me reservarão os próximos tempos? Será que a malta aprendeu alguma coisa?

Daniel D. Dias

Um amigo meu oriundo duma família muito católica contava-me que quando era criança, padecia quando era obrigado a frequentar os rituais da igreja. Tudo o incomodava: o cheiro do incenso, a liturgia monótona, a dureza dos bancos… Mas o pior de tudo era não sentir qualquer emoção, não ter fé. Um dia ganhou coragem e confessou à avó que a missa não lhe dizia nada, que não sentia uma pontinha de fé. A avó, compreensiva, confessou-lhe que quando era criança também lhe acontecera o mesmo e que demorou muito tempo a ganhar fé. E aconselhou-o: “Filho não te preocupes. Continua a ir à missa, mesmo que não percebas nada. Tenta fingir que percebes e evita impacientar-te. Vais ver que aos poucos começas a acreditar e a ter fé”.

Ora é justamente o que agora ocorre. Com a preciosa ajuda da ideologia dominante, veiculada pelos “media” – que nos distrai, que nos baralha, que nos torna pensadores marginais, que nos enche de dúvidas -, vamo-nos amansando, deixando crescer a lã e habituando ao redil que há muito está preparado. Há quem nos vá exacerbando as emoções, a indignação, para que fiquemos com a ilusão de que estamos mais fortes, de que o “tal dia” não tardará. Faz parte do processo. Também eles acham que o mais importante é ter fé, neste caso, a fé numa vitória que não escapará cometamos ou não disparates…

Tudo então parece resumir-se à fé. A racionalidade neste tempo da ciência é quase um luxo. Talvez por isso o papa tenha escolhido agora visitar o Brasil, o maior país da América do Sul, região onde ocorrem atualmente as mais significativas e profundas mudanças sociais do globo. Este papa faz-me lembrar o seu antecessor João Paulo II, o primeiro papa que veio do leste. Carismático, simples, elogiado por todos, crentes e não crentes, em três tempos suprimiu a “teologia da libertação” que proliferava sobretudo pelas américas e contribuiu decisivamente, talvez tanto como Thatcher ou Reagan, para o desmoronar do “bloco de leste”. E fê-lo, não porque esse bloco fosse uma falsidade ou uma perversão duma ideia, mas justamente porque se receava que fosse algo “mesmo” sério, libertador dos povos… Esse papa – idolatrado a tal ponto que já faz milagres e não tarda tem estátuas nas igrejas -, tal com o Francisco I, logo que surgiu também foi de imediato objeto de culto por todos os “media”.

Francisco I é simples, modesto, “não tem ouro nem prata para oferecer” (disse ele hoje), e as Fátimas da nossa comunicação social ficam banzadas, embevecidas, com tamanha modéstia. (Eu sou ainda mais modesto que Francisco I: Não tenho ouro nem prata, nem rendimentos, e nem sequer uso roupas esquisitas que me distingam dos outros. E no entanto ninguém repara em mim, ninguém se me dirige embevecido e me enaltece, ou me convida para acontecimentos especiais. Mas quem sou eu? Mas sei de muita gente, bem mais modesta do que eu, com virtudes notáveis, que fez obra que o papa nunca fez nem fará, que vive – ou viveu – no mais absoluto anonimato). Que seriam estes papas sem o apoio desta prestimosa comunicação social?

Dirão: é a fé. E pronto o assunto fica arrumado. Mas continuo a não entender porque foi o papa ao Brasil. Será de fé que o Brasil está carenciado? O Vaticano não tinha assunto mais urgente para tratar? Ou será que Francisco está a imitar a obra do seu antecessor João Paulo II? Espero que não.

Seguir, manter a rotina, insistir no discurso, bater até à exaustão a liturgia, sem grandes preocupações de racionalidade ou coerência, é “o que faz falta”. A fé, a disponibilidade para aceitar tudo sem discussão, o trabalho do pastor que ensina o rebanho a obedecer e a aceitar o redil, pacificamente e de boa vontade, virá com o tempo.

Esta é a lição de Cavaco, também ele um homem de fé. Os nossos comentadores e jornalistas, como bons acólitos, já estão disponíveis para achar que o homem tem virtudes, já lhe adivinham sabedorias nas suas incongruências mais abstrusas. Tudo acabará por bater certo, é a mensagem implícita em todos os discursos. E talvez bata. Pode bem ser que a “ordem cósmica” que comanda os nossos destinos, tenha epicentro nalguma gruta de Boliqueime…

Ninguém consegue manter-se em bicos dos pés por muito tempo, nem gritar dias a fio. Mesmo as mais tenebrosas tempestades têm um fim. Por isso cultivar a fé é tão importante para o “status quo”. Não altera o destino mas adapta-nos às circunstâncias, ajuda-nos a aceitar a mais miserável mediocridade. Daqui a dois anos alguém se lembra? O redil está pronto e há novos maiorais…

Daniel D. Dias

Aparências e essências

No debate do chamado “Estado da Nação” ocorrido ontem na Assembleia da República assistimos a duas situações paradigmáticas:

A primeira protagonizada por uma dama de fino recorte burguês – a Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves – que vimos engrossar a sua maviosa voz para fazer parar os protestos que assistentes das bancadas destinadas ao público dirigiam aos parlamentares. O descontrole exibido por esta dama habituada a mostrar os seus atributos em ambiente protegido, pôs em evidência a asténica personalidade da segunda figura do estado, que em caso de catástrofe ou defesa da nossa soberania poderá ser chamada a encabeçar a resistência do nosso povo ou a comandar as nossas forças armadas…

A citação que logo proferiu a propósito deste incidente confirma essa fragilidade. Colou-se a uma figura a todos títulos forte, com a qual não tem a mais remota semelhança, nem intelectual, nem política, nem ética, para acobertar a sua minguada estatura de figura pública – a de Simone Beauvoir. Pelos vistos já não é a primeira vez que se socorre deste expediente, mas desta vez fê-lo tão desastradamente que pôs a descoberto o seu artifício. Utilizou a frase “não podemos deixar que os nossos carrascos nos deem maus costumes” na qual Simone Beauvoir se referia aos ocupantes nazis. Comparou deste modo aquelas dezenas de manifestantes das tribunas da AR, pronta e pacificamente desalojados pela polícia, a nazis…

Saiu-se mal obviamente. Depois disfarçou dizendo que era uma alegoria (?) que não queria ofender ninguém, mas já era tarde. É o que faz imitar as aparências e ignorar as essências. Talvez fosse bom que Assunção Esteves se lembrasse – e refletisse – numa outra frase de Simone Beauvoir : “Não se se nasce mulher: torna-se”…

É caso para dizer: Estamos bem entregues.

A segunda foi também protagonizada por uma dama, mas esta de recorte mais popular, senhora de um timbre de voz estridente, que compensa em decibéis o que lhe falta em consistência. Trata-se de Heloísa Apolónio que anunciou a apresentação pelo PEV – Partido Ecologista “Os Verdes”- duma moção de censura ao “governo” na próxima semana.

Pasmo: É uma segunda oportunidade que o PEV – que já tem o apoio anunciado pelo Bloco de Esquerda nesta iniciativa (e certamente do PCP que é o seu partido suporte) quer dar a este “governo” de coligação? É óbvio que a chamada maioria vai derrubar esta moção de censura (para a qual basta uma maioria simples) e assim evita ser forçada a apresentar a moção de confiança que estava praticamente obrigada a apresentar e, essa sim, tinha grandes condições para fazer cair o “governo”…

Tal como na primeira situação, esta segunda também evidencia uma aparência (de esquerda) que ignora a essência.

É caso para dizer: Com amigos destes nem precisamos de inimigos.

Daniel D. Dias

Política e “carreira política”

As pessoas constatam que são governadas por gente irresponsável, por garotos que sem nunca terem feito nada na vida são promovidos, num ápice, aos mais altos cargos dirigentes do país e ficam espantadas. Não percebem como tal coisa ocorre sem que deem por isso, como podem ser dirigidos por tanta gente que não conhecem e que não escolheram quando votaram. E a tendência é desatar a maldizer a democracia, os políticos e a política em geral, como a fonte de todos os males.

Mas a fonte dos problemas, a perversão da atividade política a que se assiste, assenta em algo que as pessoas parece que não se apercebem: Na profissionalização da política, e mais concretamente, na chamada “carreira política” que se efetua por via dos partidos.

Insisto em chamar a atenção para esta questão que me parece básica e essencial: a política não é profissão. Todos nós, para além da atividade que exercemos para sobreviver ou para nos formar, como membros da sociedade que somos temos, “ipso-facto”, uma função política: como pais, como cidadãos, como donas de casa, como encarregados de educação, como administradores de condomínio, como meros cidadãos, etc.

Se dispusermos da confiança dos nossos concidadãos eventualmente poderemos também ser escolhidos para desempenhar cargos públicos. Ora se tal ocorrer e obrigar à ocupação do nosso tempo por inteiro, teremos naturalmente de ser compensados mas por um montante idêntico ao que ganharíamos na profissão cujo exercício suspendemos e por um tempo determinado. Se o exercício dos cargos públicos for efetuado por dever de cidadania e não para aceder a um qualquer “pote”, a atividade política tenderá a regenerar-se. Isto pode parece irrealista ou impraticável mas foi assim no passado, ainda é assim em muitas circunstâncias e deve ser recuperado este espirito para contrariar o carreirismo a que se assiste.

Está difundida a ideia que a política implica um certo número de competências específicas , que só uma certa elite é que tem capacidade para desempenhar. É uma ideia profundamente errada mas que dá jeito manter a um certo número de pessoas. A competência exigida no exercício político é de natureza cívica. Assenta no bom senso, no sentido de responsabilidade e de justiça, na capacidade de liderança, na honestidade, na maturidade, tudo atributos que só a “universidade da vida” confere e que a todos deve assistir.

A decisão política tem uma natureza diferente da decisão profissional. Se no exercício dum cargo político o cidadão responsável por esse cargo precisa de decidir numa área determinada -, obras públicas, energia, justiça, segurança pública, economia, saúde pública, educação, relações com outros países, etc. – deve servir-se e aconselhar-se junto dos profissionais que se ocupam dessas áreas – engenheiros, cientistas, juristas, militares, médicos, economistas, contabilistas, historiadores, filósofos, artistas, etc.. Esta questão não é assim tão difícil de entender e praticamo-la todos os dias: decidimos comprar um carro e não somos mecânicos, escolhemos a casa para viver e não precisamos de ser arquitetos. O decisor político deve ser avisado, prudente, ponderado, mas não precisa de ser especialista na área sobre a qual é preciso decidir, tal como o presidente dum clube desportivo não precisa de ser atleta ou treinador. Bem entendido, precisa de ser bem informado, ter carater, decisão, sentido da oportunidade. Ser for sábio, se souber alguma coisa do assunto, tanto melhor. Mas não é condição “sine qua non”.

Impedir os partidos de serem fábricas de políticos profissionais é uma urgente tarefa de cidadania. Só dessa forma se eliminará os riscos dos “jotas” continuarem a aceder ao poder. Só dessa forma se poderá lutar eficazmente contra a corrupção no exercício dos cargos públicos. Mais do que criar novos partidos é crucial que os militantes e simpatizantes dos diversos partidos, comecem a discutir esta questão por forma a pô-la em prática o mais rapidamente possível.

Daniel D. Dias

Tiques

Mesmo no estertor e na decadência os tiques dos antigos impérios coloniais não abandonam a velha Europa. A demonstrá-lo está o recente sequestro do Presidente Evo Morales cujo avião vindo de Moscovo de regresso à Bolívia, teve de fazer uma aterragem de emergência em Viena – onde o avião presidencial foi vistoriado, confirmando não transportar consigo o desertor da CIA Edward Snowden – foi interditado de sobrevoar o espaço aéreo da França e de fazer escala técnica em Lisboa, além de receber proibições idênticas de Espanha e de Itália.

É espantoso que uma Europa que colaborou ativamente com o tráfico secreto e ilegal de prisioneiros para a prisão de Guantánamo – que continua a funcionar apesar das promessas do “progressista” Obama e onde têm decorrido greves de fome prolongadas (“neutralizadas” pela alimentação forçada dos prisioneiros), sem que uma palavra se tenha ouvido de qualquer governo europeu ou da sua prestimosa comunicação social -, seja tão expedita a apoiar o “amigo americano” não se inibindo em quebrar uma rega fundamental do direito internacional, nem sequer se preocupando com a eventuais sequelas – comerciais, culturais e outras, que possam decorrer de tal atitude.

A “especialista” em política internacional Teresa de Sousa bem já tinha avisado que esta zanga entre europeus e americanos por causa da humilhante e desavergonhada devassa da vida das instituições europeias, não era para levar a sério, pois o pragmatismo do império prevaleceria (palavras minhas mas o sentido era este). A veemente indignação do “socialista” Hollande sobre a espionagem americana não passa pois de “bull-shit” e vai na sequência da desastrosa política externa de França que num continente apoia a Al-Qaeda (que se ufana de decapitar padres católicos na Síria), e que noutro a combate ferozmente. É curioso que o nosso inefável (talvez-quase-ex) ministro Paulo Portas está em sintonia com a posição “socialista” francesa e quase “socialista” italiana, proibindo a passagem do avião presidencial de Evo Morales.

Esta elite europeia eleita por povos despolitizados, embalados em eventos hipnóticos fornecidos em doses industriais, faz lembrar aquele nobre samurai que, derrotado, estava condenado pelo “bushido” a cometer suicídio ritual. Uma velha ama, condoída com a situação do senhor apressou a levar-lhe uns saborosos morangos que sabia o seu senhor muito apreciar. Mas o senhor, prestes a cometer “seppuku”, recusou-os: “Não posso aceitar, disse o samurai agradecido. Ultimamente não tenho andado bem dos intestinos”.

Vide – http://www.publico.pt/mundo/noticia/bolivia-convoca-embaixadores-de-portugal-e-franca-para-discutirem-voo-de-morales-1599116

Daniel D. Dias