Competição versus cooperação

Há equívocos que se mantêm de forma artificial e que parecem ganhar novo fôlego com as novas TI. O mais grave de todos é provavelmente a ideia de que a competição é a primordial característica humana e que é a partir dela que a humanidade se “salvará”. Está comprovado de inúmeras formas que a sobrevivência da humanidade e o seu sucesso como espécie se deve a outra característica presente em todos os seres humanos – o impulso para a cooperação. O ser humano depende completamente dos seus semelhantes e, nas horas críticas, geralmente responde solidariamente. O ruído dos média conduzido pelos fanáticos do individualismo egocentrista, baralha tudo e abafa atualmente esta realidade. Uma dose comedida de competição pode ser saudável mas se se torna na essência das nossas vidas é mortal.

É falso que o progresso resulte da competição. O progresso resulta sobretudo da busca de soluções e da procura da verdade. A ciência – a mãe do progresso moderno – foi construída na base da cooperação e exigiu elevada abnegação de milhões de seres humanos, que muitas vezes sacrificaram a sua vida por ela. Não se busca a verdade, não se investiga, para ser milionário.

Daniel D. Dias

Há pouco, na TSF, ouço Francisco Louçã condenar José Sócrates classificando o “seu” PEC IV como um prelúdio da Troika. Na TVI, há minutos, observo Nuno Melo, do CDS, em patética sintonia com João Semedo, do BE, a enterrar o Eng. José Sócrates. Ontem ouvi o vetusto Eduardo Catroga vaticinar o desaparecimento de José Sócrates ou o seu julgamento…

Não há dúvida: Portugal não precisa de investidores, nem de políticos honestos, nem de mudar de rumo. Precisa é de alguém como Torquemada à frente duma legião de exorcistas.

Daniel D. Dias

Apologias e silêncios

É difícil de superar o apego a ideias que se revelaram erradas. É um drama corrente: de repente descobre-se que se estava equivocado acerca do que se acreditava ou do que se defendia… Pode ser muito difícil de superar esta situação – nem todos logram “dar a volta” -, que pode mesmo ser indelevelmente traumatizante, mas a pessoa de carácter nunca a escamoteará com justificações ou atitudes desonestas. Preferirá mergulhar no silêncio.

Talvez por isso haja por aí brilhantes apologias que não entendo e silêncios que, a cada dia que passa, entendo melhor.

Daniel D. Dias

Ética nas redes sociais

Se há uma coisa que me aborrece seriamente é a desonestidade intelectual. Qualquer nível detetado, por mais pequeno que seja, é sempre indício, de que se pode ir mais além, ou seja, de que não se pode confiar na pessoa envolvida.

Não sou dos que acham que as pessoas são vis ou perversas porque não pensam como eu ou porque não perfilham as mesmas opiniões. É normal haver desacordos. Admito o erro e a ignorância, em mim e nos outros, embora não os aprecie nem enalteça. Mas apenas o erro e a ignorância; não a desonestidade intelectual.

A desonestidade intelectual é uma forma específica de desonestidade que nem sempre é fácil de identificar. Ela é, por exemplo, a ação de encobrir as reais intenções através da demagogia, ou a deturpação voluntária de ideias ou factos, para atingir objetivos ideológicos ou defender interesses escondidos. É também o uso de artimanhas para ampliar a influência ou procurar obter vantagens, sejam elas de que tipo forem. Tudo isto é feito frequentemente com muito “engenho e arte”: E há grandes “artistas” na redes sociais…

As redes sociais, designadamente o Facebook, constituem um fenómeno novo na comunicação global, que pode ajudar as pessoas a contornar os inconvenientes do isolamento social. Elas representam uma espécie de tribuna crescentemente acessível a todos, estejam aonde estiverem, pertençam a que classe pertencerem.

As redes sociais, aproximam as pessoas distantes de forma simples e acessível, permite-lhes difundir ideias, sensibilidades e gostos dum modo bidirecional, ou seja, dialogante, coisa que os “media” tradicionais, quase nunca asseguraram e tendem a assegurar cada vez menos em contraciclo com as possibilidades abertas pelas novas tecnologias.

Algo tão importante deve ser usado com respeito e ampliado na sua difusão – designadamente combatendo a infoexclusão ainda existente -, e firmemente defendido da infiltração abusiva pelas centrais de “intelligentsia”. Mas também deve ser preservado do uso grosseiro e sobretudo da desonestidade intelectual. É fundamental pois que os utentes adotem um comportamento ético no uso deste instrumento. Sem isso este tipo de comunicação perderá credibilidade e está ameaçado na sua função mais nobre que é comunicar.

É por tudo isto que venho apontar para alguns comportamentos reprováveis indiciadores da referida desonestidade intelectual que tenho vindo a detetar no Facebook. São apenas alguns exemplos – haverá mais seguramente – e não refiro nenhum caso em concreto porque estou convicto que haverá pessoas, involuntariamente ou induzidas por terceiros, que os cometerão de boa fé. (Quantos agentes de vendas, involuntários, não haverá por aí…) A saber, pois:

– o expediente de usar os “amigos” de forma encoberta, para vender algo. Não serão condenáveis as vendas – de ideias, de produtos ou de serviços – desde que sejam feitas de forma clara, sem margem para dúvidas. Quem quer vender/promover alguma coisa, deve dizer claramente a sua intenção e não disfarçar o ato com qualquer pretexto “generoso”.

– métodos equívocos (para não dizer outra coisa) de ampliar a rede de influência – pessoal ou de grupo -, de engrossar a audiência de “amigos”. Por exemplo utilizar a defesa duma causa – daquelas que sensibilizam toda a gente – para ganhar “amigos” ou argumentar com falsas interdições do FB para levar pessoas a fazer pedidos de amizade.

– atacar ou defender ideias ou pessoas, caluniar ou fazer insinuações vexatórias, utilizando argumentos deturpados, falsos, fora do contexto ou de prazo, não citando fontes, ou fazendo referência a falsas fontes

– apoderar-se de textos, documentos, etc., de terceiros, sem consentimento prévio do(s) autor(es), fazendo-os seus, ou, pior do que isso, reproduzindo-os de forma propositadamente equívoca ou deformada

– utilizar o prestigio pessoal – seu ou doutrem – para obter vantagens, financeiras ou outras, sob o pretexto de contribuir para a defesa de alguma causa nobre.

Fica aqui esta chamada de atenção como contributo pessoal para preservar este instrumento de comunicação, que, para muita gente é quase a única forma de se ligar com o mundo. Se todos dedicarmos alguma atenção a esta situação estou certo que tornaremos mais difícil a proliferação da desonestidade intelectual nas redes sociais e dessa forma prestaremos um relevante serviço à comunidade.

Bem hajam!

Daniel D. Dias

Vou rezar

O Machete é uma mancha. O Machete é uma lástima. O Machete, ainda assim, come-nos as papas na cabeça. Porque a oposição não é capaz de ter uma posição comum. Não age: barafusta. Com esta oposição o Machete pode estar tranquilo. Ele e os outros capangas que estão no poder. Tinha razão o banqueiro Ulrich com o famoso “ai aguenta, aguenta!”…

As batalhas não se ganham com piedosas intenções, com palavras de ordem, com discursos inflamados, mas com inteligência e entusiasmo. Por esta ordem – ou simultaneamente – mas nunca um sem a outra: venham as ideias avançadas, e as estratégias adequadas a cada situação, e esta pandilha desaparece, pulverizada, como por encanto. É preciso entender que não é a direita que é forte. É a esquerda que persiste em ser fraca tendo todas as condições para o não ser como se comprovou nas últimas eleições.

Desculpem. Não há pachorra: vou rezar para ver se o milagre acontece.

Daniel D. Dias

Sim, mas…

Henrique Marçal sintetiza num curto post o que é a preocupação fundamental dos portugueses na atualidade

“A bandeira portuguesa no Castelo de S. Jorge

O que está em jogo não será a nossa identidade mas sim a dimensão da nossa autonomia! Como vamos nós portugueses dar uma solução duradoura aos nossos problemas? Este quadro político tem de ser reformulado, bem e rapidamente! Sem perda das garantias e liberdades já conquistadas! Haverá engenho para o efeito?”

A minha resposta é “sim, mas”.

“Sim”,
porque o povo português dispõe de massa crítica suficientemente consistente para superar qualquer crise. Portugal é o país/nação mais antigo da Europa – dito isto no sentido de que mantém há mais tempo do que qualquer outro uma unidade cultural, linguística, e territorial invulgar -, o que só por si representa uma valia fundamental pois demonstra uma capacidade de sobrevivência exemplar, mesmo nas piores circunstâncias,

“mas”
tem de superar uma idiossincrasia muito peculiar, construída ao longo séculos, porventura ainda muito antes do estabelecimento da nacionalidade, que Unamuno, Sérgio, Antero , Eça, Pessoa, entre outros pensadores, caraterizaram bem. Interromper a política – ou filosofia – do “transporte”, consagrada na Revolução de 1383 que abre caminho aos descobrimentos e ao Império, é talvez o passo fundamental.

Portugal habituou-se a resolver os seus problemas essenciais a partir do exterior ou por influência externa. Dir-se-ia que o crescimento de Portugal como nação o tornou mais num entreposto político-cultural do que num lugar de sinergias. Esta característica, que nos transforma no “regresso ao lar”, num povo soturno, depressivo, abúlico (se calhar o fado – a canção “nacional” – é algo paradigmático deste facto assinalado exemplarmente por Unamuno), acaba por nos impedir de aproveitar o nosso lado luminoso e positivo, que é bem real, e não mitológico como muitos o pintam. Ciclicamente esta questão é afrontada – o consulado de Pombal é um dos bons exemplos -, mas temos sempre de recorrer a uma bengala estrangeira (os cruzados a caminho de Jerusalém, para ganhar a independência, os ingleses para preservar essa independência em vários períodos críticos, e agora os fundos estruturais da Europa, ou a troika… Mas há outras). Até a nossa república acaba por ser uma resposta com génese externa, pois tem seguramente origem no humilhante ultimato inglês de 1890.

Estas bengalas exteriores a que recorremos sistematicamente são mais pretextos do que necessidades. Acabamos quase sempre por ser nós, quase exclusivamente, à custa dos nossos recursos endógenos, a resolver as nossas crises. O factor exógeno – a ajuda que vem de fora – funciona apenas como uma espécie de catalisador que teve sempre efeitos secundários penalizadores para a nossa independência.

A intervenção portuguesa no mundo foi o primeiro e decisivo passo para a globalização. Transformámos a geopolítica do mundo, fomos os primeiros a proporcionar uma vocação mundial à borracha, à batata, ao café, ao chá, à canela, mas também à espingarda, à náutica, à ciência e às artes. Por isso não podemos rejeitar a influência externa. “Mas” temos de usá-la a nosso favor e não contra nós. Para tanto temos de construir uma elite – no sentido nobre do terno – que nos liberte dessa síndrome neurótica que uma pequena camada de privilegiados – sucessora ideológica do partido dos terratenientes derrotado em Aljubarrota – persiste em cultivar e fazer ressurgir quando enfraquece, para manter as suas vantagens.

Daniel D. Dias

Quebrar o enguiço

Estas eleições autárquicas – apesar do regozijo proporcionado pela derrota clara deste execrável grupo de malfeitores que atualmente exerce o poder – deixaram um travo amargo. Se há muito não havia dúvidas de que Portugal continuava culturalmente a ser o “reino cadaveroso” que Ribeiro Sanches denunciava no século XVIII, poucas agora restaram: Entre nós o crime continua a compensar porque a justiça que defendemos está ao nível da nossa (a)moralidade e da débil cultura cívica e política que praticamos.

O crescimento da abstenção é a principal prova disso. Os quase 50% registados são uma demonstração clara de que estamos mais preparados para ser governados em ditadura do que a batermo-nos pelo aprofundamento da democracia. Ou seja: tendencialmente estamos mais disponíveis para aceitar o retrocesso, do que para progredir. Trocamos facilmente a liberdade e a razão por uma frágil segurança assente na ilusória estabilidade prometida por gente que frequentemente nem sequer conhecemos.

Dir-se-á, com razão, que estas eleições também mostraram aspetos inovadores muito interessantes. Houve experiências de aprofundamento da democracia que funcionaram e que foram premiadas. Houve demostração de iniciativas de cidadania com resultados concretos. Mas 50% de abstenção representa um grande número de pessoas, um número que não tem parado de aumentar. Por outro lado subsiste essa quase indiferença pelo perfil ético dos candidatos ao desempenho de cargos públicos. Fica pois um lastro de preocupação.

Tem sido feita a leitura de que a abstenção é um voto de protesto, contra os partidos, contra o sistema. Talvez seja, mas não deixa de ser também uma manifestação de incultura cívica e política. Se for um gesto intencional é como combater um incêndio atirando gasolina para cima. A abstenção não castigou o poder nem o sistema. Prejudicou sobretudo o campo progressista que, em muitos casos – com as suas divisões e sectarismos – se auto liquidou acabando por poupar os partidos do poder a uma queda mais esmagadora.

Maria João Avilez – a aristocrática comentadora da direita portuguesa mais arcaica -, exasperou-se na noite eleitoral contra a elevada abstenção que atribuía aos adeptos do PSD. Evidenciando a sua natureza petulante e pouco dada às coisas da razão, não percebeu que a abstenção é que salvou o PSD dum resultado ainda mais demolidor… Têm destas coisas este tipo de analistas. Mas o mais grave é que muita gente, responsável e empenhada na causa do progresso, não manifeste preocupações com este aspeto da vitória eleitoral.

Como povo parecemos ser mais apreciadores da força do que da ética. A justiça entre nós, é, há já muito, algo retórico para usar mais como argumento do como prática. Talvez isto tenha a ver com o facto de termos sido um dos últimos países a abolir o Tribunal do Santo Ofício, que durante 300 anos, perseguiu e queimou os espritos mais livres, nobres e cultos, deste (e doutros) país, organizando regularmente autos de fé para exaltar o feito. Medroso, inculto e submisso, o povo habituou-se a participar nestes bárbaros espetáculos, espetando alegremente tições nos condenados a caminho da fogueira, muitos dos quais já lá chegavam cegos ou moribundos.

Somos herdeiros desta gente e talvez por isso poucos de nós – a começar pelos próprios juízes – acreditam na justiça. Veja-se como o concelho mais culto do país exultou com a vitória dum autarca que não teve reservas em meter a mão no “pote”. Barafusta-se contra a corrupção, maldizem-se os que abusam do poder, mas tudo isso pouca importância parece ter quando dos saques e vantagens ilegítimos se utiliza algo que exiba alguma obra… Em termos de contas somos pouco exigentes, especialmente com os poderosos.

Há, sem dúvida, que relevar o lado positivo destas eleições, pois, se há coisa necessária nesta altura, é “animar a malta”. Mas há também que estar atento ao crescimento entre nós da incultura política e à proliferação da chamada alienação social. As pessoas e organizações apostadas no progresso devem estar atentas à evolução deste fenómeno e procurar combatê-lo a todos os níveis, desde o público ao familiar. O espetro do “reino cadaveroso” continua vivo e só mudando a mentalidade dos portugueses, elevando o seu nível cultural – especialmente o cívico e político -, se poderá quebrar este secular enguiço.

Daniel D. Dias