Tigres de papel

 

A recente denúncia do acordo de associação com a UE, por parte da Ucrânia – que estava praticamente finalizado e pronto a assinar -, foi um balde de água gelada sobre arrogância da atual elite que conduz os destinos desta Europa (des)unida. Bruxelas e em particular a renascida Alemanha, já dava como garantido que a Ucrânia, influenciada pelas cliques pró ocidentais que nela floresceram – e enriqueceram – após a desagregação da União Soviética, seguiria o caminho de outros países, como a Polónia, a Hungria ou a Bulgária, que a troco de promessas de investimento só cumpridas muito parcialmente, abdicaram de parte substancial da sua soberania e puseram à disposição da UE, recursos básicos a preço de saldo, e, sobretudo, uma mão de obra barata, com formação e disciplinada, bem ao gosto duma Alemanha, sôfrega, muito (pouco) democrata (e) cristã.

Mas a UE, fiada numa supremacia que cada vez mais lhe escasseia, não se contentou com as cedências que a Ucrânia já lhe tinha feito, algumas das quais muito incomodativas para a vizinha Rússia, e continuou a fazer-lhe exigências desnecessárias e humilhantes como foi o caso do ultimato que lançou para libertar a controversa ex primeira-ministra Júlia Timochenko, acusada e condenada pelos tribunais desse país por abuso de poder. Foi pressão demasiada que, finalmente, fez a Ucrânia perceber que a UE pouco oferecia em contrapartida do que exigia e o que tinha em vista era mais por em causa o seu relacionamento com a Federação Russa do que estabelecer um acordo de livre comércio. E fez o que a UE nunca admitiu que fosse possível fazer: bateu com a porta e recusou a sua “ajuda”.

O choque foi grande a ponto das chancelarias do eixo franco-germânico e seus aliados próximos estarem agora a rever – parece com carater de urgência – toda a estratégia do já há muito planeado “cerco” à Federação Russa… Esta reação destrambelhada, mostra afinal que a UE tem um comportamento de tigre de papel, como aliás já tinha ficado demonstrado com o volte face que se seguiu ao ultimato feito à Síria na “crise das armas químicas”. Na altura, surpreendentemente, a Rússia propôs o desmantelamento do arsenal químico da Síria, o que foi aceite (com alívio) pelos EUA. E logo o balofo presidente francês e o presunçoso “premier” britânico – atuais mastins da UE – engoliram a farronca e viraram a agulha para a “ameaça” nuclear iraniana. Uma clara manifestação de fragilidade, típica de tigres de papel.

Se de facto a UE não passar do tigre de papel que evidencia ser, então os chamados países periféricos do sul, persistentemente subalternizados e humilhados pelo seu núcleo duro franco-germânico, têm ao seu dispor uma carta de alforria que poderão jogar a qualquer momento. Mas é preciso que reúnam duas condições: a primeira que se livrem dos “gauleiter’s” que exercem atualmente o poder nos seus países antes que eles desmantelem por completo a soberania que lhes resta. A segunda, que os novos governos sejam hábeis e firmes no manejo dessa carta. Trata-se de negociar condições – não já de resgates de dívidas soberanas ou de qualquer outro tipo de assistência -, mas da permanência na zona Euro. A UE, e particularmente a zona Euro, é, pelo menos formalmente, um espaço de solidariedade institucional. É precisamente essa solidariedade que deve haver coragem de exigir. É pouco provável que a Alemanha – e não só – esteja interessada em arriscar o insucesso do Euro… Quem pega nesta deixa?

Daniel D. Dias

Cuspir no chão

 

Um dia, há muitos anos, numa humilde taberna na província, vi um letreiro que pedia aos clientes para não cuspirem no chão, um hábito que se diz ser bem português. O letreiro chamou-me à atenção porque estava cheio de erros ortográficos, caricatos, mas percebia-se muito bem o que dizia. Perguntei à taberneira se o anúncio tinha resultado, se os frequentadores tinham deixado de cuspir no chão. Respondeu-me que sim PORQUE TINHAM SIDO ELES PRÓPRIOS A TER A INICIATIVA de fazer o anúncio. “Se fosse alguém de fora – como já tinha acontecido antes -, não teria resultado” – esclareceu a taberneira.

Nunca mais esqueci esta grande lição de pedagogia. As pessoas só mudam de hábitos se essa mudança for desejada, voluntária, induzida de dentro para fora. Doutra forma reagem e persistem em manter os seus hábitos, por mais arcaicos que sejam. E isto também se passa com os povos. Nenhum gosta que sejam os de fora a impor-lhe os seus costumes. Agradecem que os ensinem mas rejeitam que os obriguem a aprender.

Daniel D. Dias