Fábula

 

O redil está preparado, os maiorais estão por aí, cantando, assobiando, para encantar o rebanho. As ovelhas seguem tosquiadas, a tiritar, mas balem conformadas: Agora, há menos invejas, fazem parte dum rebanho maior, magricela é certo, mas onde há sempre alguma ovelha disponível para ouvir balidos inconformados. “Qualquer dia… qualquer dia…” Alertam alguns ovinos, que fazem questão de salvaguardar a esperança. E de facto muitos continuam sonhando com pastagem viçosas onde a erva fresca nunca falta. Porém continuam retouçando cardais, dia para dia mais tísicos, ao som do chocalhar de baladas pastorais de tempos bíblicos.

O rebanho está cansado, farto de balir em vão. Resigna-se: Sempre foi assim. Os maiorais acabam sempre dominando. Há que aguentar. Mas, na sua inconformidade, vai-se consolando com pequenas coisas – tricas do quotidiano, rezas, lendas de ovelhas que venceram o pastor tirano, mitos do pastor amigo, ovelhas ronhosas que minam o rebanho… Como sempre fez aliás: É preciso ter esperança pois que não há fome que não dê em fartura. E há por aí muito rebanho a passar pior que o nosso…

Os pastores atuais são sábios. Discípulos de Skinner e Bernays sabem que o segredo está na modulação. Ovino, rato ou humano, todos são condicionáveis, susceptíveis de domesticar. No caso do bicho humano não há complicação de maior: Basta que se lhe alimentem as fantasias e que nunca se deixe contaminar pelo silêncio próprio da sua mente. Este silêncio próprio – que é o que permite pensar por si mesmo – constitui a peste mais nociva. Equivalente à “peste suína”, nos porcinos, ou à “doença das vacas loucas”, nos bovinos.

Mas os pastores confiam na sua técnica: sabem que enquanto alimentarem o ruído na cabeça das suas ovelhas elas permanecerão disponíveis para obedecer e os efeitos dessa peste serão mínimos e passageiros. Mesmo que se revoltem, mesmo que fujam, acabarão por regressar ao redil por si só. Foram habituadas de pequenas a seguir chocalhos, identificam-se como ovelhas, têm roupagem, hábitos, nomes, tradições, chips, de ovelha. Como podem conceber um mundo sem redis, que não seja dominado por pastores?

Daniel D. Dias

Desfazendo dúvidas

 

Sócrates é o álibi perfeito para a espúria confluência política que instalou no poder esta maioria que veio destruir, sabe-se lá por quantos anos, a economia portuguesa. Por isso deve continuar a ser atacado para justificar a escabrosa ação desta maioria  da qual o povo português está ainda longe de se ver livre. Quem estiver atento facilmente perceberá que está em marcha em toda a Comunicação Social um plano de reabilitação das políticas desta governação que ainda não desistiu dos seus intentos. O ressurgimento da projetada privatização da TAP mostra que esta seita que “governa” o país ainda não desistiu e que até está a ganhar novo fôlego. Por isso continua a ser necessário denegrir Sócrates seja de que forma for, e mentir, afirmando que há crescimento, que há sinais de retoma, etc. Pudera: quando se atingem níveis históricos de miserabilismo, qualquer cêntimo encontrado no fundo do bolso, qualquer alface que nasça no quintal semeada pelo vento, podem influenciar o crescimento do PIB…

 

Mas agora já só continua iludido quem quiser continuar. Através da retardada e provavelmente cénica comissão nomeada pelo Parlamento Europeu “para investigar a acção da ‘troika’ nos países resgatados”, ficam a saber-se coisas que esclarecem quaisquer dúvidas que restem sobre a génese da atual situação.  O comissário Olli Rehn, por exemplo, esta segunda feira, negou perentoriamente que os cortes nas pensões e as privatizações da EDP e da REN tivessem sido impostos pelos credores internacionais a Portugal e imputou  essas decisões à exclusiva iniciativa e responsabilidade do atual governo http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=QYQ4HwQDJ9w. Na terça feira o  antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, também defendeu que “se Portugal e a Grécia tivessem cumprido as recomendações feitas no Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) teriam evitado muitos problemas, nomeadamente os programas de regaste”  http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=24&did=135669#.UtW2slVv7iE.facebook.  Naturalmente Trichet referia-se ao célebre PEC IV de 2011, cujas metas então acordadas com a Comissão, pedia que fossem confirmadas (pelo parlamento) http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/trichet_eacute_essencial_que_portugal_confirme_metas_do_pec.html.  Como é sabido o PEC IV ao ser chumbado pela histórica confluência do PSD, CDS, BE e PCP, fez cair o anterior executivo criando condições para a ascensão ao poder da atual maioria.

 

E assim se vai, paulatinamente, descobrindo a verdade e desfazendo dúvidas. (Vale a pena ler/ouvir com atenção os depoimentos referidos). Mas, ainda assim, restarão sempre duas:

 

Quando termina esta desgovernança e como vão ser corrigidas as sequelas que vamos herdar;  o que  terá entretanto  aprendido o povo nesta provação.

 Daniel D. Dias

O espetáculo não pode parar…

 

É apenas uma impressão, nada de muito fundamentado, mas estou com o pressentimento de que está em preparação uma mudança de ciclo em termos europeus porventura com pretensões de influenciar o mundo. Os juros baixam por todo o lado, o desemprego desce, o crescimento económico é revisto em alta, as agências de “rating” desvanecem-se em prognósticos favoráveis e elogios, arrumam-se acordos à pressão, ensaiam-se “transparências” inesperadas, anunciam-se indicadores positivos à fartazana… Sintomático é também as liliputianas figuras do microcosmo português, se agitarem, se esticarem nas pontas dos pés e perorarem intermináveis loas bacocas que encontram eco nos nossos prestimosos “me(r)dia” … 

Ou muito me engano ou já está em preparação um primeiro teste dessa mudança: As eleições europeias de maio próximo. O espetáculo não pode parar mas é preciso afastar uma previsível pateada monumental. Para começar tratar-se-á duma mudança de cenário e adereços, com retoques nas falas, nada de grande coisa. Entrarão em cena, claro está, alguns novos atores para refrescar o espetáculo. Tratar-se-á duma mudança para não mudar nada, ou, dito de outra forma, duma mudança que assegure que o essencial não mudará.

 

Já lá dizia Lampedusa: “Para que as coisas fiquem iguais é preciso que tudo mude”. Cá por mim vou tratar de reservar um lugar. Receio que a lotação se esgote.

 

Daniel D. Dias

O “do” de Eusébio

 

O conceito de “do” universalmente presente na cultura japonesa por influência da tradição budista veiculada da antiga Índia, via China, ajuda, em meu entender, a perceber melhor o sentido da vida das pessoas. No ocidente tem proliferado a ideia de “carreira” com conotação semelhante à de “do” mas “carreira” fica muito aquém da riqueza semântica de “do”.

“Do” – literalmente “caminho”, “via” – tem pressuposto uma determinada ordem cósmica que encerra o sentido de todas as coisas e que está acessível a todos os seres através dele. Mas onde encontrar esse “caminho”? A resposta é: em todo lado, em qualquer coisa. A figura do círculo que em qualquer ponto se pode começar a percorrer, é a representação mais paradigmática que conheço.

Há caminhos mais burilados para procurar a harmonia com essa ordem cósmica, criados e trabalhados por mestres, famosos ou anónimos, ao longo de gerações. São famosas as chamadas artes marciais, todas elas contendo a partícula “do” no seu nome: KarateDO, juDO, AikiDO, mas também o ChaDO (“cerimónia do chá” ou “caminho do chá”) BushiDO (“o caminho do guerreiro”) Ikebana ou KaDO (“arranjo de flores” ou “caminho das flores”)…

A ideia fundamental a reter é a de que qualquer atividade – artística, científica, profissional, desportiva -, pode constituir um “do”. Claro que também pode constituir uma “carreira” mas a ideia de carreira não tem implícita a ideia de abranger o cosmos, de atingir o auto conhecimento, de ganhar o “dom de si” que trilhar um “do” pressupõe.

Vem este preâmbulo a propósito de Eusébio que acaba de nos deixar. Para mim ele é a demonstração perfeita de que o futebol e a sua prática, podem também ser uma via de aperfeiçoamento, de superação das nossas insuficiências, uma forma de integração nesse enigmático universo onde navega a humanidade.

Claro que o futebol pode ser uma feira de vaidades, uma carreira que enriquece alguns, um espetáculo que pode ter contornos alienantes que alguns aproveitam. Mas também pode ser um campo de virtudes e um método de aperfeiçoamento. Em rigor: também pode ser um “do” – um “futebolDO”. E, para que não haja dúvidas, mestre Eusébio – prefiro mestre a rei – está aí, com o seu exemplo de vida e de grande artista que foi.

Em sua memória deixo aqui este Haikai de Sigrid Spolzino que me parece apropriado ao momento

“Folhas caindo

lágrimas de inverno

temporárias”

Daniel D. Dias

Será desta?

 

Se o conhecimento fosse uma tendência genética, considerando os anos que a escrita tem de inventada, e já teríamos assistido a um ou outro ser humano nascer com os dedos transformados em aparos ou pincéis.

Mas não é isso que acontece. Pelo contrário, sabe-se que ainda vão nascendo alguns humanos com resquícios de cauda comprovando assim que ainda nos rondam atavismos simiescos. Todavia a maioria de nós – mesmo os mais pessimistas – está convicta de que o conhecimento, a cultura, a curiosidade intelectual, a cidadania, a solidariedade, são valores humanos adquiridos, que não retrocedem apesar das dificuldades que enfrentamos.

Mas não retrocederão mesmo?

Quando ouço cidadãos respeitáveis manifestarem o desejo de reimplantar a jorna – trabalho pago ao dia, para quem não sabe -, a fim de resolver os problemas de produtividade (a malta não quer é trabalhar, não é verdade?);

– quando vejo aceitar sem relutância o retorno à ideia de responder aos problemas sociais básicos através do assistencialismo medieval assente na caridade;

– quando assisto à interminável explicação de que OS MERCADOS são o “leitmotiv” de tudo – qual força da natureza ou divina providência -, fazendo crer que por detrás deles não há ninguém com quem se possa  falar a não ser para concordar e receber ordens;

– quando ouço anunciar a todo o momento, apelos, promessas, lutas, por uma sociedade MAIS justa… (Que diabo: a ideia duma sociedade humana, simplesmente, justa – sem o “mais” – é assim tão inviável?);

– quando vejo o povo, mais enfraquecido, mais incapaz de trabalhar em comum, mais dependente de carismas, mais carente de lideranças fortes, menos confiante e sem iniciativa;

– quando constato que os divertimentos preferidos dos mais carenciados e fracos são as peripécias da vida dos que vivem à sua conta e se dedicam a explorar a sua fraqueza;

– quando assisto ao renascimento de nacionalismos, xenofobias, práticas racistas, ideias que julgava extintas entre nós…

Fico na dúvida.

O retrocesso não será genético – também e felizmente – mas sei que não é inevitável. Esse é o problema e a história comprova-o. Apesar de tudo, teimo em acreditar que estas manifestações de retrocesso a que assistimos, são coisas temporárias, algo como uma tempestade, ou peste, que vão passar. Prefiro acreditar que as reservas de saúde e de bom senso, são superiores às manifestações de mediocridade e de doença que assolam a sociedade atual.

Por isso, vou intervindo menos, reservando-me para melhores dias, esperando sinais promissores… Será que é este ano que a malta acorda? Será desta?

Daniel D. Dias