Almofadas…(Pensando alto)

 

O governo português vai aos mercados, não porque seja necessário, mas porque prepara uma “almofada financeira” http://www.dinheirovivo.pt/Mercados/Artigo/CIECO312627.html . Para que serve esta almofada financeira? Para mostrar que houve crescimento económico, para mostrar que os sacrifícios da austeridade eram precisos e que valeram a pena, e, sobretudo, para ganhar as próximas eleições. Este êxito do MEPEC (milagre económico português em curso) terá obviamente custos e acarretará mais austeridade http://www.jornaldenegocios.pt/mercados/taxas_de_juro___credito/detalhe/encargo_com_juros_tem_de_ser_pago_com_mais_austeridade.html . Um breve cálculo com base numa média de 4,5% – abaixo do que está a ser praticado -, aponta para um encargo de 850 milhões de Euros anuais (mais de 70 milhões de Euros mensais) só em juros! http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=99357. Desta feita o endividamento já não constitui problema.

À cautela a austeridade – a que vem de trás e a que vai ser produzida por este novo endividamento -, já está a ser postergada para 2016 ou 2017, criando assim condições para que esta comissão liquidatária renove a confiança dos eleitores lusos…

Não me admirava nada que nos próximos tempos comecem a surgir alguns sinais concretos de “desafogo” económico cuja fatura será paga – com língua de palmo – daqui a dois anos. O povo, embalado pela experiente comunicação social que o serve (não é ironia: essa malta dos “media” sabe mesmo o que faz), cansado de controvérsias políticas, farto de perder batalhas quase, quase, ganhas, esquecer-se-á de tudo, assistirá com expectativa à prestação da seleção nacional na copa do mundo (se ganhamos a copa estamos feitos e estes tipos nunca mais se irão embora!) e, uma vez mais, não fará contas. (Para esse efeito, já tem a DECO, o Medina Carreira, o César das Neves, o Camilo Lourenço… Para quê gastar as meninges?) E, naturalmente, dará de novo o seu voto a esta cambada, esquecido já do seu sofrimento, ignorando a sua indignação, resignado, adaptado já à sua nova condição…

Estes membros da comissão liquidatária parecem incompetentes, estúpidos, mas não são. É tudo estratégia: eles não trabalham sem rede. Tudo isto já vem sendo preparado há algum tempo em sintonia com a camarilha que há anos controla a Europa. Não seria de admirar que a curto prazo estes mandantes apátridas tomassem a iniciativa de alargar os cordões à bolsa para assegurar a sua manutenção no poder. São várias as vozes por essa Europa que já se levantam mostrando descontentamento, não pelos efeitos que estão a causar às populações, bem entendido, mas por recearem as consequências de terem ido longe de mais com esta sua política de empobrecimento forçado http://www.presseurop.eu/pt/content/press-review/3416481-austeridade-mergulha-europa-na-recessao . Já se fala até na possibilidade de perdões de dívida, à Grécia e provavelmente a Portugal http://expresso.sapo.pt/perdao-da-divida-grega-em-2015=f769462.

É bem provável que esta Europa de banqueiros retome durante uns tempos e muito condicionalmente – só o estritamente necessário para consolidar a sua liderança – a sua fachada socializante para que a galinha dos ovos de ouro não lhe fuja das mãos. As próximas eleições europeias que não auguram grande coisa, a situação da Ucrânia que pode a qualquer momento ficar descontrolada, contagiando a vizinhança e irritando o fornecer de gás russo, (recorde-se que a EU tem apostado forte nesse país, prometendo lá o que nega aos seus súbditos), a recente “traição” da leal Suíça, os puxões de orelhas do amigo americano, tudo isto mais o generalizado descontentamento e os resultados dos especuladores abaixo das expectativas, apontam nessa direção.

Isto tudo, claro, é mera especulação minha e espero vivamente estar enganado. Mas há sinais que me deixam preocupado: Não é sintomático que esteja agendado o início dos descontos aos reformados e pensionistas, anunciados no OE, para depois das eleições europeias? Ainda por cima são descarados…

Daniel D. Dias

Felicidade

 

Felicidade é sentir-se bem? É gostar de viver? É amar e/ou ser amado? É ter objetivos na vida? É ter uma carreira (seja lá o que isso for)? A felicidade tem níveis (grande, pequena, assim, assim)? Duvido. Os gatos vadios que agora me invadem o quintal, passam fome, frio, lutam uns com os outros, amam-se, adoecem e julgo que também morrem. Serão felizes? Serão infelizes? Quando têm sol deitam-se e apanham-no, visivelmente deliciados. Numa qualquer cama, improvisada, dormem descontraídos. Quando comem algo, mesmo duvidoso, parece que o fazem com apetite, sem hesitação. Zangam-se mas também brincam. Não sei se são felizes, mas apostava que também não são infelizes. Em que são diferentes de mim? Por exemplo, nada comparam, aproveitam tudo o que tem utilidade imediata e nada guardam. Não pensam no dia de ontem e não receiam o de amanhã. Têm memória mas não são escravos dela nem têm ressentimentos. A memória para eles não passa dum instrumento, como os dentes, as unhas ou o olfato.

Bem, tudo isto é uma especulação minha, dum viciado em pensamentos. Mas os gatos sugerem-me que a felicidade – conceito que nós, humanos, temos sempre presente e nos preocupa tanto que até já se ter tornou disciplina científica – talvez seja um estado de indiferença a essa coisa de ser feliz ou infeliz…

(Não confundir felicidade com prazer, ou infelicidade com sofrimento. Há prazer e sofrimento que aparentemente não geram infelicidade e vice-versa. Quando agimos plenamente, quando amamos, pelejamos, construímos, destruímos, corremos, jogamos, não questionamos se somos felizes ou infelizes. Não temos tempo para isso. Só quando paramos, nos abrigamos ou procuramos refúgio, nos sentimos infelizes. Raramente, nessa circunstância, nos dizemos felizes. A felicidade, então, é algo que fica sempre lá para trás, num passado a maioria das vezes difuso…)

Essa coisa da felicidade é pois tramada, difícil de definir. Existirá? Quando se fala dela, já passou ou pura e simplesmente percebeu-se que, afinal, nunca existiu. Viver sem medo, tranquilamente, gostar de alguém, ser amado, sentir-se útil, não padecer de dores físicas e morais, não sofrer privações, dará prazer, será agradável. Mas será suficiente para gerar felicidade? O facto corrente de gente com tudo isso, com sucesso invejável, suicidar-se, parece mostrar o contrário.

Provisoriamente admito que a felicidade talvez exista, mas como “tendência para um limite”, como uma aspiração que incha ou emagrece ao sabor das contingências sempre variadas das nossas vidas. Ao fim e ao cabo talvez só sejamos verdadeiramente felizes quando não damos por isso.

Daniel D. Dias

Descuidos

 

Quando há problemas (nos) intestinos é quase certo que, mais tarde ou mais cedo, surgirão descuidos denunciadores.

Foi o caso de António José Seguro, ontem. De manhã, na AR, o primeiro ministro elogiou o PS pela colaboração com o Governo na preparação do acordo sobre a aplicação dos fundos europeus para o período 2014-2020, congratulando-se com o facto de “o Governo e o maior partido da oposição, apesar das divergências que possam ter, tenham podido colaborar de forma tão próxima”. Ora Seguro que não se cansa de afirmar que se recusa a colaborar com o atual governo e que garante nunca desenvolver negociações que não sejam transparentes e do conhecimento público, não contestou estas afirmações. Contorceu-se, é certo, mas acabou por deixar um fedor de incómodo comprometimento a pairar no hemiciclo http://noticias.pt.msn.com/ps-colaborou-de-forma-pr%C3%B3xima-com-o-governo-sobre-fundos-europeus-%E2%80%93-passos-coelho.

Mas logo a seguir, no “Clube da Alameda”, em jeito de pré campanha eleitoral, afirmou que “os últimos quatro governos prometeram todos que não aumentavam impostos e quando chegaram ao governo aumentaram esses impostos”. Manifestou assim, de forma descarada, aquilo que há muito disfarçava: a quebra de lealdade com o seu próprio partido e em particular com a última governação socialista que – é bom não esquecer – é o álibi supremo desta corja que tomou o poder. http://noticias.pt.msn.com/seguro-critica-governos-do-ps-e-psd-por-incumprimento-de-promessas-eleitorais. Desta vez o fedor foi tão inequívoco que se sentiu por todo o país. Só lhe faltou mesmo o ruído peculiar para merecer o habitual epíteto…

Não sei se Seguro tem na mira agradar ao eleitorado descontente ou se é movido pela sub-reptícia convicção de que, afinal, os portugueses têm vivido a cima das suas possibilidades e que, não sendo simpática embora, a atual maioria está no caminho certo e faz o inevitável, o que tem de ser feito. Será por isso que nada promete? Ou será que – pura e simplesmente – nada tem para prometer?

Uma coisa parece certa: se os militantes do PS não se puserem a pau, Seguro fará ao PS o que Passos tem feito ao país.

Daniel D. Dias