Dúvida

 

 

Alguém me explica para que serve a moção de censura anunciada pelo PCP -, que conta já com o voto favorável do PS de Seguro (mesmo sem conhecer o texto) -, sabendo-se de antemão que vai ser reprovada  no parlamento dominado pela “maioria” PSD/CDS?  Será para facilitar a vida ao inefável presidente Cavaco? Com uma moção de censura (garantidamente) rejeitada como pode a criatura ir contra a vontade maioritária do parlamento e convocar eleições antecipadas?

Há coisas que não entendo mesmo: Afinal a oposição quer ou não quer eleições antecipadas?

 

Daniel D. Dias

Rotina

 

 

Levanto-me e faço

nada pergunto senão quando quero saber

e só quero saber

quando tenho de acertar

algo que partilho com os outros

 

não olho para vestígios do passado

o passado só me serve

quando quero saber de onde vim

para entender o que me falta para chegar

mas não tenho pressa de chegar a nenhum lado

 

não me vejo ao espelho

porque esse é um gesto inútil

estou aqui por dentro de mim e sei-o bem

os que me vêm sabem como pareço

e eu nunca serei capaz de ver-me pelos seus olhos

 

quando me canso, paro,

brinco então, jogo, embriago-me, saboreio, venho-me,

depois deito-me e mergulho na escuridão,

adormeço

nem sombra de memória, nenhum sonho

repouso nos ternos braços da morte

 

Daniel D. Dias

Mais uma denúncia

 

Confirmando o que já era sabido – que a crise das dívidas soberanas era antes uma crise dos bancos e da sua vocação para a especulação e ganância – Philippe Legrain, que foi conselheiro económico de Durão Barroso, revela um pouco mais sobre esta crise numa entrevista dada ao Público   http://www.publico.pt/economia/noticia/ajudas-a-portugal-e-grecia-foram-resgates-aos-bancos-alemaes-1635405.  É uma clara denúncia  da falsidade da afirmação de que temos vivido acima das nossas possibilidades e uma demonstração, insuspeita, da grande hipocrisia dos que agora defendem que salvaram o país da bancarrota:

“As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa.”

E explica:

“…os Governos puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos. Por várias razões. Em alguns casos, porque os Governos identificam os bancos como campeões nacionais bons para os países. Em outros casos tem a ver com ligações financeiras. Muitos políticos seniores ou trabalharam para bancos antes, ou esperam trabalhar para bancos depois. Há uma relação quase corrupta entre bancos e políticos.” 

A não perder.

Daniel D. Dias

Maré de poetas

 

Agora entendo os poetas

que são afinal os poetas de sempre –

gente que se atreve a olhar o real

esse real quotidiano, sem importância,

quase sempre trivial

que está por ai, displicente

sem pose, nem espectativa

a moldar as nossas vidas

 

por aí,

no labirinto das ruas,

povoadas ou sinistramente vazias

nos cantos obscuros das gavetas desarrumadas

na pulp fiction dos quiosques decadentes

no cartão debutado esquecido no bolso

na imagem desfocada da memória

desse quase momento

no rímel escorrido na deceção da noite…

 

por aí,

nesse mundo que ainda vibra lá fora,

vivo e brilhante

por vezes claro e até sorridente

mas que se gasta e agasta

na poeira do egoísmo cinzento

e se afunda na grande vala comum

que a humanidade

esgravata para si própria

 

Sim, poetas,

qualquer um o pode ser

desde que tenha a verve suficiente

e que não a deixe amarrada

a ditos de chiste,

a cânones e bibliotecas

ou a qualquer pedaço de mármore

desses que enfeitam jardins

 

qualquer um

desses que não tentam ser espontâneos

quando lhe pesam mais

os conceitos empolgantes

que a vontade indómita, subversiva

de espreitar pelo buraco da fechadura

 

poetas, sim,

gente de insights inesperados

observadora de devaneios improváveis

de assincronismos ilógicos

que reage, alegre, triste,

ou que não reage,

mas que sempre vive tudo, com surpresa

que se apercebe sempre da nudez do rei

 

 

Agora reparo

que há multidões desses poetas por aí,

que vagueiam incógnitos,

incógnitos até de si próprios

 

alguns atrevem-se e revelam-se,

rebelam-se,

mas a maioria segue,

vagueia insegura, hesitante,

analfabeta ou lunaticamente erudita

desajustada, incompreendida

mas sempre, sempre

sequiosa  por realidade

pornograficamente obcecada pela verdade

 

essa maré de poetas que vive por aí

improvisando a vida

distorcendo a sua natureza

desbaratando o seu talento

nas obras do poder pastiche dos que mandam no mundo

se vencesse a sua inércia

se acordasse do seu torpor

se não gastasse a sua energia

a dourar a vida miserável

que rói os nossos dias

 

poderia num ápice

derrubar os mitos que nos amarram

e reinventar este mundo onde tudo está pronto para ser reinventado

e salvar-nos da ameaça que constituímos para nós próprios

 

ah, se acordassem os poetas que vivem entre nós

se a letargia que os tolhe cessasse por um tempo

o mundo tornar-se-ia num lar, senão seguro, pelo menos habitável  

e felicidade deixaria de ser o nome duma mera expectativa

 

Daniel D. Dias

Helicópteros

 

O desmantelamento da Jugoslávia começou em 1991, na Eslovénia, com o derrube de dois helicópteros da força aérea jugoslava pelos separatistas eslovenos que recebiam apoio e eram incentivados na sua ação pela Alemanha democrata cristã (CDU) do Chanceler Helmut Kohl. Tudo isso ocorreu apesar do compromisso formal da Comunidade Europeia e dos EUA de preservarem a unidade da República Federativa da Jugoslávia, pós Tito.

A independência da Eslovénia ocorreu pouco tempo depois deste incidente e foi prontamente reconhecida (1992) pelos EUA e CE. Inevitavelmente, como um castelo de cartas, a esta independência, seguiu-se a mais sangrenta guerra ocorrida na Europa depois da II Guerra Mundial que matou mais de 250 mil pessoas. A Jugoslávia, dos partisans, que se libertou do nazismo pelos seus próprios meios, que bateu o pé a Stalin, foi assim riscada do mapa em pouco tempo.

Ontem, 1 de maio de 2014, no leste da Ucrânia “separatistas pro Rússia” derrubaram também dois helicópteros da força aérea ucraniana. Que consequências vão ter estes atos, ainda não se sabe, mas não parece que augurem nada de bom. Porém, desta vez, a Alemanha democrata cristã, agora da Chanceler Merkel, parece não estar de acordo nem apoiar.

Conclusão: Em matéria de desmantelamento de países, para a EU e EUA, parece haver separatismos bons e separatismos maus…

Daniel D. Dias