Outono

I

debaixo duma folha de plátano
surge um mourão decidido

caminha depressa:
talvez esse melro não lhe inspire confiança,
ou será que ouviu falar no outono?

II

a nuvem negra
aliviou-se ali mesmo e tudo inundou

outono – avisou o velho

mas a nuvem pareceu indiferente

Daniel D. Dias

Benefício da dúvida

Vivemos um tempo espantoso, de imensa criatividade, de descomunal conhecimento. Podemos afirmar, sem margem para erro, que 99,999999% dos sábios da história da humanidade -, desde a pré-história mais remota, aos luminosos dias de hoje, da Antiguidade Clássica, à Idade Moderna, do tempo de Aristóteles ao tempo de Galileu, – estão todos vivos! Não é fantástico sermos contemporâneos da esmagadora maioria dos sábios de todos os tempos?

Esta constatação torna desconcertante saber que apenas uma pequena parte deste enorme potencial tenha vindo a ser usado para resolver os problemas humanos. Seria espectável que tanto conhecimento acumulado, da natureza e do próprio ser humano, fosse prioritariamente aplicado no combate às doenças, na compreensão e melhoria das relações entre pessoas e povos, e, duma forma geral na busca da felicidade.

Mas não. O melhor da ciência, é, antes de mais, aplicado na capacidade de nos matarmos uns aos outros; o maior conhecimento que adquirimos do nosso notável cérebro, é, de imediato, aplicado em técnicas de vendas e no exercício de nos enganarmos uns aos outros.

Dá vontade de concluir que a inteligência é diretamente proporcional à estupidez, mas não quero acreditar nisso. Prefiro conceder o benefício da dúvida e pensar que o conhecimento acumulado ainda não se tornou sabedoria, ou que ainda pensamos muito com a cabeça e pouco com o coração.

Daniel D. Dias