Na penumbra do outono

 
 
Na penumbra do outono
vagueio e sem dar por isso
mergulho nesse caos primordial
em que os verbos ainda não foram pronunciados
 
e sinto que nesse caos poderei vislumbrar
a essência da verdade e da beleza
pois tudo aí reside:
palavras que acalentam como sussurros de mães
palavras que explicam como lanternas na escuridão
palavras que acordam como trovões;
enfim, todos os verbos inculcados na alvorada
que alimentam e orientam todas as caminhadas
e que mesmo gastos, ou esquecidos
sobrevivem, incólumes, e anoitecem connosco
 
sinto tudo isso, e caminho a passos largos,
mas nada penso
nem sequer dou conta disso
 
 
Na penumbra do outono
nesse amplo caos amniótico
vejo o musgo a dominar as pedras
ervas humildes a irromper
em lugares improváveis
aranhas tecendo no vazio intricadas teias
aves que regressam ou que partem
e trocam sinfonias entre si
gente acantonada em cálidos cafés
vozeirando sons de irrelevante sentido
a vida preparando novos recomeços
ou derradeiras partidas…
 
e vejo mais para além disso:
vejo o mundo inteiro
– complexo, industrioso, agitado –
sem precisar de julgar, admirar, comparar
 
 
Na penumbra do outono
neste inesperado caos primordial
sinto a harmonia em tudo presente,
não preciso de procurar coerência
pois posso vê-la, tocar-lhe
e tudo acolho e abraço.
e penso: isto é a beleza!
mas logo me apercebo que a beleza
é sentir que faço parte de tudo isto,
que posso compreendo tudo isto
sem nada compreender
 
Nesta penumbra do outono,
faz-se luz e a alegria irrompe
discreta, serena, mas tangível.
(será mesmo alegria?
como pode ser alegria
se estou triste,
irremediavelmente zangado com o mundo?)
pouco importa o nome:
trata-se duma suavidade indefinível
a confortar a garganta,
duma sensação de pertença, evanescente
avassaladora, total,
a preencher todo o corpo
 
 
ah, agora entendo essa coisa da pertença
de como é bom fazer parte
(é algo que mal se dá conta mas que arrepia a pele)
de FAZER PARTE, ouviram?
 
Afinal isso é o amor:
o amor é fazer parte!
 
 
Na penumbra do outono
num vislumbre momentâneo
do aleatório e equívoco caos primordial
acabo afinal por descobrir uma vez mais o amor
– é sempre pela primeira vez que se descobre o amor –
o simbiótico, autêntico e genuíno amor.
 
fascino-me, inebrio-me – uma vez mais também –
será a última?
mas não me detenho:
prossigo a caminhada
e regresso de novo ao ardiloso mundo das palavras
 
Daniel D. Dias

“Deus escreve esquerdo por linhas direitas”

Um amigo meu, já falecido, proferia com frequência esta curiosa frase face às controvérsias da vida política a que assistia: “Esperai que Deus escreve esquerdo por linhas direitas”. Queria ele dizer com isto que os projetos políticos da chamada esquerda, muito comprometidos com ideais exigentes e com frequência de difícil concretização, eram frequentemente viabilizados por erros da direita.

A direita, como se sabe, tem uma vantagem prática sobre a esquerda: nunca perde de vista os seus objetivos – o pote – e é capaz de tudo para lá chegar. Até de disfarçar-se de adepta furiosa dos tradicionais ideais de esquerda. A direita (a dos interesses) que é propositadamente confundida com a direita conservadora – os tradicionalistas, os avessos às mudanças – só tem em rigor esta vantagem relativamente à esquerda, termo que surgiu na Revolução Francesa em resultado da posição que os adeptos da mudança e do progresso ocuparam, por mero acaso, nos Estados Gerais, em 1789. A Nobreza e o Clero posicionaram-se à direita do rei, enquanto o “Terceiro Estado”, os representantes do povo e burguesia, se sentaram à esquerda.

Desde aí a ideia de esquerda – mais até que a de direita – ficou e tem sido interpretada de diversas formas. Todavia os conceitos básicos a que está ligada, por tradição, são os do progresso, da liberdade, da igualdade e da justiça social. A direita geralmente apresenta-se como defensora das tradições, dos ideais históricos, do conservadorismo, mas sabemos que isso, salvo raras e honrosas exceções, é um disfarce para o seu objetivo principal: apropriar-se do pote que a sociedade na sua labuta constitui.

Se as coisas fossem lineares, se não houvesse tanta confusão deliberada ou resultante da ignorância, se a ideologia dominante – modas, hábitos, formas de pensar – não fosse quase sempre a da classe que detém o poder, a esmagadora maioria do povo identificar-se-ia, naturalmente, com os ideais de esquerda. Se a direita ocupa o espaço que ocupa, se por vezes é maioritária, é porque reina muita confusão na sociedade. Ser a favor do progresso, da igualdade e da justiça social é sempre mais difícil do que ser a favor de privilégios:  pressupõe educação cívica, abnegação e até coragem.  Para a defesa de interesses egoístas pouco é preciso saber: basta não perder de vista o cobiçado pote.

É por isso que os caminhos da esquerda são difíceis de trilhar. A história parece dar preferência às lógicas simplistas da direita. Mas nem sempre é assim: A ganância ou cegueira da direita é por vezes tão estúpida que faz acordar a esquerda do seu torpor. Ou seja: a direita cria as condições objetivas para abrir caminhos à esquerda. Já aconteceu muitas vezes. “Deus escreve esquerdo por linhas direitas” é o que quer dizer.

Quem sabe se não é o que está a acontecer, agora, entre nós…

Daniel D. Dias

No começar é que está o ganho

 
Se ser de esquerda não for só retórica ou profissão de fé, com estes resultados eleitorais será possível estabelecer uma plataforma de entendimento entre os partidos que se opõem à coligação – por mais pequena que seja -, suficiente para criar uma alternativa de poder. É uma questão de brio patriótico e de sobrevivência o que está em causa. Esta “comissão liquidatária” se não for apeada rapidamente consolidará o seu poder e acabará com Portugal como país livre e independente. Mas é preciso andar depressa antes que a direita do PS, ajudada pelo jornalixo e pela ideologia dominante que transforma gradualmente os portugueses em zombies políticos, se recomponha e derrube Costa. O mais certo é o PS que se seguir – com ou sem Costa, – vir a apoiar a direita. Por mais estranho que pareça, a primeira e mais urgente tarefa que toda a esquerda tem pela frente, é pois, proteger Costa e o PS (que ele ainda representa talvez por pouco tempo mais) de ser engolido pela direita interna do PS. Não riam: é mesmo assim. Façam o favor de ver as coisas com realismo e andar depressa. Convém abster-se de embirrações, guardar as vaidades para mais tarde e avançar nesta direção: Discutir plataformas de entendimento – unificadoras, viáveis, realistas -, discreta mas rapidamente, sempre longe do jornalixo. Se progredirem nesta linha nem que seja um palmo, estou certo que tudo será mais fácil no futuro. O problema está só no começar.
 
Daniel D. Dias

De vitória em vitória até à derrota final?

boia copy

Será assim uma vez mais?

Não sei. Por algum tempo ainda admitirei que seja apenas mais um simulacro estratégico – ou uma trampa, como diriam os nossos companheiros castelhanos – congeminada pelos incansáveis marketeers que controlam os me(r)dia lusitanos. Mas, pelo sim pelo não, preparo-me para engolir mais um sapo, desses que abundam no atávico charco deste reino cadaveroso portuga, que persiste (não se cansa de sebasteanar), apesar das caganças de modernidade que ostenta…

E vou engoli-lo a troco de nada. Como sempre fiz, aliás.

Mas desta vez precavi-me. Desde as últimas eleições percebi que este povo de marinheiros – talvez cansado de tanto navegar em superfícies turbulentas e “mares de cabrões”-, prefere agora a mortal calmaria dos fundos marinhos, povoados, à falta de peixe, por uma frota de inúteis submarinos. E adquiri, obviamente, uma discreta bóia, dessas familiares, para não correr o risco de partir sozinho à deriva por esses mares afora. Claro está: o omeprazol passou também a fazer parte da minha dieta. Porquê esse luxo – perguntam-me -, se deixei de frequentar restaurantes, se passei a ser obsessivamente frugal? Aí têm a resposta: Para prevenir as náuseas dos náufragos e neutralizar a acidez que todo o sapo sempre implica.

Já tinha avisado: o redil há muito está preparado. É só entrar e seguir os maiorais, sem pieguices. E não se atropelem se faz favor!

(Último aviso.)

Daniel D. Dias