Encontro com um anjo (A minha história de Natal)

Se não fossem as asas não acreditava. Mas ali estavam elas, esfiapadas, a sair do casaco surrado. Era mesmo um anjo. Um anjo caído em desgraça não por ter traído a hierarquia mas porque não atingiu as metas impostas pela novo modelo de gestão do criador. O novo modelo era implacável e exigente. Os anjos menos graduados e querubins estagiários, eram pontuados segundo os resultados. A salvação das almas estava agora parametrizada. Havia tempos e objetivos a cumprir. Exigia-se resultados palpáveis, com o mínimo dispêndio de recursos celestiais. Como resultado desta nova orientação, uma chusma de anjos desempregados avolumou-se rapidamente nas zonas mais obscuras dos céus. Alguns desses anjos preteridos, carentes dos divinais afetos, aconchegaram-se ao convívio dos humanos, especialmente daqueles que também se sentiam marginalizados nos domínios seculares.

Foi assim que eu, um descrente obstinado, fiquei inopinadamente à conversa com um anjo andrajoso, descorado, de aura esmaecida, à entrada dum centro comercial.

Vendo-o assim, infeliz, e estando a três dias do Natal – época que eu julgo tocar muito a comunidade angelical -, ocorreu-me logo convidá-lo para beber um copo. Agradeceu mas disse-me que não, que não podia partilhar esses humanos costumes. Bem que gostaria mas a sua natureza angelical não lho permitia. Podia era falar, trocar impressões, confidenciar – ao vivo -, coisa que habitualmente não fazia pois os anjos só comunicam telepaticamente, de modo anónimo, e geralmente só quando os humanos dormem ou estão muito perturbados, próximos da morte ou muito bêbados, por exemplo.

Falámos então um bom bocado. Não precisei de lhe contar a minha vida pois o anjo já a conhecia e melhor do que eu. Trocámos impressões sobre a situação política, sobre o futebol, e acabámos falando sobre conceitos filosóficos: Essas questões do costume – o livre arbítrio, o bem e o mal, os estranhos desígnios divinos, o papel dos cultos… No final, sem chegarmos a conclusões definitivas, mas desabafando muito – o “shopping” estava prestes a fechar – perguntei-lhe se o poderia ajudar nalguma coisa. Disse-me que não, que o seu problema – diferentemente dos meus, dos humanos, sublinhou – se resolveria com o tempo. “O criador nunca pára de fazer inovações mas acaba sempre por se fartar delas. E como (infelizmente) nós os anjos somos eternos – uma espécie de funcionários públicos – voltaremos a estar enquadrados num novo regime. Menos neoliberal, espero. A Thatcher nestas últimas décadas influenciou muito o céu, muito com a ajuda desses novos santos da igreja – o João Paulo e a Madre Teresa.” – Confidenciou-me.

Fiquei aliviado em saber que as perspectivas deste simpático anjo decaído, poderiam demorar uma eternidade a mudar mas que acabariam por mudar. Já da minha vida não poderia dizer o mesmo. O anjo então, que naturalmente lia os meus pensamentos, procurou animar-me. “ Não te fies nas aparências. – Disse incisivo. Tenta ver o que há por de trás de cada aparência e logo descobrirás qual é a solução para cada problema que te aflige”. “Só isso?” – Perguntei-lhe incrédulo. “Só. – Respondeu. E olha que não é pouco nem fácil. A maioria das pessoas não consegue fazê-lo. Porque julgas que se festeja o Natal, o Dia do Namorado, o Entrudo…?” Não esperou pela resposta. “Para glorificar a ilusão e ignorar o que está por de trás das aparências. Para a maioria dos seres humanos, a realidade é o que parece. A injustiça não existe se parecer justa. A infelicidade não será reconhecida se se mostrar sorridente…”

As portas do “shopping” encerravam e o anjo, agora mais corado, despediu-se. “Avé, camarada! Obrigado pela companhia. Até sempre!” Apertou-me levemente a mão, largou o casaco surrado, ali mesmo, adejou por momentos as asas amarfanhadas e logo se lançou ares a fora.

“Até sempre amigo!” – Retorqui.

Vi-o partir, um tanto oscilante, desviando-se dos fios e das parabólicas dos telhados, sumindo-se na viscosa neblina da noite escura. Fiquei a cismar: “Que raio! O anjo não se apresentou e eu nem lhe perguntei o nome. Podia pelo menos ter feito uma “selfie” com ele… Que gaita: mal bebo um copo e nunca me lembro de nada…”

Daniel D. Dias

Algum dia

Algum dia
 
uma calidez terna
dessas de génese ignota
se insinuou em mim sem que desse por ela
e expandiu-se
pela pele, pelos braços, por todo o corpo
como uma suave febre benfazeja
 
e essa devassa mansa
impulsiva
ao menos por um momento
desvaneceu todo o fervilhar das ideias
das ilusões
e avassalou todos os meus desejos…
o meu coração pulsou então como um remoto quasar:
era o universo que me respirava
 
ah, percebi:
há mais vida para lá de mim
essa calidez subtil
esse impulso irracional
é como uma raiz que procura mais vida à sua volta
que busca um ponto para fixar-se e reexistir
e esse ponto
posso ser eu ou podes ser tu
ou pode ser a minha mão na tua mão
ou ainda
os nossos passos trilhando juntos o tortuoso caminho
deste ciclo da eternidade
 
 
Daniel D. Dias