Coisas do meu vizinho – 3 Eleições, esquerda, ideologia e bom senso

O meu vizinho afirma com frequência que “a esquerda política não é o que mostra ser mas o que de facto é”.
Os nossos encontros fugazes nem sempre permitem aprofundar estas questões. Mas agora com as presidenciais, surgiu uma oportunidade para lhe perguntar o que queria dizer com essa estranha afirmação.
– Não entende? – Respondeu-me aparentemente surpreendido. Então não vê que esquerda e direita são coisas diferentes dependendo do ponto de vista? Os nomes pouco significam e podem ser apenas uma camuflagem. Veja o caso do partido NAZI na Alemanha de Hitler. A sigla completa, NSDAP, em alemão, (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei) é composta pelas palavras “Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães”. Conhece alguma coisa que pareça mais de esquerda? “Socialista e dos trabalhadores” e no entanto hoje ninguém duvida que essa organização não só era de direita mas de “extrema direita”, anti trabalhadores e anti socialista. Outro exemplo mais recente: os “Khmers vermelhos” ( militantes do Partido Comunista do Camboja que estabeleceu neste país asiático o chamado “Kampuchea Democrático” – Camboja Democrático). Eram “vermelhos”, democráticos, comunistas (ideologia que se identifica sempre com valores de esquerda), e no entanto perseguiram e mataram milhões de pessoas, em nome do povo… E há muitos outros exemplos.
Pausa. Olhou-me bem nos olhos talvez para ver se o assunto me interessava. E prosseguiu, num claro esforço pedagógico.
-Vamos lá a ver: Todos os partidos, organizações ou personalidades que chegam ao poder, fazem-no utilizando argumentos de esquerda, ou pelo menos, tentando agradar ao povo, que, por natureza, é a própria essência da esquerda. Por isso, para mim, é de esquerda o que é DE FACTO feito com intenção de favorecer o bem do povo – entenda-se, da grande maioria do povo e, sobretudo, daquela parte que mais precisa. Os nomes, as atitudes, as declarações, podem querer dizer alguma coisa, ou muito pouco, é isso que importa sempre ter presente. Claro, há o histórico, de indícios, de práticas, que, bem analisado, raramente engana. Mas esse histórico pode ser apagado, manipulado, deturpado, disfarçado, de forma a parecer outra coisa ou até o seu contrário. Estamos no domínio da ideologia, que engloba a cultura dominante, os hábitos, a arte, a educação e a comunicação. Entende?
Acenei que sim.
– O pobre vive a vida de pobre mas transporta na cabeça a mentalidade da classe dominante, dos privilegiados. Por isso os pobres – mesmo em democracia – elegem quase sempre os seus inimigos de classe. As organizações de esquerda lidam mal com esta realidade. Estão excessivamente preocupadas com lideranças, comunicam mal, são pouco práticas nas suas ações, preocupam-se mais com teorias do que com factos. Depois, não se unem, acenam com miragens e nem sempre cumprem o que prometem. Muitos ficam admirados com este fenómeno (do excesso de abstenção, dos pobres elegerem os ricos, do povo colocar a direita no poder) mas tudo isto, afinal, nada tem a ver com a “estupidez” do povo. Quanto muito tem a ver com a sua ignorância. Sobretudo com a sua ignorância política. Mas no cômputo final a verdade resume-se a isto: quem domina a comunicação e a ideologia dominante – que está presente em tudo: nas distrações, na cultura, nas tradições, nos filmes, nas telenovelas, no futebol – domina tudo… Quem tem dinheiro tem vantagem e a esquerda está em desvantagem porque, habitualmente, abjura, excomunga as técnicas de ganhar dinheiro, em vez de as dominar, de tirar partido delas…
Aqui o meu vizinho fez uma nova pausa, talvez para ver como estava a reagir. Como permaneci impassivo, prosseguiu.
– Percebe agora porque Marcelo foi eleito? – Perguntou com uma ponta de acinte.
Estava atordoado com o seu discurso compacto e assenti sem grande convicção. Pensava noutras razões: no abstencionismo, na falta de argumentos da direita (mas que mesmo assim ganhava…), e também nas divisões e da má campanha da esquerda… Mas o meu vizinho avançava noutra direção.
– Sabe: as pessoas receiam a mudança. Preferem ter uma vida medíocre a mudar. Sabe-se lá se a mudança não será ainda para pior… É o que sentem, é uma reação ancestral. Por isso “o sistema”, o que consideram “normal”, é que domina. As pessoas só mudam em duas circunstâncias: em desespero de causa – quando já não têm nada a perder e são impelidos a lutar (ou a fugir – veja o caso dos refugiados), ou por rutura cultural com o sistema vigente. Se as pessoas perderem o medo de pensar, se deixarem de se refugiar no devaneio, na fuga à realidade com diversões de todos os tipos, se se divertirem, a pensar e com outras diversões que são aquelas que se centram na realidade, que tiram partido dela, que procuram conhecê-la, então podem mudar e escolher outro modo de vida, mais humano, mais sustentável, mais seguro. Sem esforço de maior e até sendo mais felizes.
Pareceu-me tudo isso uma enorme miragem.
– Então não há esperança, não é? – Balbuciei, sinceramente desanimado.
– Há, pois. Pelo menos alguma. Quando há mais gente a divertir-se, correndo – a pé, de bicicleta, de para-pente, de skate –, mais gente interessada em conhecer o mundo real, divertindo-se a estudar, a compreender a realidade, que lida melhor com a liberdade, com a simplicidade, que não se interessa apenas em acumular riquezas, que gosta daquilo que faz e trabalha com gosto… Há esperança, pois. O bom senso demora mas quase sempre chega.
E, depois duma curta pausa, rematou a conversa com esta intranquilizadora frase:
– O problema, nesta altura, é saber se o bom senso chegará a tempo…
Daniel D. Dias

Felicidade

Na cósmica ordem não há visão
balestilha, rumo ou horizonte
o que liga vida e morte é uma ponte
de espuma informe, de ilusão.
O tempo é um parêntesis de agitação
desses dias alijados da eternidade
em que a busca da evasiva felicidade
é insanamente repetida, sempre em vão.
É que isso de ser feliz, de bem viver
é algo tão fugaz e azougado
que a ninguém conseguirá satisfazer.
A felicidade costuma dar-se a conhecer
somente àquele que nada faz, preocupado
em criar obra ou situações, prà merecer…
Daniel D. Dias

Presidenciais: “Requiem” por um candidato inexistente

 
Dos dez candidatos à presidência da República há um que, garantidamente, não receberá o meu voto. Porém não me ouvirão, até ao dia das eleições, pronunciar o seu nome, seja para dizer mal dele, seja para apontar as suas incongruências, seja para lastimar a natureza e o significado da sua popularidade. Porque sei que falar no seu nome é promovê-lo e eu não quero promovê-lo. A melhor forma de liquidar uma má ideia, um mau personagem, é remetê-los ao esquecimento. Esse candidato para mim não existe, ponto. É um candidato não candidato. É o número zero entre dez candidatos que passam assim a ser apenas nove. De quem estava eu a falar? Não sei, nem me interessa saber. E nem se deitem a adivinhar quem era porque não era ninguém, ponto. Entenderam? Aqui fica então o meu “requiem” definitivo para esse candidato! Paz à sua desalma. Pim!
 
Daniel D. Dias