Sou lógico, plenamente analógico

Sou lógico, plenamente analógico

no meu verso que une o universo

revejo o pão no colchão

o arranjo no marmanjo

e na peta do pateta

não topo pontos nem pespontos

 

Sou um tal que lida com o digital

sem a fatal idade da obscuridade

pois, que para esta pessoa, a broa

a cachopa que se topa

o tinto e a tinta com que repinta

a sardinha que se cozinha

assada e com salada

a fiada conversa, ou a perversa

a política até mesmo a paralítica

pode parecer digital que não é tal

 

Por prosódia por paródia

e por certeza na natureza

sei que é antológica a psicológica

mente e o tino do destino

– pois não há hiatos inatos –

sei que tudo é antropo – bio – axio – lógico,

caracteriológica mente analógico

no presente e no todo o sempre

seja na praia ou na cambraia

seja na caca ou na barraca

 

Daniel D. Dias

Prevenções estivais -2

 

 

No verão, o pai/mãe Sol é generoso: retoca as nossas cores, põe-nos morenos, atraentes. Mas as noites, a cidade, a vida pouco cuidada, embaçam a nossa pele, empalidecem-nos. E quando o encanto decai, quem se atraiu por nós em veranis entusiasmos, continuará assim atraído? Para prevenir desilusões sugiro que nos mostremos, intermitentemente, “feios”, desencantadores, pois, como é sabido, não há maquilhagem que sempre dure e os amantes “vero, vero”, devem ser aptos a resistir à face oculta da beleza… Todavia, quem ensaiar esse teste, deve fazê-lo genuinamente, sem batota; o estilo “faz de conta” – “négligé” – nunca deve ser usado pois os resultados são incertos.

Depois, se ninguém acusar mudanças ou hesitar, se o encanto persistir, as perspectivas – embora nada o garanta – serão mais animadoras.

 

Daniel D. Dias

Tarde cega

 

 

não esquecerei a cor dessa tarde:

era remota, tranquila, isenta de ameaças

havia odor a terra molhada e a feno

e o silêncio universal era pleno

de cânticos de grilos e de cigarras

salpicado dum ou outro chilreio de pássaro

 

tenho em conta a omnipresença do céu límpido e claro

e a certeza da água e da montanha por perto

a suscitar a sede de frescura e de sombras

 

eu caminhava, cego, pela tua mão

e pela proximidade do teu corpo

mas via com nitidez a terra afastar-se sob os meus pés

palmilhando o desígnio implacável do desejo

 

de pouco mais me lembro

retive a cor única, definitiva, dessa tarde

cor densa, comestível, que continha tudo

todas as cores, todos os ruídos

que me continha a mim e a minha própria cegueira

 

Daniel D. Dias

Alfa e ómega

Sei que as palavras foram o princípio.

 

Antes das palavras não havia tempo

as manhãs eram sempre claras e eternas

as movimentadas tardes jamais terminavam

as noites, essas eram tremendamente escuras e infinitas

e não havia fronteiras nessa geografia sem horizonte

 

A génese das primeiras palavras não sei:

terão sido pedaços do mundo que quis reter?

sensações que recusei partilhar?

Mas como adorei esses mágicos rincões

indeléveis, que ainda hoje moldam a minha natureza!

 

Só muito mais tarde – talvez demasiado tarde

quando vislumbrei quanta areia perdia

por entre os dedos das mãos cerradas

as minhas palavras se tornaram gritos, apelos

instrumentos de busca de sentido, e algumas delas foram de amor

 

E descobri que as palavras, mesmo as melhores palavras

foram sempre o ectoplasma da vida

simulacros das coisas reais que dispensam nomes

que construíram o vácuo edifício da existência

no mundo cada vez mais ficcionado que partilho…

 

Agora sei que as palavras são também o fim

 

Daniel D. Dias