Ser e parecer

 

Salazar dizia que “em política o que parece é”. E talvez tivesse razão. Acredito que entre outras justificações da sua longevidade no poder esta terá sido uma delas e com peso significativo.

A importância do parecer, da imagem, dos políticos e da política, é cada vez mais reconhecida e, hoje em dia, é objeto de estudo científico aprofundado. Proliferam organizações e profissionais nesta área – marketing de imagem, institutos de sondagens especializados, etc. – para ajudar a eleger presidentes e para os manter no poder.

Mas, por melhor que seja a maquilhagem, por mais eficaz que seja a forma de fazer passar as imagens, a dicotomia do PARECE e do É continuará a representar coisas diferentes, que podem coincidir ou não.

Creio que na génese desta preocupação com a imagem está, na maior parte das vezes, algo dúbio ou eventualmente desonesto. Afinal se a confiança nas qualidades próprias fosse absolutamente genuína porque razão haveria alguém de querer colar à sua imagem pública à imagem (empática) de outro alguém? Porque há-de alguém exibir cortes de cabelo a lembrar a princesa Diana ou os maneirismos de Nelson Mandela?

Reconheço – é uma questão antiga: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Faz falta então PARECER (-se) mais – muito mais – do aquilo que se É de facto. Parecer será mais importante que ser? Terá sido este o motivo de se atribuir o Prémio Nobel da Paz a Obama, antes mesmo de ele exercer o seu mandato?

Não sei. Tenho ideias concretas sobre o que parecem e o que são muitos dos líderes mundiais (e nacionais), da atualidade e do passado. É quase inevitável não as ter; acho que sucede o mesmo com toda a gente. Mas não vou falar delas, porque posso não ser justo em todas as apreciações – já tenho mudado de opinião acerca de tanta gente… – e, principalmente, porque receio despertar paixões, tanto inadequadas quando desnecessárias, sobre figuras públicas destacadas.

Mas convido a que observem atentamente e com objetividade a cena pública – nacional ou internacional – e que tirem conclusões. As conclusões possíveis, obviamente, pois nem sempre o que É (ou o que acabou por vir a ser) está acessível ou é claro. Verão que há de tudo: Líderes que, como a pescada, antes de o ser já o eram e que no final geraram enormes deceções; políticos que em nome dos valores da esquerda favoreceram a direita mais arrogante; direitistas que foram forçados pelas circunstâncias a “governar à esquerda” ou próximo dos seus valores.

Neste tempo estranho, de gente estranha, talvez seja útil observar os detalhes, os pormenores das maquilhagens que se usam e tentar perceber as motivações (a verdadeira face) por detrás delas. O sábio poeta Aleixo não se cansou de nos alertar para os equívocos que as imagens podem gerar:

“Sei que pareço um ladrão…

Mas há muitos que eu conheço

Que sem parecer o que são

São aquilo que eu pareço”

Daniel D. Dias