Espelho de mim

 

 

este olhar que não é meu

vê dentro o que fora está

e nem de olhos precisa

 

e os sons que escuto

dispensam estes ouvidos

que aos poucos fui descobrindo

e que não sei a quem pertencem

 

percebo agora que a beleza

está feita, desde sempre

e que nada há para além dela

 

não há enfeites, não há perfeição

a perfeição é a descoberta

e os enfeites são este desejo

de imitar o que vou descobrindo

 

ah, entendo

sou um espelho de mim

 

Daniel D. Dias

Mais Luz

 

A Grande História segue o seu intricado curso que muitos julgam resultar de caprichos celestiais ou da ação de homens predestinados. Mas trata-se duma ilusão. Uma análise aprofundada – objetiva, desapaixonada – evidencia que há um processo histórico, um conjunto de leis universais, inelutável, que subjaze na sua génese. Aníbal se lograsse derrubar Roma talvez a civilização ocidental tivesse hoje outros contornos, mas certamente o modelo de produção que hoje vigora seria o mesmo ou muito semelhante. Sem a Revolução Francesa e o Iluminismo, os Direitos do Homem poderiam ter outra redação mas certamente há muito teriam surgido e a sua essência seria idêntica. Os acontecimentos determinantes da história ocorrem porque há condições objetivas (e subjetivas) para que ocorram e não o contrário. Por isso, um modelo produtivo só dá lugar a outro quando esgota – por completo – o seu potencial; uma inovação crucial só ocorre quando estão maduras as condições para que tal aconteça. É a dialética das coisas.

Tomar consciência desta realidade levou num passado recente a que muita gente esclarecida, humanista, bem-intencionada, preconizasse queimar etapas da história. Já que se conhecia, finalmente, a mecânica da evolução histórica, porque não evitar fases intermédias, difíceis, dolorosas? Mas os ensaios nesta direção deram quase sempre mau resultado e reforçaram as intenções daqueles que permanecem apegados aos seus interesses egoístas. Ou seja: em vez de abreviarem o caminho do progresso, contribuíram para retardá-lo.

Talvez este fenómeno – de acordo com as premissas desse mesmo processo histórico – não pudesse ser evitado. Talvez. Frantz Fanon (1925-1961), filósofo e psiquiatra francês de origem africana, mostrou no seu livro “Os condenados da terra” (1961) que, às descolonizações tão ansiadas após a II Guerra Mundial, não se seguiria, de imediato, a instauração de regimes pacíficos e progressistas. Pelo contrário, mostrou, não sem profundo desagrado, que enquanto não se formasse nos países recém-independentes, nova estratificação social semelhante à das potências colonizadoras – novas burguesias, novas classes burocráticas -, novas lutas, novos conflitos interclassistas, haveriam de ressurgir, e só depois de superada essa etapa, novo sistema social, mais justo, mais progressista, seria então viável.

As revelações de Fanon, rigorosamente fundamentas, constituiram na altura um balde de água fria nos sonhos e aspirações dos militantes anticolonialistas. Mas estes persistiram na sua luta, sem que tivessem obviado queimar etapas, como é evidente hoje em dia. Porém tinham de fazê-lo porque é mesmo assim que se processa a dura aprendizagem da história. Lutar pelo progresso faz parte do processo histórico.

Mas, se não é garantido queimar etapas, está comprovado que é possível retardá-las. O mundo, desde as comunidades primitivas, desde que há história, sempre esteve dividido entre classes com interesses opostos. Obviamente os que estão na mó de cima opõem-se à mudança, a qualquer coisa que ponha, ou pareça pôr, em causa os seus privilégios. E todos pretextos são bons para atingir esse objetivo. O século transato assistiu ao surgimento de regimes retrógrados que deram origem às guerras mais destruidoras de sempre, e mesmo o novo século continua na mesma senda apesar dos tremendos progressos científicos e técnicos que surgiram, só por si, capazes de garantir à humanidade um bem-estar sem paralelo.

 

Pergunto-me: Não será um desses pretextos esta vaga dita neoliberal, que avassala a atual economia mundial? Será este modelo económico baseado exclusivamente no lucro fiduciário – modelo que tudo avalia segundo essa ótica, que exige absurdos crescimentos (de dois dígitos!) às empresas, aos produtores, para que subsistam, – algo inevitável, algo indispensável ao progresso da humanidade? Ou não será antes uma forma, dir-se-ia desesperada, de retardar uma mudança do paradigma económico, um fim de ciclo, porque o modelo produtivo em que se baseia já deu tudo o que tinha a dar?

O mundo atual está repleto de exemplos de retrocessos evitáveis, consequência, direta ou indireta, deste modelo obsoleto. A crise dos refugiados, por exemplo, tem um nexo evidente com as políticas das potências ocidentais que destruíram vários países sob o pretexto de ameaças inexistentes a esconder interesses económicos tão criminosos quanto estúpidos. Muito do discutível sucesso dos “países civilizados” assenta na continuada exploração, sem regras e sem escrúpulos, do mundo subdesenvolvido, e da aliança que mantém com as classes que exercem o poder nessas regiões. Investir nas forças do progresso nesses países, combater as assimetrias regionais, praticar uma cooperação genuína, não seria uma forma de obviar às desigualdades chocantes a que assistimos, com o seu corolário de misérias, de guerras fratricidas, de crimes abomináveis? Mas o poder atual prefere investir os seus recursos em ações repressivas, em exércitos de mercenários, na desinformação, na destruição ambiental…

Os sinais que surgem no mundo, se não estou enganado, parecem revelar um final de ciclo, uma mudança de paradigma, um novo modelo socioeconómico que se avizinha, e com ele, uma cultura nova. Tempos decisivos estes que vivemos: retrocesso e mudança confrontam-se uma vez mais. Quero acreditar que a mudança se imporá, sem sobressaltos de maior, sem pôr em risco a sobrevivência da humanidade. É a minha suprema aspiração.

 

Apesar de tudo estou otimista. Já é tempo da humanidade sair da sombra e gozar a Luz. Luz genuína é o que mais falta, pois, com mais Luz, o demais virá por acréscimo.

 

Daniel D. Dias

O tempo do Tarot

 
Um estudo, hoje divulgado, realizado por investigadores da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (https://www.dinheirovivo.pt/economia/cinco-familias-inseguranca-alimentar/) revela que cerca de 20 por cento das famílias portuguesas (uma em cada cinco famílias) vive em situação de “insegurança alimentar” por não ter acesso a uma alimentação saudável. As razões são diversas mas avultam, o baixo rendimento dos agregados familiares que abrange todo o país com destaque para Açores, Madeira e Algarve, e a falta de informação adequada, que leva as pessoas a abandonar hábitos alimentares saudáveis.
 
O estudo sugere que a ignorância e a informação errada poderiam ser combatidas se fosse utilizado o potencial da comunicação televisiva uma vez que os portugueses, nos quais se incluem a maioria dos idosos em situação de pobreza, de acordo com declarações da apresentadora do estudo, hoje, na Antena 1, veem em média 3 horas de televisão diariamente.
 
Fico a pensar: Ora aí está uma tarefa à altura de programas como “A vida nas cartas”, da SIC, que, de segunda à sexta, se dedicam à nobre tarefa de resolver problemas, familiares, de saúde, de emprego e muitos outros, de tantos e tantos portugueses.

 

Daniel D. Dias