Não há lóios no Bairro dos Lóios

 

Mudei do Bairro da Encarnação para o Bairro dos Lóios e descobri que no meu bairro poucos saberão o que são lóios (Centaurea cyanus). Descobri também que não há lóios no Bairro dos Lóios. Dos lóios só resta o nome. Os lóios foram erradicados tal como estão também a ser as flores que recolhi nos espaços livres que sobrevivem perto da minha casa: Ao mesmo tempo que colhia as flores que aqui vos mostro, cantoneiros da autarquia roçavam toda a erva que persiste em renascer na Primavera.
Fico a pensar: Apreciamos a vida desde que a controlemos, que a “civilizemos”, que é o que se passa com estes jardins naturais que estão a ser substituídos por jardins “civilizados”, programados, tratados de forma rápida, económica. Papoulas e lóios não se encaixam nestes programas.

Numa terra perto de Lisboa, que conheço bem, havia um pinheiro manso, majestoso, emblemático, com mais de 200 anos. Construíram à sua beira um empreendimento urbanístico, de traça “moderna”, a que deram o nome, “Urbanização Pinheiro Manso”. Depois mataram o pinheiro porque tapava as vistas do empreendimento… Morreu o pinheiro mas ficou o nome.

É esta a civilização que temos. Uma civilização que aprecia múmias, animais embalsamados, recordações ou vestígios de coisas, mas não as próprias coisas. Esta é uma civilização de placas nas paredes a recordar qualquer coisa, que vivencia o mundo através de fotos, de posts nas redes sociais, documentários da vida selvagem. O êxito dos museus, dos jardins zoológicos, aquários, etc., pode não parecer mas está em linha com este espírito. O objetivo não é proteger a vida, mas apreciá-la à distância, sem riscos, nem trabalho. Tudo o que não está nas jaulas, ou em reservas, pode ser ignorado, eliminado. Desde que não se veja…
As ruas registam os nomes de pessoas – cientistas, atletas, artistas, políticos, etc. – mas quem sabe quem foram essas pessoas? Talvez alguns saibam, mas muito poucos, por dever de ofício, ou por extravagante curiosidade. Extravagante porque só pode ser extravagante alguém que perca tempo com esse mister.

Ainda assim esta questão preocupa as pessoas. Preocupa-as tanto ou tão pouco, que as homenagens, os dias comemorativos, mais do que um novo culto, são um negócio corrente em crescimento acelerado. Não há estação de TV, empresa, ou instituição pública, que não promova, ou que não sonhe promover, eventos dessa natureza. Assim se junta o útil ao agradável: aliviar consciências e divertir o pessoal em galas de homenagem.

E assim se vai lidando com o caráter efémero das coisas e da vida. Empalha-se, mumifica-se, enjaula-se. Mas pega-se tudo com pinças e observa-se de relance. Viver – parece-me – é parar, ignorar o tempo, olhar com as mãos, com os olhos, com o coração. E isto assusta, causa alergias. Por isso se foge para universos imaginários em que somos avatares, mas fingindo, – fingindo tanto quanto possível a 4D – que vivemos no mundo real.
Vejo que mudei de bairro mas que a encarnação continua a ser a mesma.

 

Daniel D. Dias

Elogio da beleza

 
 
Ah, a beleza:
a beleza, a única coisa que nega a ilha que tendo a ser
e que me torna num anódino continente…
 
Ás vezes começa numa folha vazia
ou num tronco oco, ou numa concha
ou numa luz difusa num vale de sombras
ou num olhar
– tanto faz –
luminosa ou sombria, não sei o que é
nenhum traço, nenhuma palavra
a definem com rigor
ela flui de todas as formas
de todos os sons
e esvai-se por entre os dedos mais delicados
é uma fragrância que emana do vazio
e se dissipa sem cessar
 
É impossível pará-la
impossível retê-la na mais subtil armadilha;
a arte é capturar-lhe os vestígios
adivinhar a sua presença
que é permanente, eterna,
e no final recolher sugestões da sua existência
 
Parece-me que a beleza é luz
que é cor
mas sinto-a como som
som que tem cheiro, que tem cor…
 
como é isso possível?
nessa roxa flor transmutada do vermelho
e de múltiplas gamas de azul
posso sentir o aroma do mundo,
da terra inteira
e lá – ao fundo – perceber, nitidamente, o mar?
 
como pode tudo isto estar contido
num minúsculo aglomerado de folhas e pétalas
que não pisei por acaso
e que só insectos dão atenção?
 
Ah, a beleza,
é isso, pois claro:
evanescência que dispensa adjetivos
nómeno sem conteúdo, resiliente a ideias
 
só nesses raros momentos em que cesso de pensar
a vislumbro por instantes…
 
e como te adoro, beleza!
 
Daniel D. Dias