Democracia ou partidocracia?

 

O meu vizinho – 5

 

A propósito das recentes eleições presidenciais francesas e dos seus surpreendentes resultados, o meu vizinho debitou-me o seguinte:

“Sabe, vizinho: Dizem que as pessoas se fartaram da democracia representativa, que já não acreditam nos seus valores e daí os fenómenos “populistas” que surgem por aí… Acho que não perceberam nada. A democracia tem sido, até ao presente, não o poder do povo mas o poder dos partidos. Devia antes chamar-se partidocracia em vez de democracia. É um estratagema habilidoso para alguém chegar ao poder. Consiste em cair nas graças dos superiores dum dado clã, que supostamente representa o povo ou parte dele.  Os candidatos começam por vender autocolantes, com entusiasmo e dedicação,  e logo passam às nobres tarefas de colar cartazes ou de fazer segurança. Quem grita mais alto, quem manifesta mais fervor, quem recolhe mais fundos, tem vantagem.  Se tudo correr bem passa então a chefiar um setor, depois um outro maior e por aí a fora. Ganham curriculum e a “confiança do aparelho”. Quem for persistente e suficientemente forte para engolir sapos mas também para se tornar sapo, está a um passo de saltar para o poder. É assim que se chega a presidente ou a primeiro-ministro, sem nunca arriscar um chavo que seja seu, sem nunca dirigir uma empresa que tenha criado, sem nunca tarimbar num emprego. Salvo, temporariamente, claro, se for necessário para “enriquecer” o curriculum próprio…

As pessoas já não acreditam neste sistema e, de facto, querem democracia, mas não têm forma de a escolher, nem sabem como fazer. Só sabem que não querem o que têm. É difícil de dizer que são a favor de alguma coisa. O mais certo é serem contra tudo.

Mas isto há de passar –  desfechou o meu vizinho – O pessoal, mais tarde ou mais cedo, sempre aprenderá alguma coisa.”

E desta forma se despediu.

 

Daniel D. Dias

O drama do melodrama

 

 

 

Tolero o kitsch

e até mesmo o delicodoce

(apesar do risco diabético)

mas o que mais detesto

é o melodramático melodrama

que me irrita

que me deprime

sobretudo

se me logra comover

 

(só não odeio o melodrama

e os seus multifacetados promotores

porque sou inepto a  odiar:

até para odiar é preciso vocação…)

 

o mundo subestima o estilo melodramático

que desde sempre é cultivado

por hipócritas e outros profissionais da mentira

 

o melodrama deturpa a realidade

verrina a análise acutilante

liquidifica os sentimentos generosos

perfidamente subverte as emoções

e deforma a natureza profunda da comoção

 

as pessoas nem parecem reparar

mas todos atos bélicos

todos os grandes conflitos humanos

têm génese num oportuno melodrama

 

 

é por isso que fujo

que me esquivo das muitas formas de melodrama

mesmo das mais convincentes

e sei que corro o risco de parecer frio, indiferente

 

 

refugio-me no humor ou na ironia fina

que são das raras disciplinas

que conferem alguma proteção contra esse flagelo universal

 

Daniel D. Dias

 

Flores tardias

 

As flores tardias

não são óbvias  nem se aguardam

mas irrompem sem se anunciarem

docemente, sem alarde

 

são frágeis e efémeras  como as outras

mas exumam fragâncias esquecidas

e mostram subtis resquícios de perfeição

de remotas primaveras superadas

 

somente a fusão das corolas em secos caules

desperta o labor das aves jardineiras

ou a habitual cobiça das borboletas

exímias na caprichosa vida das plantas

 

Exulto com as flores tardias

que vislumbro nos caminhos, mas  nunca as colho:

imperioso é  que matizem as nossas tardes

e que difundam essa glória do florir

 

Daniel D. Dias

 

Elogio da simetria

Apreciar a simetria é algo banal. Creio que ninguém é indiferente às infindáveis manifestações da simetria. Até mesmo os animais parecem fascinados por tão universal padrão.

A simetria é tão vulgar, tão corrente, que nem nos apercebemos dos seus poderosos efeitos. Ela está presente nos rostos, nos corpos, das pessoas e dos animais e influencia indelevelmente as nossas escolhas e preferências, mesmo que não demos por isso. O poderoso fascínio das flores está certamente na sua incrível panóplia de simetrias. A simetria é talvez o principal sustentáculo da nossa atração visceral pelo belo.

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Somos atraídos pelo que é simétrico, mas como poucas coisas são perfeitamente simétricas, nunca saciamos a nossa ânsia de encontrar novas e mais perfeitas simetrias. Daí a nossa perpétua busca pelo conceito “gestalt” da boa forma. A ideia de harmonia – que subjaze à sensação de “felicidade” -, tem certamente na sua essência a simetria nas suas infinitas manifestações.

Creio que a simetria não se manifesta apenas nas formas visíveis. Nos sons – na música, por exemplo -, provavelmente nos aromas e paladares, talvez até mesmo nos sentimentos e emoções, a simetria está presente. E quando não está presente a receção é de desagrado. Vive-se mal.

Na arte do bonsai – um “do” (caminho) para encontrar a natureza profunda -, pode aprender-se muita coisa. Por exemplo: que uma árvore se mantém viva enquanto houver equilíbrio entre a sua massa radicular e a sua parte exterior. As duas áreas devem ser equilibradas (simétricas). Quando deixamos a planta crescer demasiado, ela corre o risco de morrer de subnutrição. O “êxito” do crescimento fácil e rápido, é pago com a vida da planta.

Este exemplo pode aplicar-se a muitos outros aspetos da vida. Hoje muitas pessoas vivem obcecadas com a forma física e descuram os aspetos subjetivos da existência. Uma vida equilibrada deve ser simétrica: a atividade intelectual deve ser acompanhada por uma equivalente atividade física, ou vice-versa. Qualquer assimetria – mesmo que configure um sucesso -, terá sempre um custo elevado. A sabedoria oriental sempre aconselhou perseguir a “via do meio”. Via do meio que é, afinal, o fulcro de todas as simetrias.

Uma existência bem preenchida deverá também ser simétrica. Os nossos relacionamentos, a nossa nutrição – física e psíquica -, e tudo o mais que preencha a nossa homeostasia, devem ser equilibrados, simétricos. Creio que até na morte a simetria deveria estar presente. Nascemos sem dar por disso e deveríamos também partir sem dar por isso. Suavemente, sem sofrimento. Como uma chama duma vela que se extingue.

 

Daniel D. Dias