Índio

 

Sonho o índio que terei sido
de terra e água feito
adobe de húmus argiloso e de zarcão
caldeado em águas de procelas
e de regatos musguentos

 

o meu peito abriga tempestades
glaciares, ventos desérticos
lavas incandescentes…
o meu peito tudo acolhe
tudo harmoniza no compasso impassível
do meu nobre coração de inca

 

o meu sangue tem o visco das negras algas
que sepultam os segredos oceânicos
é agridoce e desliza por imbricados riachos
que tudo nutrem e percorrem
porque o mundo inteiro é o meu corpo

 

não tenho ódios nem afetos
o meu amor é o sol, a lua, é o mar
e por vezes é um felino que mergulha, febril
no desejo de prolongar sempre mais
primaveras caprichosas

 

da criança que já fui
só conservo esse poder de ser surpreendido
sem temor e sem memórias
por isso sou adulto livre e alegre
brinco, canto, feliz como as aves ou os peixes
pois ignoro o futuro e o passado

 

sou uno com o meu bando
mas vivo só – nunca solitário –
o meu bando é a minha família
é a minha raiz
é a minha segunda natureza
o meu bando é o espelho onde me revejo
a ravina onde escuto o meu eco

 

a morte não me assusta
porque não posso assustar-me
com algo que não conheço
morte é fim
e a minha essência é terra e água
que tendem a dissolver-se na paisagem
quando a seca ou a grande chuva renovam a paisagem

 

Mas eu ressurjo sempre renovado
sempre mais sábio
porque revivo em cada momento
o índio infinito que habita cada um de nós

 

 

Daniel D. Dias

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