No outro lado

 

 

Não é possível mudar

apenas simulando a mudança

 

não é possível viver

apenas simulando estar vivo

 

a importância do que parece

supera a importância do que é

 

assim é há milénios

já no tempo dos faraós assim era

desde as cavernas que assim é

e assim, parece, vai continuar

 

o simulacro do viver é o nosso drama

drama reversível

em qualquer  momento

n o outro lado do espelho

 

Daniel D. Dias

Desencontro

 

 

 

Sinto que o poema está aí

na frustração

no medo difuso

nesse vaguear inquieto das ideias

 

E logo procuro palavras

que moldem a sua face

para que o sinta, para que o veja

pois que o poema

– se não é simulacro –

é dom da natureza

desincrustrador  de existências

 

Mas as palavras não acontecem

 

só a providencial batida desse  relógio

me salva a tarde

 

 

Daniel D. Dias

Diferença

 

 

Na disputa dos locais de repouso

aquele bando de corvos

rasga o silêncio do céu límpido

com seu roufenho grasnar

 

Um melro abandona um ovo no ninho

e parte rápido na direção dessa réstia de sol…

que buscará o melro

nessa extravagante viagem?

 

O gato tudo observa e abana a cauda

levemente, em aparente indiferença

e apenas eu, conto tempo, e tenho idade

neste cálido entardecer

 

 

Daniel D. Dias

Maré de reversões

Coisas do meu vizinho – 8

 

O meu vizinho logo pela manhã pareceu-me particularmente animado.

– Bom dia vizinho! Não me parece ter ficado desanimado com esta última reversão de Trump, – atirei eu referindo-me à decisão de Trump de retirar os EUA do acordo de Paris sobre o clima.

– Bom dia! Pelo contrário, caro amigo: Esta e outras reversões, ou muito me engano ou vão ter resultados surpreendentes. Estamos prestes a assistir a uma inversão de tudo o que se tem passado nas últimas décadas. Veja só: Com a saída dos EUA dos acordos de Paris não tardará a vermos a China a resolver o seu tremendo problema de poluição encomendando aos EUA toda a sua “produção suja”. Só um grande país produtor como os EUA pode resolver as necessidades doutro grande produtor como a China. E os EUA não hesitarão em tornar-se na “nova fábrica suja do mundo” para voltar a enriquecer. E talvez consigam mesmo enriquecer “again”. Pelo menos durante um tempo…

Fiquei perplexo.

– Espanta-se? E se eu lhe disser que não vai ser só a China a seguir esse caminho? – Prosseguiu o meu vizinho, acaloradamente, como de costume. O Japão, a Europa, talvez até os seus amigos íntimos, Austrália e Canadá, não hesitem também em seguir o exemplo da China. Nem que seja só para “ajudar” o amigo americano…

Continuei perplexo, mas o meu vizinho prosseguiu ressumando convicção.

– Ainda não se sabe o que fará a Inglaterra que continua perdida em busca do seu império perdido. Coitada, ainda não sabe que o perdeu. Mas talvez se tenha uma ideia mais clara do que vai fazer na próxima semana com o resultado das eleições promovidas pelos conservadores ingleses. Estavam com tão grandes ambições esses velhos abutres que não hesitaram em marcar novas eleições a poucos meses das últimas, que ganharam, e em fabricar uma nova Thatcher, versão corcovada. Mas, ou muito me engano, ou irá sair furado esse louco desígnio: Theresa May perderá as eleições (ou ficará sem condições para governar) e teremos então, à vista,uma outra reversão ainda mais espantosa.

– Outra reversão? Qual? – Inquiri verdadeiramente intrigado.

– Não está de ver? O regresso do Reino Unido à mãe Europa, caro amigo… – disse-me fixando em mim os seus olhos escancarados.

– Não quero acreditar no que diz, vizinho. – balbuciei incrédulo

– Olhe que eu também não, eu também não… – sussurrou o meu vizinho, aparentemente lamentando este seu último prognóstico.

O meu vizinho logo pela manhã pareceu-me particularmente animado.

 

Daniel D. Dias

Lição de Chaplin

 

Nos anos sessenta li um romance que me causou profunda impressão de tal forma que ainda hoje, embora que vagamente, o recordo. Chamava-se ” Os homens e os outros” e o seu autor era o escritor italiano, Elio Vittorini. Elio Vittorini, fez parte da resistência italiana na II Guerra Mundial, participou em diversos e antagónicos movimentos políticos que ocorreram na primeira metade do século XX e, talvez por isso, pelas dificuldades que observou e que viveu, apercebeu-se da complexidade do ser humano, da sua natureza contraditória, que o faz, ora superar-se evidenciando os seus dotes mais nobres – “os homens”-, ora transformar-se num ser cruel e insensível, capaz das maiores desumanidades – “os outros”.

Sempre tive a ideia que a experiência de vida de cada um de nós, o enquadramento social, os fatores genéticos, o histórico familiar, o índice de escolaridade, o nível material de vida, entre outros fatores, é que determinam a natureza da nossa personalidade. Ou seja: penso que, no essencial, somos o que a sociedade nos projeta e o que nos deixa ser. Por isso é crucial entender que é, prioritariamente, a partir do enquadramento social, a partir da coletividade, que podemos – e que devemos – projetar-nos (e proteger-nos) como seres humanos e não a partir da competitividade, como agora se difunde a propósito de tudo e de nada. A competitividade é de facto importantíssima, determinante mesmo, mas só depois de assegurada a igualdade de condição à partida. Alimentação, habitação, segurança, educação e cuidados de saúde, são fatores estruturantes dessa igualdade. Ou seja: o tal “welfare state” (estado social). A sociedade deve pois organizar-se de forma a assegurar prioritariamente este desígnio básico – que, aliás, nada mais é que o seu “leitmotiv”- pelo menos até à maioridade de cada individuo, independentemente da sua condição.

Mas se somos (no essencial) aquilo que a sociedade deixa que sejamos e se é nas dificuldades que se pode aferir a nossa natureza profunda, ainda assim nada põe em causa a pertinência do chistoso dito: “Aquilo que a natureza não dá a universidade de Saragoça também não dá…” Creio que todos entendemos o que isto quer dizer. Por melhor que seja o percurso de uma vida, por mais excelente que seja a preparação base de cada pessoa, haverá sempre lugar para um “toque” pessoal, para um elemento aleatório – com significado semelhante ao do monólito negro que surge no filme “2001, odisseia no espaço” -, capaz de orientar a performance de cada um no sentido de “fazer a diferença”. Algo que cada um pode encontrar em si próprio, que só depende de si e que o torna melhor. Um dom de si.

Acho que foi justamente essa a lição Chaplin com o seu personagem carismático, Charlot, que se tornou numa vedeta universal que transcende todas as fronteiras linguísticas e culturais. Atrevo-me a dizer que não há ninguém no mundo que não seja tocado por esse personagem. Mas porquê? Não é certamente pelas suas qualidades morais que muitas vezes são reprováveis. Não é pela espetacularidade dos filmes em que figura pois frequentemente são muito pobres. Não é (apenas) pela lucidez e generosidade das suas mensagens pois há muitos outros filmes com mensagens equivalentes que nunca atingiram a mesma relevância universal.

Há um elemento constante nos filmes de Charlot que sensibiliza toda a gente, que não deixa ninguém indiferente, embora não seja objetivamente percecionado. Seja qual for a situação que o personagem viva – desemprego, miséria, guerra, prisão – Charlot está sempre ACIMA da situação que vive, nunca se deixa dominar por ela: Sabe comer “de garfo e faca” uma sola de bota velha; insere na mão, com requinte, a luva suja e esburacada; fuma como um cavalheiro fumaria uma ponta de charuto apanhada do chão…

Charlot incentiva a nossa auto estima, ajuda-nos a perceber que ser melhor (também) depende de nós. E nós gostamos disso… Obrigado Chaplin!

 

Daniel D. Dias

Mundo cão

 

A exibição da desgraça humana é algo abominável só comparável à atividade dos necrófagos. Mas enquanto estes têm o respeitável papel de limpar o ambiente de detritos mortos obviando a doenças e pragas, os “media” que vivem de exibir desgraças e misérias humanas, comprazem-se em cultivá-las e difundi-las com o exclusivo interesse de lucrar com isso.

Os pretextos para tão execrável atividade são a procura culpados das desgraças que vão acontecendo, demagogicamente acenando com justicialismos típicos das ideologias extremistas. Na realidade esse jornalixo nunca se preocupou com justiça digna desse nome e sempre esteve, e continua a estar, ao serviço de interesses retrógrados, que são a causa direta ou indireta de muitas das desgraças que eles próprios se dizem denunciadores.

Há umas décadas (1962) fez furor um tipo de documentarismo precursor deste atual jornalixo. G. Jacopetti, lançou então o “Mundo cão” que procurava chocar os espectadores mostrando atos degradantes que se praticavam por todo o mundo. Vendo o seu filme e os que se seguiram nesta linha, a ideia que ficava é que não havia esperança para a humanidade. Um tempo depois descobriu-se que Jacopetti chegava a conluiar-se com promotores de massacres para obter filmagens em direto, no terreno, para lograr o maior efeito possível, tal como fez e ainda faz a TV brasileira (assaltos, traições, assassínios em direto, combinados, até talvez, encomendados).

Por cá progridem os “media” sensacionalistas destacando-se, Correio da Manhã, Sol, TVI, SIC, CMTV, mas sendo comum em quase todos os outros “media” existentes, até mesmo os públicos, essa “linha editorial” que explora escândalos e desgraças.

Os fogos florestais estão a ser, como é óbvio, um imenso manancial para esses necrófagos da informação. Ainda mais havendo vítimas mortais. A TV especializada a explorar esse tipo de acontecimentos, em nome dum sentimentalismo hipócrita, de pacotilha, não se cansa de repetir imagens e notícias chocantes, exibindo em direto o sofrimento de pessoas e as suas reações emotivas, frequentemente desorientadas ou revoltadas pelas circunstâncias que estão a sofrer. Chama-se a isto jornalismo? Como se houvesse qualquer ponta de humanidade na devassa do sofrimento humano.

Mas esta gente que em nome da “informação livre” presta este tipo de informação, não tem apenas por objetivo ampliar audiências. Procura também promover as forças do retrocesso político que agora estão na mó de baixo. Com as suas “figuras públicas” – que cultivam meticulosamente – e os seus comentadores “especializados”, a pretexto da justiça, da caridade e da solidariedade humana, procura semear a dúvida na opinião pública e criar condições para minar a via política que está a ser perseguida pela atual maioria, explorando as suas eventuais fragilidades e contradições, não hesitando mesmo em fabricá-las.

É curioso que os críticos da resposta das atuais autoridades à catástrofe dos incêndios tem como referência no seu discurso os “últimos 40 anos”. Parece um lapso freudiano: dá ideia de que as desgraças são coisa que poupou o “antigo regime” e que são específicas do atual regime democrático…

Ontem foi anunciado, dir-se-ia entusiasticamente, a queda dum avião de combate aos fogos. A notícia foi desmentida de imediato pelas autoridades que estão a operar mas alguns jornalistas que recebiam essa informação ficaram inconsoláveis – “fora de pé” como disse sentir-se a jornalista da SIC – http://sicnoticias.sapo.pt/especiais/tragedia-em-pedrogao-grande/2017-06-20-Protecao-Civil-admite-buscas-mas-nao-confirma-queda-de-aeronave. Pudera, não acertaram na desgraça e lá se foi uma oportunidade de aumentar audiências.

Nos nossos “me(r)dia” o “Mundo cão” parece não ter fim à vista.

Daniel D. Dias

Pormaiores, Trump  e entradas de leão…

O meu vizinho – 6

 

Já conheço o meu vizinho há tempo suficiente para saber que é uma pessoa boa, generosa, alguém sempre disponível para colaborar com os outros. O meu vizinho é das pessoas mais empáticas que conheço mas nem sempre se mostra simpático. A carranca que por vezes exibe é talvez uma proteção instintiva da sua natureza gentil.

Hoje, quando me cruzei com ele, pareceu-me que transparecia uma boa disposição pouco frequente nele. E foi com esse pretexto que meti conversa.
– Ou estou muito enganado ou o vizinho hoje está mais otimista do que o costume… – disse, acintosamente.

– De facto estou mesmo. Nota-se assim tanto?

– Nota-se, pois… Mas ainda bem: não se diz agora que o segredo de viver bem é manter um espírito positivo?

– Lá vem você com essas tretas “new age”… Qual espírito positivo? É a realidade, amigo. São os sinais de mudança… Ainda não deu por nada?

Percebi que já estávamos a entrar nos domínios do estado da arte da situação mundial, tão frequente e caro nas nossas conversas.

– Não dei por nada, não. Pelo menos por nada capaz de me pôr otimista. – Confessei com sinceridade.

– Percebo. Você é dos que ainda não aprenderam a ler sinais, a topar os pormaiores… Sabem tudo sobre pormenores, sobre casos, sobre “fait divers”. Mas escapa-se-lhes o sentido, não reparam nesses tais pormaiores que mostram o que é importante.

Uma vez mais ficava intrigado e expectante com as revelações do meu vizinho. Mas desta vez num nível superior. É que as “revelações” do meu vizinho – seria talvez mais adequado chamar-lhes epifanias – tinham geralmente uma natureza, dir-se-ia, “la palissiana”. Baseavam-se na observação dos factos, tão pura e tão crua, que me deixavam quase sempre desconcertado e a sentir aquele típico “como é que é não pensei nisto…” Mas, de vez em quando, as suas revelações tinham uma feição mais premonitória, “a la mode” nostradamiana, ou, se se quiser, ao jeito do “nosso” Bandarra. Inevitavelmente o impacto dessas revelações causam-me sempre um efeito maior e mais duradoiro, talvez também pelo toque apocalítico que trazem a condimentá-las.

Estava certo que a revelação que aí vinha era desta segunda natureza.

– Conhece aquele provérbio, “entradas de leão, saídas de sendeiro”? – Disparou de chofre o meu vizinho. Não lhe diz nada? Não vê que é exatamente o que se está a passar na atualidade? Há muito que não ouço tanta gritaria, tanta ameaça. Todos os dias alguém anuncia que o fim do mundo está a chegar. A cada momento um líder mais ameaçador surge neste ou naquele país. E parece de facto que estão a surgir cada vez mais ameaças fatais. Mas é bom não esquecer que os tempos mudaram: hoje é mais rentável cooperar do que fazer a guerra. Há alturas (da guerra) – isto é sabido há milhares de anos -, em que quem toma a iniciativa, perde… Saídas de sendeiro…

– O vizinho está a pensar no Trump, estou a ver… – sugeri.

– Claro! No Trump e em todos os tipos que gritam muito, que ameaçam ou que prometem muito. O Trump é paradigmático, mas nem sequer é o pior. Ele grita por ele e por outros que estão calados, que até podem parecer muito ajuizados, mas que realmente estão à coca de que algo aconteça que lhes permita recuperar as suas antigas glórias, compensar as suas fraquezas. Se ele falhar, era louco. Se ele abrir alguma porta fechada, transgredindo, ou não, lá estarão eles prontos para aproveitar, talvez até para apoiar. Fazem-me lembrar predadores de segunda linha, em estado de carência grave, tipo hienas debilitadas, que sonham com um leão que lhes mate a escassa caça que eles já não conseguem apanhar. Um leão será certamente um instrumento que apreciam e que desejam mas que estão prontos a descartar na primeira ocasião. É gente que gasta as últimas energias, esterilmente, a tentar repetir, num novo estilo, tudo o que fizeram no passado. Mas que não percebe que há passados que não têm regresso. Impérios que não retornam… Por isso um louco dá sempre muito jeito…

Atrevi-me então a interromper o meu empolgado vizinho:

– Então acredita que esses loucos e loucuras não levem o mundo a extremos. Que tudo não passará de encenações…

– Nos extremos, vizinho? Nos extremos já o mundo está… Claro que as encenações e as guerras vão prosseguir mas a tendência será para que terminem. Acredito nisso. Não porque as pessoas sejam melhores mas porque a guerra é cada vez menos lucrativa do que a cooperação. Depois, atingimos aquele ponto histórico que determina que sairá derrotado quem tomar a iniciativa bélica…

– Como assim, vizinho? Como chegou a essa conclusão?

– Os sinais, vizinho… Os tais sinais. Os pormaiores… E preciso estar atento. É preciso perceber…

 

E foi assim que – uma vez mais – nos despedimos. Ele confiante, escada acima. Eu perplexo, escada abaixo.

Daniel D. Dias

Conhecimento e sabedoria

 

O conhecimento é o elemento estrutural da sobrevivência no curto e no médio prazo. No longo prazo é preciso algo mais para que a sobrevivência seja assegurada. É preciso que o conhecimento se torne sabedoria. Nesta “sociedade da informação” em que vivemos, a difusão do conhecimento é cada vez mais exponencial, nunca se esgota nem para, mas, paradoxalmente, parece não deixar tempo, nem espaço, para que o conhecimento acumulado, amadureça, se expurgue, se torne sabedoria.

Talvez por isso utilizemos tão mal o incomensurável conhecimento adquirido sobretudo nos últimos cem anos. Por exemplo, a misteriosa energia dos átomos, finalmente dominada, foi, antes de mais, usada para construir as mais mortíferas armas de sempre; o conhecimento cada vez mais profundo da mente humana foi – e continua a ser – usado, antes de tudo, para manipular as opiniões públicas e tornar as pessoas consumidoras compulsivas e irracionais; o conhecimento sempre crescente dos mecanismos da economia, são, antes de mais, utilizados para explorar o egoísmo humano agravando desigualdades, aumentando a miséria no mundo.

Didaticamente é relativamente fácil difundir conhecimento. O conhecimento pode transmitir-se, pessoa a pessoa, de forma cada vez mais fácil e eficaz. Os nossos educadores e pedagogos, são cada vez mais exímios nesse mister. Pena é que na transmissão da sabedoria as coisas já não sejam assim: A sabedoria, adquire-se, expande-se, mas não se transmite como o conhecimento. É algo que se ganha, que amadurece subtilmente, no âmago de cada um de nós. Por vezes, aparentemente, por influência de terceiros, como que “por contágio”, mas sempre segundo o preceito, “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”.

Mudar esta nossa época de “sociedade da informação”- ou de “sociedade do conhecimento” -, para “sociedade da sabedoria”, fazendo jus, aliás, ao pretensioso título que a nós próprios atribuímos de “homo sapiens”, é cada vez mais imperioso colocar na agenda de cada um de nós, na agenda da humanidade. O risco que corremos se não o fizermos rapidamente, é o de termos de regressar às cavernas, a “toque de caixa”. Ainda assim se nos sobrar algum tempo e capacidade para tanto…
Daniel D. Dias

Índio

 

Sonho o índio que terei sido
de terra e água feito
adobe de húmus argiloso e de zarcão
caldeado em águas de procelas
e de regatos musguentos

 

o meu peito abriga tempestades
glaciares, ventos desérticos
lavas incandescentes…
o meu peito tudo acolhe
tudo harmoniza no compasso impassível
do meu nobre coração de inca

 

o meu sangue tem o visco das negras algas
que sepultam os segredos oceânicos
é agridoce e desliza por imbricados riachos
que tudo nutrem e percorrem
porque o mundo inteiro é o meu corpo

 

não tenho ódios nem afetos
o meu amor é o sol, a lua, é o mar
e por vezes é um felino que mergulha, febril
no desejo de prolongar sempre mais
primaveras caprichosas

 

da criança que já fui
só conservo esse poder de ser surpreendido
sem temor e sem memórias
por isso sou adulto livre e alegre
brinco, canto, feliz como as aves ou os peixes
pois ignoro o futuro e o passado

 

sou uno com o meu bando
mas vivo só – nunca solitário –
o meu bando é a minha família
é a minha raiz
é a minha segunda natureza
o meu bando é o espelho onde me revejo
a ravina onde escuto o meu eco

 

a morte não me assusta
porque não posso assustar-me
com algo que não conheço
morte é fim
e a minha essência é terra e água
que tendem a dissolver-se na paisagem
quando a seca ou a grande chuva renovam a paisagem

 

Mas eu ressurjo sempre renovado
sempre mais sábio
porque revivo em cada momento
o índio infinito que habita cada um de nós

 

 

Daniel D. Dias

Democracia ou partidocracia?

 

O meu vizinho – 5

 

A propósito das recentes eleições presidenciais francesas e dos seus surpreendentes resultados, o meu vizinho debitou-me o seguinte:

“Sabe, vizinho: Dizem que as pessoas se fartaram da democracia representativa, que já não acreditam nos seus valores e daí os fenómenos “populistas” que surgem por aí… Acho que não perceberam nada. A democracia tem sido, até ao presente, não o poder do povo mas o poder dos partidos. Devia antes chamar-se partidocracia em vez de democracia. É um estratagema habilidoso para alguém chegar ao poder. Consiste em cair nas graças dos superiores dum dado clã, que supostamente representa o povo ou parte dele.  Os candidatos começam por vender autocolantes, com entusiasmo e dedicação,  e logo passam às nobres tarefas de colar cartazes ou de fazer segurança. Quem grita mais alto, quem manifesta mais fervor, quem recolhe mais fundos, tem vantagem.  Se tudo correr bem passa então a chefiar um setor, depois um outro maior e por aí a fora. Ganham curriculum e a “confiança do aparelho”. Quem for persistente e suficientemente forte para engolir sapos mas também para se tornar sapo, está a um passo de saltar para o poder. É assim que se chega a presidente ou a primeiro-ministro, sem nunca arriscar um chavo que seja seu, sem nunca dirigir uma empresa que tenha criado, sem nunca tarimbar num emprego. Salvo, temporariamente, claro, se for necessário para “enriquecer” o curriculum próprio…

As pessoas já não acreditam neste sistema e, de facto, querem democracia, mas não têm forma de a escolher, nem sabem como fazer. Só sabem que não querem o que têm. É difícil de dizer que são a favor de alguma coisa. O mais certo é serem contra tudo.

Mas isto há de passar –  desfechou o meu vizinho – O pessoal, mais tarde ou mais cedo, sempre aprenderá alguma coisa.”

E desta forma se despediu.

 

Daniel D. Dias