O drama do melodrama

 

 

 

Tolero o kitsch

e até mesmo o delicodoce

(apesar do risco diabético)

mas o que mais detesto

é o melodramático melodrama

que me irrita

que me deprime

sobretudo

se me logra comover

 

(só não odeio o melodrama

e os seus multifacetados promotores

porque sou inepto a  odiar:

até para odiar é preciso vocação…)

 

o mundo subestima o estilo melodramático

que desde sempre é cultivado

por hipócritas e outros profissionais da mentira

 

o melodrama deturpa a realidade

verrina a análise acutilante

liquidifica os sentimentos generosos

perfidamente subverte as emoções

e deforma a natureza profunda da comoção

 

as pessoas nem parecem reparar

mas todos atos bélicos

todos os grandes conflitos humanos

têm génese num oportuno melodrama

 

 

é por isso que fujo

que me esquivo das muitas formas de melodrama

mesmo das mais convincentes

e sei que corro o risco de parecer frio, indiferente

 

 

refugio-me no humor ou na ironia fina

que são das raras disciplinas

que conferem alguma proteção contra esse flagelo universal

 

Daniel D. Dias

 

Flores tardias

 

As flores tardias

não são óbvias  nem se aguardam

mas irrompem sem se anunciarem

docemente, sem alarde

 

são frágeis e efémeras  como as outras

mas exumam fragâncias esquecidas

e mostram subtis resquícios de perfeição

de remotas primaveras superadas

 

somente a fusão das corolas em secos caules

desperta o labor das aves jardineiras

ou a habitual cobiça das borboletas

exímias na caprichosa vida das plantas

 

Exulto com as flores tardias

que vislumbro nos caminhos, mas  nunca as colho:

imperioso é  que matizem as nossas tardes

e que difundam essa glória do florir

 

Daniel D. Dias

 

Elogio da simetria

Apreciar a simetria é algo banal. Creio que ninguém é indiferente às infindáveis manifestações da simetria. Até mesmo os animais parecem fascinados por tão universal padrão.

A simetria é tão vulgar, tão corrente, que nem nos apercebemos dos seus poderosos efeitos. Ela está presente nos rostos, nos corpos, das pessoas e dos animais e influencia indelevelmente as nossas escolhas e preferências, mesmo que não demos por isso. O poderoso fascínio das flores está certamente na sua incrível panóplia de simetrias. A simetria é talvez o principal sustentáculo da nossa atração visceral pelo belo.

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Somos atraídos pelo que é simétrico, mas como poucas coisas são perfeitamente simétricas, nunca saciamos a nossa ânsia de encontrar novas e mais perfeitas simetrias. Daí a nossa perpétua busca pelo conceito “gestalt” da boa forma. A ideia de harmonia – que subjaze à sensação de “felicidade” -, tem certamente na sua essência a simetria nas suas infinitas manifestações.

Creio que a simetria não se manifesta apenas nas formas visíveis. Nos sons – na música, por exemplo -, provavelmente nos aromas e paladares, talvez até mesmo nos sentimentos e emoções, a simetria está presente. E quando não está presente a receção é de desagrado. Vive-se mal.

Na arte do bonsai – um “do” (caminho) para encontrar a natureza profunda -, pode aprender-se muita coisa. Por exemplo: que uma árvore se mantém viva enquanto houver equilíbrio entre a sua massa radicular e a sua parte exterior. As duas áreas devem ser equilibradas (simétricas). Quando deixamos a planta crescer demasiado, ela corre o risco de morrer de subnutrição. O “êxito” do crescimento fácil e rápido, é pago com a vida da planta.

Este exemplo pode aplicar-se a muitos outros aspetos da vida. Hoje muitas pessoas vivem obcecadas com a forma física e descuram os aspetos subjetivos da existência. Uma vida equilibrada deve ser simétrica: a atividade intelectual deve ser acompanhada por uma equivalente atividade física, ou vice-versa. Qualquer assimetria – mesmo que configure um sucesso -, terá sempre um custo elevado. A sabedoria oriental sempre aconselhou perseguir a “via do meio”. Via do meio que é, afinal, o fulcro de todas as simetrias.

Uma existência bem preenchida deverá também ser simétrica. Os nossos relacionamentos, a nossa nutrição – física e psíquica -, e tudo o mais que preencha a nossa homeostasia, devem ser equilibrados, simétricos. Creio que até na morte a simetria deveria estar presente. Nascemos sem dar por disso e deveríamos também partir sem dar por isso. Suavemente, sem sofrimento. Como uma chama duma vela que se extingue.

 

Daniel D. Dias

Não há lóios no Bairro dos Lóios

 

Mudei do Bairro da Encarnação para o Bairro dos Lóios e descobri que no meu bairro poucos saberão o que são lóios (Centaurea cyanus). Descobri também que não há lóios no Bairro dos Lóios. Dos lóios só resta o nome. Os lóios foram erradicados tal como estão também a ser as flores que recolhi nos espaços livres que sobrevivem perto da minha casa: Ao mesmo tempo que colhia as flores que aqui vos mostro, cantoneiros da autarquia roçavam toda a erva que persiste em renascer na Primavera.
Fico a pensar: Apreciamos a vida desde que a controlemos, que a “civilizemos”, que é o que se passa com estes jardins naturais que estão a ser substituídos por jardins “civilizados”, programados, tratados de forma rápida, económica. Papoulas e lóios não se encaixam nestes programas.

Numa terra perto de Lisboa, que conheço bem, havia um pinheiro manso, majestoso, emblemático, com mais de 200 anos. Construíram à sua beira um empreendimento urbanístico, de traça “moderna”, a que deram o nome, “Urbanização Pinheiro Manso”. Depois mataram o pinheiro porque tapava as vistas do empreendimento… Morreu o pinheiro mas ficou o nome.

É esta a civilização que temos. Uma civilização que aprecia múmias, animais embalsamados, recordações ou vestígios de coisas, mas não as próprias coisas. Esta é uma civilização de placas nas paredes a recordar qualquer coisa, que vivencia o mundo através de fotos, de posts nas redes sociais, documentários da vida selvagem. O êxito dos museus, dos jardins zoológicos, aquários, etc., pode não parecer mas está em linha com este espírito. O objetivo não é proteger a vida, mas apreciá-la à distância, sem riscos, nem trabalho. Tudo o que não está nas jaulas, ou em reservas, pode ser ignorado, eliminado. Desde que não se veja…
As ruas registam os nomes de pessoas – cientistas, atletas, artistas, políticos, etc. – mas quem sabe quem foram essas pessoas? Talvez alguns saibam, mas muito poucos, por dever de ofício, ou por extravagante curiosidade. Extravagante porque só pode ser extravagante alguém que perca tempo com esse mister.

Ainda assim esta questão preocupa as pessoas. Preocupa-as tanto ou tão pouco, que as homenagens, os dias comemorativos, mais do que um novo culto, são um negócio corrente em crescimento acelerado. Não há estação de TV, empresa, ou instituição pública, que não promova, ou que não sonhe promover, eventos dessa natureza. Assim se junta o útil ao agradável: aliviar consciências e divertir o pessoal em galas de homenagem.

E assim se vai lidando com o caráter efémero das coisas e da vida. Empalha-se, mumifica-se, enjaula-se. Mas pega-se tudo com pinças e observa-se de relance. Viver – parece-me – é parar, ignorar o tempo, olhar com as mãos, com os olhos, com o coração. E isto assusta, causa alergias. Por isso se foge para universos imaginários em que somos avatares, mas fingindo, – fingindo tanto quanto possível a 4D – que vivemos no mundo real.
Vejo que mudei de bairro mas que a encarnação continua a ser a mesma.

 

Daniel D. Dias

Elogio da beleza

 
 
Ah, a beleza:
a beleza, a única coisa que nega a ilha que tendo a ser
e que me torna num anódino continente…
 
Ás vezes começa numa folha vazia
ou num tronco oco, ou numa concha
ou numa luz difusa num vale de sombras
ou num olhar
– tanto faz –
luminosa ou sombria, não sei o que é
nenhum traço, nenhuma palavra
a definem com rigor
ela flui de todas as formas
de todos os sons
e esvai-se por entre os dedos mais delicados
é uma fragrância que emana do vazio
e se dissipa sem cessar
 
É impossível pará-la
impossível retê-la na mais subtil armadilha;
a arte é capturar-lhe os vestígios
adivinhar a sua presença
que é permanente, eterna,
e no final recolher sugestões da sua existência
 
Parece-me que a beleza é luz
que é cor
mas sinto-a como som
som que tem cheiro, que tem cor…
 
como é isso possível?
nessa roxa flor transmutada do vermelho
e de múltiplas gamas de azul
posso sentir o aroma do mundo,
da terra inteira
e lá – ao fundo – perceber, nitidamente, o mar?
 
como pode tudo isto estar contido
num minúsculo aglomerado de folhas e pétalas
que não pisei por acaso
e que só insectos dão atenção?
 
Ah, a beleza,
é isso, pois claro:
evanescência que dispensa adjetivos
nómeno sem conteúdo, resiliente a ideias
 
só nesses raros momentos em que cesso de pensar
a vislumbro por instantes…
 
e como te adoro, beleza!
 
Daniel D. Dias

Espelho de mim

 

 

este olhar que não é meu

vê dentro o que fora está

e nem de olhos precisa

 

e os sons que escuto

dispensam estes ouvidos

que aos poucos fui descobrindo

e que não sei a quem pertencem

 

percebo agora que a beleza

está feita, desde sempre

e que nada há para além dela

 

não há enfeites, não há perfeição

a perfeição é a descoberta

e os enfeites são este desejo

de imitar o que vou descobrindo

 

ah, entendo

sou um espelho de mim

 

Daniel D. Dias

Mais Luz

 

A Grande História segue o seu intricado curso que muitos julgam resultar de caprichos celestiais ou da ação de homens predestinados. Mas trata-se duma ilusão. Uma análise aprofundada – objetiva, desapaixonada – evidencia que há um processo histórico, um conjunto de leis universais, inelutável, que subjaze na sua génese. Aníbal se lograsse derrubar Roma talvez a civilização ocidental tivesse hoje outros contornos, mas certamente o modelo de produção que hoje vigora seria o mesmo ou muito semelhante. Sem a Revolução Francesa e o Iluminismo, os Direitos do Homem poderiam ter outra redação mas certamente há muito teriam surgido e a sua essência seria idêntica. Os acontecimentos determinantes da história ocorrem porque há condições objetivas (e subjetivas) para que ocorram e não o contrário. Por isso, um modelo produtivo só dá lugar a outro quando esgota – por completo – o seu potencial; uma inovação crucial só ocorre quando estão maduras as condições para que tal aconteça. É a dialética das coisas.

Tomar consciência desta realidade levou num passado recente a que muita gente esclarecida, humanista, bem-intencionada, preconizasse queimar etapas da história. Já que se conhecia, finalmente, a mecânica da evolução histórica, porque não evitar fases intermédias, difíceis, dolorosas? Mas os ensaios nesta direção deram quase sempre mau resultado e reforçaram as intenções daqueles que permanecem apegados aos seus interesses egoístas. Ou seja: em vez de abreviarem o caminho do progresso, contribuíram para retardá-lo.

Talvez este fenómeno – de acordo com as premissas desse mesmo processo histórico – não pudesse ser evitado. Talvez. Frantz Fanon (1925-1961), filósofo e psiquiatra francês de origem africana, mostrou no seu livro “Os condenados da terra” (1961) que, às descolonizações tão ansiadas após a II Guerra Mundial, não se seguiria, de imediato, a instauração de regimes pacíficos e progressistas. Pelo contrário, mostrou, não sem profundo desagrado, que enquanto não se formasse nos países recém-independentes, nova estratificação social semelhante à das potências colonizadoras – novas burguesias, novas classes burocráticas -, novas lutas, novos conflitos interclassistas, haveriam de ressurgir, e só depois de superada essa etapa, novo sistema social, mais justo, mais progressista, seria então viável.

As revelações de Fanon, rigorosamente fundamentas, constituiram na altura um balde de água fria nos sonhos e aspirações dos militantes anticolonialistas. Mas estes persistiram na sua luta, sem que tivessem obviado queimar etapas, como é evidente hoje em dia. Porém tinham de fazê-lo porque é mesmo assim que se processa a dura aprendizagem da história. Lutar pelo progresso faz parte do processo histórico.

Mas, se não é garantido queimar etapas, está comprovado que é possível retardá-las. O mundo, desde as comunidades primitivas, desde que há história, sempre esteve dividido entre classes com interesses opostos. Obviamente os que estão na mó de cima opõem-se à mudança, a qualquer coisa que ponha, ou pareça pôr, em causa os seus privilégios. E todos pretextos são bons para atingir esse objetivo. O século transato assistiu ao surgimento de regimes retrógrados que deram origem às guerras mais destruidoras de sempre, e mesmo o novo século continua na mesma senda apesar dos tremendos progressos científicos e técnicos que surgiram, só por si, capazes de garantir à humanidade um bem-estar sem paralelo.

 

Pergunto-me: Não será um desses pretextos esta vaga dita neoliberal, que avassala a atual economia mundial? Será este modelo económico baseado exclusivamente no lucro fiduciário – modelo que tudo avalia segundo essa ótica, que exige absurdos crescimentos (de dois dígitos!) às empresas, aos produtores, para que subsistam, – algo inevitável, algo indispensável ao progresso da humanidade? Ou não será antes uma forma, dir-se-ia desesperada, de retardar uma mudança do paradigma económico, um fim de ciclo, porque o modelo produtivo em que se baseia já deu tudo o que tinha a dar?

O mundo atual está repleto de exemplos de retrocessos evitáveis, consequência, direta ou indireta, deste modelo obsoleto. A crise dos refugiados, por exemplo, tem um nexo evidente com as políticas das potências ocidentais que destruíram vários países sob o pretexto de ameaças inexistentes a esconder interesses económicos tão criminosos quanto estúpidos. Muito do discutível sucesso dos “países civilizados” assenta na continuada exploração, sem regras e sem escrúpulos, do mundo subdesenvolvido, e da aliança que mantém com as classes que exercem o poder nessas regiões. Investir nas forças do progresso nesses países, combater as assimetrias regionais, praticar uma cooperação genuína, não seria uma forma de obviar às desigualdades chocantes a que assistimos, com o seu corolário de misérias, de guerras fratricidas, de crimes abomináveis? Mas o poder atual prefere investir os seus recursos em ações repressivas, em exércitos de mercenários, na desinformação, na destruição ambiental…

Os sinais que surgem no mundo, se não estou enganado, parecem revelar um final de ciclo, uma mudança de paradigma, um novo modelo socioeconómico que se avizinha, e com ele, uma cultura nova. Tempos decisivos estes que vivemos: retrocesso e mudança confrontam-se uma vez mais. Quero acreditar que a mudança se imporá, sem sobressaltos de maior, sem pôr em risco a sobrevivência da humanidade. É a minha suprema aspiração.

 

Apesar de tudo estou otimista. Já é tempo da humanidade sair da sombra e gozar a Luz. Luz genuína é o que mais falta, pois, com mais Luz, o demais virá por acréscimo.

 

Daniel D. Dias

O tempo do Tarot

 
Um estudo, hoje divulgado, realizado por investigadores da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (https://www.dinheirovivo.pt/economia/cinco-familias-inseguranca-alimentar/) revela que cerca de 20 por cento das famílias portuguesas (uma em cada cinco famílias) vive em situação de “insegurança alimentar” por não ter acesso a uma alimentação saudável. As razões são diversas mas avultam, o baixo rendimento dos agregados familiares que abrange todo o país com destaque para Açores, Madeira e Algarve, e a falta de informação adequada, que leva as pessoas a abandonar hábitos alimentares saudáveis.
 
O estudo sugere que a ignorância e a informação errada poderiam ser combatidas se fosse utilizado o potencial da comunicação televisiva uma vez que os portugueses, nos quais se incluem a maioria dos idosos em situação de pobreza, de acordo com declarações da apresentadora do estudo, hoje, na Antena 1, veem em média 3 horas de televisão diariamente.
 
Fico a pensar: Ora aí está uma tarefa à altura de programas como “A vida nas cartas”, da SIC, que, de segunda à sexta, se dedicam à nobre tarefa de resolver problemas, familiares, de saúde, de emprego e muitos outros, de tantos e tantos portugueses.

 

Daniel D. Dias

Ser e parecer

 

Salazar dizia que “em política o que parece é”. E talvez tivesse razão. Acredito que entre outras justificações da sua longevidade no poder esta terá sido uma delas e com peso significativo.

A importância do parecer, da imagem, dos políticos e da política, é cada vez mais reconhecida e, hoje em dia, é objeto de estudo científico aprofundado. Proliferam organizações e profissionais nesta área – marketing de imagem, institutos de sondagens especializados, etc. – para ajudar a eleger presidentes e para os manter no poder.

Mas, por melhor que seja a maquilhagem, por mais eficaz que seja a forma de fazer passar as imagens, a dicotomia do PARECE e do É continuará a representar coisas diferentes, que podem coincidir ou não.

Creio que na génese desta preocupação com a imagem está, na maior parte das vezes, algo dúbio ou eventualmente desonesto. Afinal se a confiança nas qualidades próprias fosse absolutamente genuína porque razão haveria alguém de querer colar à sua imagem pública à imagem (empática) de outro alguém? Porque há-de alguém exibir cortes de cabelo a lembrar a princesa Diana ou os maneirismos de Nelson Mandela?

Reconheço – é uma questão antiga: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Faz falta então PARECER (-se) mais – muito mais – do aquilo que se É de facto. Parecer será mais importante que ser? Terá sido este o motivo de se atribuir o Prémio Nobel da Paz a Obama, antes mesmo de ele exercer o seu mandato?

Não sei. Tenho ideias concretas sobre o que parecem e o que são muitos dos líderes mundiais (e nacionais), da atualidade e do passado. É quase inevitável não as ter; acho que sucede o mesmo com toda a gente. Mas não vou falar delas, porque posso não ser justo em todas as apreciações – já tenho mudado de opinião acerca de tanta gente… – e, principalmente, porque receio despertar paixões, tanto inadequadas quando desnecessárias, sobre figuras públicas destacadas.

Mas convido a que observem atentamente e com objetividade a cena pública – nacional ou internacional – e que tirem conclusões. As conclusões possíveis, obviamente, pois nem sempre o que É (ou o que acabou por vir a ser) está acessível ou é claro. Verão que há de tudo: Líderes que, como a pescada, antes de o ser já o eram e que no final geraram enormes deceções; políticos que em nome dos valores da esquerda favoreceram a direita mais arrogante; direitistas que foram forçados pelas circunstâncias a “governar à esquerda” ou próximo dos seus valores.

Neste tempo estranho, de gente estranha, talvez seja útil observar os detalhes, os pormenores das maquilhagens que se usam e tentar perceber as motivações (a verdadeira face) por detrás delas. O sábio poeta Aleixo não se cansou de nos alertar para os equívocos que as imagens podem gerar:

“Sei que pareço um ladrão…

Mas há muitos que eu conheço

Que sem parecer o que são

São aquilo que eu pareço”

Daniel D. Dias

Sinais inquietantes

 

Desejar uma coisa – consciente ou inconscientemente – e ao mesmo tempo o seu oposto, ou receá-la, é a essência da neurose. Pavlov mostrou como se podia produzir experimentalmente esse fenómeno. Alimentando um cão esfomeado sempre que lhe mostravam um foco de luz circular, ao fim dum tempo de consolidação do hábito, o animal reagia, salivando, visionando apenas o sinal luminoso (estímulo associado “agradável”), sem precisar da comida. Paralelamente condicionava-se o animal com outro estímulo associado mas desta feita nada agradável. Infligiam-lhe choques elétricos, sempre que era projetado um foco de luz com forma de barra retilínea em vez do círculo. Passado algum tempo já não eram precisos choques elétricos: a simples exibição desse sinal luminoso bastava para que o cão entrasse em pânico.

Os efeitos da neurose produziam-se quando o cão era submetido a um novo foco luminoso. Inclinado a 45º, o projetor gerava agora um foco luminoso oval que era percecionado ambiguamente pelo animal: insuficientemente redondo para desencadear o desejo pela comida, mas tendencialmente reto a fazer recordar o sinal aterrorizador, a oval tinha algo dos dois estímulos opostos (satisfação e sofrimento) e gerava inquietação e desconfiança. Mas, continuando a reduzir o ângulo do projetor, tornando a oval cada vez estreita – cada vez mais parecida com a barra retilínea associada ao sofrimento -, o cão atingia o paroxismo: desatava a uivar, a urinar, a ladrar, descontroladamente, tentando fugir. Podiam então apresentar-lhe alimento que não comia, apesar de estar esfomeado. Assim se manifestavam os sintomas duma crise neurótica artificialmente induzida.

As sociedades humanas são, seguramente, estruturas muito mais complexas do que as dos cérebros dos cães de Pavlov mas, ainda assim, parecem também comportar-se neuroticamente. As ideologias dominantes – que se manifestam, entre outras coisas, na educação, nas tradições, na comunicação – habituaram as pessoas a determinadas expectativas “agradáveis”, com o objetivo de obter delas cidadãos obedientes e colaborantes.

Mas as governações, em consequência dos jogos de poder e dos interesses egoístas que persistentemente lhes subjazem, acabam repetidamente por mergulhar em contradições, não correspondendo àquilo que prometem, defraudando expectativas. Nos períodos “bons”, os governos lograrão resolver ou atenuar as tensões assim geradas: cedendo parcialmente às pressões existentes, recorrendo a ações demagógicas. Mas também recorrendo a repressões controladas combinadas com medidas “paliativas”. Estas ações poderão acalmar temporariamente ânimos sociais exaltados evitando deflagrar conflitos latentes, ou diferir os problemas para alturas mais favoráveis.

Nos períodos “maus”, nas crises mais agudas, as manifestações neuróticas surgem reforçadas. Os medos, das repressões violentas, da miséria social extrema, o terror da ruína e da falência, renascem no “inconsciente coletivo”. É o tempo de surgirem entre as grandes massas, os “duces”, os falsos messias, que anunciam soluções milagrosas e defendem ideologias alienantes. Então, os poderes exercidos com regras são postos em causa e as pessoas tendem a apreciar mais a força do que a razão. Guerras surgem em geral no corolário destas situações.

Pergunto-me: Será que vivemos num tempo destes? Não tenho a certeza disso e espero bem que não. Todavia há por todo lado sinais inquietantes que me fazem ter vontade de apelar ao Dr. Freud e de recolher-me num confortável divã…
Daniel D. Dias